Poetas Angolanos-Deolinda Rodrigues de Almeida

Deolinda Rodrigues de Almeida(1939-1967)

Mamã

áfrica
mamã áfrica
geraste-me no teu ventre
nasci sob o tufão colonial
chuchei teu leite de cor
cresci
atrofiada mas cresci
juventude rápida
como a estrela que corre
quando morre o nganga
hoje sou mulher
não sei já se mulher se velhinha
mas é a ti que venho
África
Mamã África

tu que me geraste
não me mates
não praguejes um rebento teu
senão, não tens futuro,
não sejas matricida.
sou Angola, a tua Angola
não te juntes ao opressor
ao amigo do opressor
nem a teu filho bastardo
eles caçoam de ti

caíste na ratoeira
enganada
não distingues o verdadeiro do falso
no teu cândido e secular vigor
cegaste
agora és tu

áfrica
mamã áfrica
que dás força ao irmão bastardo
para asfixiar-me
azagaiar-me pelas costas

o opressor, o amigo do opressor
o teu filho bastardo
(também tu, mamã áfrica?)
Divertir-se-ão
Ao ouvir-me expirar

mas África
mamã África
pelo amor da coerência
ainda quero crer em ti.

Com a Devida Vénia Retirado do Blogue