Lembinha e Maçaro Casaram e Foram Felizes Para Sempre

Lembinha, filha do rei da aldeia, querida por toda a gente, era bela de corpo e alma. As amigas perguntavam, a si mesmas, o que Lembinha tem que as outras não têm. Respondeu uma delas: beleza, educação, respeito e simpatia.
A outra insistiu:
– Não somos bonitas? E todas responderam em coro:
– Somos, mas não viram essas qualidades em nós.
Toda gente gostava de ficar ao lado de Lembinha. Um dia ela fez amizade com dois jovens, Maçaro, um cavalheiro, e Catua, o homem da força.
Catua convidou-a para passear e disse-lhe que gosta muito dela. Lembinha respondeu:
– Tu és bom, gosto da tua amizade e continuaremos a ser amigos.

Ele não ficou satisfeito com a resposta mas nada disse.
Certo dia, Maçaro encontrou Lembinha e convidou-a para um passeio. Ela aceitou e no dia combinado foram os dois a lugares maravilhosos.
Desde então, Lembinha andava mais com Maçaro. Catua não descobria maneira para se encontrar com Lembinha. Ciúme não faltou. E decidiu pedi-la em casamento aos pais. Mas ela estava apaixonada por Maçaro.
Um dia Lembinha e Maçaro foram surpreendidos por Catua quando ele apareceu para conversar com os pais a respeito do casamento. Começou a falar alto e a fazer confusão.
O pai de Lembinha ouviu o burburinho no quintal e foi ver o que se passava. Maçaro retirou-se deixando Catua a discutir.
Lembinha contou ao pai tudo o que se passava. O velho pediu à filha que no dia seguinte trouxesse os dois rivais à sua presença para resolver o problema.
No dia seguinte, o pai de Lembinha, na presença dos jovens desavindos, disse:
– Quem quer a mão da minha filha tem que me trazer um javali vivo!
– Isso é impossível, disse Maçaro.
– Se é impossível deixa a minha filha, disse o pai.
Mas como ambos gostavam muito de Lembinha, aceitaram o desafio e foram para a mata à procura de um javali, que tinham de levar vivo a casa do rei. Passaram uma noite na mata e não obtiveram êxito. No dia seguinte voltaram a casa do pai de Lembinha.
Maçaro regressou convencido a desistir. Catua continuava firme na certeza de conseguir o javali.
– Lamento muito, mas não tenho força para agarrar um javali, disse Maçaro.
– Eu não desisto, vou até ao fim, disse Catua.
Passaram três dias e Catua estava de volta com o javali nas mãos. Apresentou-o ao pai de Lembinha como um vencedor.
O rei disse-lhe que ia reunir todos os mais velhos da aldeia para serem testemunhas da entrega da filha.
No dia marcado, todos os mais velhos estavam reunidos. Catua e Maçaro também estavam na reunião dos sábios. O rei falou:
– Maçaro, desistiu por não ter força. Catua continuou e venceu. Mas se conseguiu agarrar um animal feroz, quando a minha princesinha cometer um erro pode, pode reagir com violência e matá-la. Por isso, quem fica com a minha filha é o Maçaro por ser inteligente.
A assembleia dos mais velhos concordou com a decisão.
Lembinha e Maçaro casaram e foram felizes para sempre.

