Poetas Angolanos

(Kaxicane 17 de Setembro de 1922, – Moscovo 1997)
Agostinho Neto nasceu na aldeia de Kaxicane, região de Icolo e Bengo, a cerca de 60 km de Luanda. O pai era pastor e professor da Igreja Metodista e, a sua mãe, era igualmente professora.
Após ter concluído o curso liceal em Luanda, trabalhou nos serviços de saúde e viria a tornar-se rapidamente uma figura proeminente do movimento cultural nacionalista que, durante os anos quarenta, conheceu uma fase de vigorosa expansão em Angola.
Decidido a formar-se em Medicina,  embarca para Portugal em 1947 e matricula-se na Faculdade de Medicina de Coimbra, e posteriormente na de Lisboa. Dois anos depois da sua chegada à Portugal, foi-lhe concedida uma bolsa de estudos pelos Metodistas Americanos.
agostinho_neto
Envolve-se desde muito cedo   em actividades políticas sendo preso em 1951, quando reunia assinaturas para a Conferência Mundial da Paz em Estocolmo. Após a sua libertação, retoma as actividades politicas e torna-se representante da Juventude das colónias portuguesas junto do Movimento da Juventude Portuguesa, o MUD juvenil. E foi no decurso de um comício de estudantes a que assistiam operários e camponeses que a PIDE o prendeu pela segunda vez, em Fevereiro de 1955 só vindo a ser posto em liberdade em Junho de 1957.
Por altura da sua prisão em 1955 veio ao lume um opúsculo com poemas seus, que  denunciavam as amargas condições de vida do Povo angolano.
A sua prisão desencadeou uma vaga de protestos em grande escala. Realizaram-se encontros; escreveram-se cartas e enviaram-se petições assinadas por intelectuais franceses de primeiro plano, como Jean-Paul Sart, André Mauriac, Aragon e Simone de Beauvoir, pelo poeta cubano Nicolás Gullén e pelo pintor mexicano Diogo Rivera, e em 1957, Agostinho Neto,  foi eleito Prisioneiro Político do Ano pela Amnistia Internacional.
Em 1958, Agostinho Neto licenciou-se em Medicina e, casou com Maria Eugénia, no próprio dia em que concluiu o curso. Neste mesmo ano, foi um dos fundadores do clandestino Movimento Anticolonial (MAC), que reunia patriotas oriundos das diversas colónias portuguesas.
Em 30 de Dezembro de 1959. Neto voltou ao seu País, com a mulher, Maria Eugénia, e o filho de tenra idade, e passou a exercer a medicina entre os seus compatriotas. Em 8 de Junho de 1960, o director da PIDE veio pessoalmente prender Neto no seu Consultório em Luanda.
Uma manifestação pacífica realizada na aldeia natal de Neto em protesto contra a sua prisão foi recebida pelas balas da polícia. Trinta mortos e duzentos feridos foi o balanço do que passou a designar-se pelo Massacre de Icolo e Bengo. Receando as consequências que podiam advir da sua presença em Angola, mesmo encontrando-se preso, os colonialistas transferiram Neto para uma prisão de Lisboa e, mais tarde enviaram-no para Cabo Verde, para Santo Antão e, depois para Santiago, onde continuou a exercer a medicina sob constante vigilância política.
Foi, durante este período, eleito Presidente Honorário do MPLA.
Por mostrar a alguns amigos em Santiago (Cabo Verde) uma fotografia, em que um grupo de jovens soldados portugueses sorriam para a câmara, segurando um deles uma estaca em que foi espetada a cabeça de um angolano e inserta em diversos jornais (por exemplo, no Afrique Action, semanário que se publica em Tunes)  Agostinho Neto foi preso na cidade da Praia em 17 de Outubro de 1961 e transferido depois para a prisão de Aljube em Lisboa.
Sob forte pressão, interna e externa, as autoridades fascistas viram-se obrigadas a libertar Neto em 1962, fixando-lhe residência em Portugal. Todavia, pouco tempo depois da  saída da prisão, Agostinho Neto, em Julho de 1962, saiu clandestinamente de Portugal com a mulher e os filhos pequenos, chegando a Léopoldville (Kinshasa), onde o MPLA tinha ao tempo a sua sede exterior,
Em Dezembro desse ano, foi eleito presidente do MPLA durante a Conferência Nacional do Movimento.
Em 1970 foi-lhe atribuído o Prémio Lótus, pela Conferência dos Escritores Afro-Asiáticos
Com a “Revolução dos Cravos” em Portugal e a derrocada do regime fascista de Salazar, continuado por Marcelo Caetano, em 25 de Abril de 1974, o MPLA considerou reunidas as condições mínimas indispensáveis, quer a nível interno, quer a nível externo, para assinar um acordo de cessar-fogo com o Governo Português, o que veio a acontecer em Outubro do mesmo ano.
Agostinho Neto regressa a Luanda no dia 4 de Fevereiro de 1975, sendo alvo da mais grandiosa manifestação popular de que há memória em Angola
Agostinho Neto que na África de expressão portuguesa é comparável à  Léopold Senghor na África de expressão francesa. foi um esclarecido homem de cultura para quem as manifestações culturais tinham de ser, antes de mais, a expressão viva das aspirações dos oprimidos, armas para a denúncia de situações injustas, instrumento para a reconstrução da nova vida.
Membro fundador da União dos Escritores Angolanos, foi eleito pelos seus pares o seu primeiro Presidente.

