Poetas Angolanos-Alexandre Dáskalos

Alexandre Dáskalos

Poeta angolano, Alexandre Dáskalos nasceu no Huambo, provincia de Angola em 1924 e faleceu em 1961 no sanatório do Caramulo.

Alexandre Mendonça de Oliveira Dáskalos nasceu em Huambo, antiga Nova Lisboa (Angola),. Fez os estudos na terra natal e, em 1942, conclui o 7.º ano, no liceu de Sá da Bandeira, actual cidade de Lubango. partindo  para Lisboa, onde se licenciou em Medicina Veterinária, regressando em 1950 a Angola.

Elemento importante do movimento “Vamos Descobrir Angola” e da Geração da Mensagem, colaborou em O Planalto e em Mensagem (Casa dos Estudantes do Império). Muitos dos seus poemas foram musicados e traduzidos para diversas línguas.

A Sombra das galeras

Ah! Angola, Angola, os teus filhos escravos
nas galeras correram as rotas do Mundo
Sangrentos os pés, por pedregosos trilhos
vinham do sertão, lá do sertão, lá bem do fundo
vergados ao peso das cargas enormes…

Chegavam às praias de areias argênteas
que se dão ao Sol ao abraço do mar…
… Que longa noite se perde na distância!

As cargas enormes
os corpos disformes.
Na praia, a febre, a sede, a morte, a ânsia
de ali descansar
Ah! As galeras! As galeras!
Espreitam o teu sono tão pesado
prostrado do torpor em que mal te arqueias.
Depois, apenas pestanejam as estrelas,
o suplício de arrastar dessas correias.

Escravo! Escravo!

O mar irado, a morte, a fome,
A vida… a terra… o lar… tudo distante.
De tão distante, tudo tão presente, presente
como na floresta à noite, ao longe, o brilho
duma fogueira acesa, ardendo no teu corpo
que de tão sentido, já não sente.

A América é bem teu filho
arrancado à força do teu ventre.

Depois outros destinos dos homens, outros rumos…
Angola vais na sede da conquista.
Hoje no entrechoque das civilizações antigas
essa figura primitiva se levanta
simples e altiva.
O seu cântico vem de longe e canta
ausências tristes de gerações passadas e cativas.
E onde vão seus rumos? Onde vão seus passos?
Ah! Vem, vem numa força hercúlea
gritar para os espaços
como os dardos do Sol ao Sol da vida
no vigor que em ti próprio reverberas:

Não sou cativo!
A minha alma é livre, é livre
enfim!
Liberto, liberto, vivo…

Mais… porque esperas?
Ah! Mata, mata no teu sangue
o presságio da sombra das galeras!

Companheiros

Vinde companheiros Que os vossos braços se abram Aos nossos braços de amigos. – Toma uma cadeira. Senta-te. Conta: Desditas, anseios, desventuras

E desse fulgor ardente que se avizinha

no teu olhar, cavado das viagens,

Como uma estrela numa noite morta…

 

Nós somos todos irmãos.

 

Ah, quando te invadir a solidão

e olhares à volta e sentires apenas

a presença perturbável dos teus ombros,

não estás só!

Vem até nós.

Estarás comigo. Não será morta, a morta esperança do teu olhar sem luz.

Mas que fôlego ingénuo na aventura te lançou em tão inóspitos lugares Deixando assim o teu lar, amigo? Não contes, eu sei qual foi. Foi essa vontade de produzir, de criar, de vencer… 

Oh! Nossa terra, oh nossa mãe! Como se casam em nós os prodígios da natureza forte! O húmus inculto das florestas brota em nós, freme em nós, canta em nós no grito de todos os gritos na ânsia da tua descoberta!… O amor dos nossos corações transborda da nossa alma como a força impulsiva dos teus rios…

Vês, companheiro, eu sou teu irmão, Toma a minha mão, dá-me a tua mão.