Jornal de Angola/Mário Cohen


Contos Tradicionais Angolanos, O Viajante Prodigioso Que Veio do Mar

O mar nunca aceita estranhos em casa. Cedo ou tarde atira os intrusos para as praias. Foi assim que chegou a Pinda um homem e um cão, feitos destroços de uma tempestade que afundou o barco em que viajavam. O náufrago falava uma língua estranha e não sabia revelar o seu nome. Por isso foi nomeado de Muntu. O cão tinha pelo abundante e cobreado, era corpulento e tinha olhos meigos. Chamaram-lhe Mbizi.
Quando os pescadores encontraram o homem expulso pelo mar, o cão lambia-lhe o rosto para aquecê-lo e ele respirava tão levemente que se percebia a extinção a qualquer momento. Foi agasalhado, como eram todos os viajantes que aportavam a Pinda. Comeu e bebeu, aprendeu a falar e a dizer. Um dia fez a sua casa e ali ficou com o cão. Muntu era da grande família de Pinda, que se estendia até ao mar do Nzeto. O seu espírito de viajante levou-o ao Mbridge e até mais longe, ao mar aberto do Ambriz.
Muntu era um viajante perpétuo e mal descansava os pés partia logo para outra viagem. Nos intervalos sabia descrever às crianças tudo o que via, todos os trilhos que abria, todas as ideias que punha a voar no céu livre do reino da paz e da abundância. Ele descobriu que os jacarés do Mbridge mergulham nas águas profundas do rio, para não apanharem os pingos de chuva.
O chefe da aldeia de Pinda um dia perguntou-lhe?
– Como resististe ao mar?
E ele respondeu:
– Porque tinha de salvar o meu cão. Jamais partiria, nem para o mundo dos mortos, sem o Mbizi.
– Mas foi ele que te acalentou quando sucumbias na praia…
– Por isso resisti até ao limite. Sabia que um dia ele me ia ensinar o que é a amizade de braços abertos e a lealdade até ao último alento.
Muntu não constituiu família nem aceitou um palmo de terra para fazer a sua lavra. Mas trabalhava nas lavras dos vizinhos e ajudava nas colheitas. Por isso todos o alimentavam de bom grado, até ao dia em que voltava a partir com o seu fiel Mbizi, percorrendo caminhos escondidos nas matas fechadas do Norte.
As crianças rondavam a sua casa, descentrada da aldeia. Espreitavam de longe e viam-no a meditar, sentado num banco à porta de casa. O cão ficava enroscado a seus pés, indiferente ao tempo que escorria vagarosamente, desde a luz crua do amanhecer ao poente irradiando ondas de um vermelho fogueado.
Um dia as crianças chegavam de mansinho para espreitar Muntu e ele já tinha partido para outra viagem. Era mais triste do que ver partir a bela borboleta prestes a ser apanhada. Quando Muntu regressava havia alegria na aldeia, porque nessa noite ele contava tudo o que tinha vivido lá longe, onde as montanhas são mais altas do que o firmamento. Não se cansava de falar e contar. Quase sempre as crianças adormeciam a meio de uma das suas histórias fantásticas.
Um dia Muntu regressou de viagem e Pinda estava triste. As lavras foram arrasadas por pragas e o mar dava pouco peixe. O chefe da aldeia chamou-o e perguntou-lhe:
– O que havemos de fazer para o povo ter abundância?
Muntu juntou os pescadores e ensinou-os a fazer redes para pescar no alto mar. Depois fizeram canoas mais sólidas, que corriam na água empurradas pelo vento batendo na vela feita de fibras de lianas. E quando estavam longe da terra, ensinou-os a navegar pelas estrelas do Cruzeiro do Sul. Em breve voltou a abundância e o chefe da aldeia perguntou-lhe o que queria em troca. E ele disse que só desejava que ninguém mais esquecesse esta verdade:
– Muntu wa sala kafwe nzala. Muntu wa wuta kassâdi kaka. Muntu wa sopa kazingi kaka. Os que trabalham não podem passar fome. Quem casa não pode viver na solidão. Quem tem filhos não pode ser abandonado à sua sorte quando envelhece.
O povo de Pinda deu as mãos, cada um acalentou os mais desesperados, todos se uniram para arrancar da terra o sustento, caçar a imponente mpakassa, ir ao alto mar pescar o peixe que não abundava nas praias. Todas as casas tinham comida, todos recuperaram a alegria. Muntu só voltou a viajar quando a última criança da aldeia dormia repleta e os bebés soltavam pelo canto da boca um fio do leite materno e arrotavam de satisfação.
O chefe da aldeia, quando viu Muntu e o seu fiel Mbizi a caminho de nova viagem, disse:
– Desta vez partes tarde, não quiseste deixar os teus irmãos com fome…
– E Muntu respondeu com um sorriso enigmático:
– Mbote wasukinina kansi ku kondi ko!
É mesmo verdade: mais vale tarde do que nunca!

Seke Ia Bindo/Jornal de Angola


Catete, Angola Centro Cultural Dr.Agostinho Neto


A Paz é Suave e Leve Como Uma Pena

O rei Panzo andava triste porque o seu povo há muito que apenas ouvia os tambores da guerra e do reino vizinho sopravam ventos de violência. Sem paz não há alegria e a tristeza é pior que a pobreza. Um dia ele chamou os seus conselheiros e disse estas palavras:
– Sábios do meu povo, chamei-vos para que me ajudem a encontrar os caminhos da paz. Só saímos daqui quando tivermos uma solução.
As discussões começaram mas nunca mais tinham fim. Alguns mais velhos queriam continuar a guerra até à rendição do inimigo, porque o rei vizinho era mais fraco e jamais conseguiria submeter o povo das montanhas do Pingano. Outros queriam a paz, mas exigir que os mais fracos pagassem um tributo, em compensação pelos prejuízos causados, pelos raptos e mortes causadas. Outros ainda apoiavam o rei na procura da paz, mas exigiam que ninguém cedesse ao inimigo.
O rei Panzo deu por terminado o conselho de sábios mas pediu que todos, em suas casas, com os seus familiares, reflectissem e procurassem uma solução.
Passavam os dias e não surgia uma proposta, enquanto a guerra continuava e morriam guerreiros. Crianças, mulheres e homens eram raptados. O rei Panzo resolveu procurar o velho Manduangu, um eremita que vivia na lagoa do Lukunga e tinha fama de adivinho.
– O que devo fazer para devolver a paz ao nosso povo? – Perguntou o rei Panzo. O sábio respondeu que a paz não tem preço, por isso quem a desejar tem de saber viver com ela na cabeça e sobretudo no coração.
– Talvez um dia possa dar uma resposta, agora só conheço os caminhos da paz que vão da minha casa até à lagoa onde pesco e me abasteço de água.