Bibliografia:

  • Quatro Poemas de Agostinho Neto, 1957, Póvoa do Varzim, e.a.;
  • Poemas, 1961, Lisboa, Casa dos Estudantes do Império;
  • Sagrada Esperança, 1974, Lisboa, Sá da Costa (inclui os poemas dos dois primeiros livros);
  • A Renúncia Impossível, 1982, Luanda, INALD (edição póstuma).
Adeus na hora da largada
Minha Mãe(todas as mães negrascujos filhos partiram)tu me ensinaste a esperarcomo esperaste nas horas difíceisMas a vidamatou em mim essa mística esperançaEu já não esperosou aquele por quem se espera

Sou eu minha Mãe

a esperança somos nós

os teus filhos

partidos para uma fé que alimenta a vida

Hoje

somos as crianças nuas das sanzalas do mato

os garotos sem escola a jogar a bola de trapos

nos areais ao meio-dia

somos nós mesmos

os contratados a queimar vidas nos cafezais

os homens negros ignorantes

que devem respeitar o homem branco

e temer o rico

somos os teus filhos

dos bairros de pretos

além aonde não chega a luz elétrica

os homens bêbedos a cair

abandonados ao ritmo dum batuque de morte

teus filhos

com fome

com sede

com vergonha de te chamarmos Mãe

com medo de atravessar as ruas

com medo dos homens

nós mesmos

Amanhã

entoaremos hinos à liberdade

quando comemorarmos

a data da abolição desta escravatura

Nós vamos em busca de luz

os teus filhos Mãe

(todas as mães negras

cujos filhos partiram)

Vão em busca de vida.

Voz de Sangue

Palpitam-me

os sons do batuque

e os ritmos melancólicos do blue

Ó negro esfarrapado do Harlem…

ó dançarino de Chicago

ó negro servidor do South

Ó negro de África

negros de todo o mundo

eu junto ao vosso canto

a minha pobre voz

os meus humildes ritmos.

Eu vos acompanho

pelas emaranhadas áfricas

do nosso Rumo

Eu vos sinto

negros de todo o mundo

eu vivo a vossa Dor

meus irmãos.

Mussunda Amigo

Para aqui estou eu

Mussunda amigo

Para aqui estou eu

Contigo

Com a firme vitória da tua alegria

e da tua consciência

O ió kalunga ua mu bangele!

O ió kalunga ua mu bangele-lé-leleé…

Lembras-te?

Da tristeza daqueles tempos

em que íamos

comprar mangas

e lastimar o destino

das mulheres da Funda

dos nossos cantos de lamento

dos nossos desesperos

e das nuvens dos nossos olhos

Lembras-te?

Para aqui estou eu

Mussunda amigo

A vida a ti a devo

à mesma dedicação ao mesmo amor

com que me salvaste do abraço

da jibóia

à tua força

que transforma os destinos dos homens

A ti Mussunda amigo

a ti devo a vida

E escrevo versos que não entendes

compreendes a minha angústia?

Para aqui estou eu

Mussunda amigo

escrevendo versos que tu não entendes

Não era isto

o que nós queríamos, bem sei

Mas no espírito e na inteligência

nós somos!

Nós somos

Mussunda amigo

Nós somos

Inseparáveis

e caminhando ainda para o nosso sonho

No meu caminho

e no teu caminho

os corações batem ritmos

de noites fogueirentas

os pés dançam sobre palcos

de místicas tropicais

Os sons não se apagam dos ouvidos

O ió kalunga ua mu bangele…

Nós somos!

Quintandeira

A quitanda.

Muito sol

e a quitandeira à sombra

da mulemba.

– Laranja, minha senhora,

laranjinha boa!

A luz brinca na cidade

o seu quente jogo

de claros e escuros

e a vida brinca

em corações aflitos

o jogo da cabra-cega.

A quitandeira

que vende fruta

vende-se.

– Minha senhora

laranja, laranjinha boa!

Compra laranja doces

compra-me também o amargo

desta tortura

da vida sem vida.

Compra-me a infância do espírito

este botão de rosa

que não abriu

princípio impelido ainda para um início.

Laranja, minha senhora!

Esgotaram-se os sorrisos

com que chorava

eu já não choro.

E aí vão as minhas esperanças

como foi o sangue dos meus filhos

amassado no pó das estradas

enterrado nas roças

e o meu suor

embebido nos fios de algodão

que me cobrem.

Como o esforço foi oferecido

à segurança das máquinas

à beleza das ruas asfaltadas

de prédios de vários andares

à comodidade de senhores ricos

à alegria dispersa por cidades

e eu

me fui confundindo

com os próprios problemas da existência.

Aí vão as laranjas

como eu me ofereci ao álcool

para me anestesiar

e me entreguei às religiões

para me insensibilizar

e me atordoei para viver.

Tudo tenho dado.

Até mesmo a minha dor

e a poesia dos meus seios nus

entreguei-as aos poetas.

Agora vendo-me eu própria.

– Compra laranjas

minha senhora!

Leva-me para as quitandas da Vida

o meu preço é único:

– sangue.

Talvez vendendo-me

eu me possua.

– Compra laranjas!

Com a Devida Vénia Retirado do Blogue