O rei Panzo voltou à sua cidadela e mal chegou, teve notícia de mais um terrível combate no qual morreram muitos guerreiros e foram raptadas meninas do seu reino, levadas como escravas para o reino vizinho.
Um dia resolveu mandar um mensageiro ao rei vizinho, propondo-lhe um tratado de paz que pusesse fim a tanta morte e sofrimento.
A resposta chegou ao amanhecer do segundo dia, após a partida do mensageiro. Os vizinhos aceitavam a paz, desde que os dois lados destruíssem todas as armas e dissolvessem os exércitos. Afinal o rei Panzo tinha do outro lado da fronteira do seu reino, um povo que não só queria acabar com a guerra como desejava a paz para sempre, acabando com soldados armados.
O rei Panzo regressou a casa do adivinho Mandiaungu e contou-lhe o que havia sucedido.
– Se o vizinho te propõe a paz, deves aceitar. Mas primeiro certifica-te que os teus conselheiros desejam viver de uma forma pacífica e que tu próprio queres uma paz duradoura.
O soberano ficou pensativo e recordou que os seus generais o aconselhavam a prosseguir a guerra, porque o inimigo era demasiado pequeno e fraco para alguma vez poder derrotar os seus exércitos. – Faço a paz, mesmo sabendo que o inimigo está ao alcance das minhas armas e dos meus soldados? – Perguntou o rei ao adivinho.
– Ntantu kakalanga wa fyoti ko! Um inimigo nunca é pequeno. É simplesmente inimigo.
A resposta de Mandiangu fez luz no coração do rei e mal chegou à banza real enviou o seu mensageiro de confiança para informar o seu vizinho que aceitava a paz e acabar com os exércitos na região.
Os povos vizinhos fizeram grandes festas em saudação à paz. Na verdade todos esperavam com ansiedade o dia em que acabasse a guerra. As mães carregavam há décadas o luto, os pais o sofrimento, os jovens a tristeza, porque sabiam que a qualquer momento podiam morrer numa qualquer investida do exército inimigo contra as suas aldeias.
Passaram os meses e a paz durava, sem qualquer perturbação. Quando passou um ano sobre o dia em que os dois soberanos decidiram assinar o tratado de paz, o rei Panzo foi visitar o adivinho. E contou-lhe como tudo estava a correr bem.
Mandiangu disse ao seu rei:
– nkuwu n’tet’a nyanga, kauzitanga ko, kana uzita wana tadi sidi mo: um acordo de paz é leve como um molho de capim, se pesar é porque puseste uma pedra lá dentro!
A paz, todos o sabemos, é suave e leve como uma pena.

SEKE IA BINDO/Jornal de Angola


Estátua de Njinga Mbandi Viaja de Luanda Para Malange

A estátua de Njinga Mbandi que se encontrava no Largo do Kinaxixe, em Luanda, vai ser transferida para a província de Malange, em 2012, para simbolizar as batalhas travadas nessa região durante a repressão colonial.
A informação foi divulgada na quinta-feira, em Malange, pela ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva, quando procedia ao balanço das actividades que desenvolveu durante a visita à terra da Palanca Negra Gigante, onde se inteirou dos monumentos históricos existentes, das obras em curso da biblioteca provincial e do Cine Turismo.
Sem avançar muitos pormenores sobre a transferência, disse que a escultura da rainha, nascida em Malange, vai ser colocada num dos largos da capital da província, a ser indicado pelo governo provincial.
A ministra, que considerou positiva a visita, disse que conseguiu identificar alguns monumentos históricos, com realce para os túmulos onde se encontram sepultados os reis do Ndongo, o cemitério de figuras históricas em Kapanda e o memorial de Teka Dia Kinda, que vão ajudar o Ministério a catalogá-los, para que façam parte da lista do património mundial.
“O Instituto do Património Cultural vai contribuir muito para a gestão de alguns sítios e locais históricos que visitámos, uma vez que são bens para os quais o Ministério quer uma projecção internacional, com base no projecto da Unesco”, disse. Segundo ainda a ministra, o Ministério da Cultura vai ajudar o governo de Malange na construção de bibliotecas e salas de cinema.