Para Acabar com a “Gasosa” a Polícia de Trânsito de Luanda Vai Substituir os Actuais Agentes Por 400 Novos

policia_transitoCerca de 400 novos agentes da Polícia de Trânsito de Luanda começam nos próximos dias a substituir os actuais, medida com que o comando-geral da polícia diz querer acabar com as famosas “gasosas” dos automobilistas.

A posição foi transmitida pelo comandante-geral da Polícia Nacional, comissário-geral Ambrósio de Lemos, que presidiu ao acto formal de troca de efectivos daquela unidade, na terça-feira, na capital angolana.


Poesia Angolana, Viriato da Cruz

 

 

 

Viriato da Cruz nasceu em Porto Amboim em 25 de Março de 1928. Faleceu em 1973 em Pequim. Foi um dos promotores do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola. Colaborou na revista “Mensagem”, da ANANGOLA, na “Antologia de Poetas Angolanos” (CEI, Lisboa), “Antologia de Poesia Negra de Expressão Portuguesa” (Paris); “Poésie Negre Africaine d’Expression Portugaise (Paris, 1969), de Mário Pinto de Andrade. Tem poesia dispersa por vários jornais, antologias e colectâneas.

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Entre a Lua, o Caos e o Silêncio: a Flor

Um “tijolo” saído quentinho das fornalhas das gráficas acabou de conhecer a luz do dia. Nancy Morejon, reputada estudiosa de literatura cubana, convocada por uma outra antologia do poeta jamaicano Paul Mcay, disse que era uma autêntica “jóia bibliográfica”.
A antologia de poesia angolana agora saída a público, um rico tesouro da literatura nacional, intitulada “Entre a Lua, o Caos e o Silêncio: a Flor” cobre muito mais do que um século de existência das letras pátrias, com autores e textos representativos. Tal como os antologiadores da Casa dos Estudantes do Império (CEI) há mais de meio século, os actuais não passam ao largo da poética de tradição oral em línguas nacionais.

Indiscutivelmente, a obra vem enriquecer a inacabada História da Literatura Angolana que ficou por ser redigida desde 2005.
A iniciativa da publicação da antologia é da editora “Mayamba”, capitaneada pelo nosso confrade Arlindo Isabel, numa pesquisa, selecção e organização do escritor, jornalista e investigador Carlos Ferreira (Cassé), e da estudiosa da literatura angolana desde os primórdios da independência, a linguista Irene Guerra Marques, a mãe que deu à luz dolorosamente várias antologias didácticas.
Isso mesmo está patente no prefácio escrito pelo punho do escritor e antigo ministro da Cultura, Boaventura Cardoso, quando recorda, nostálgico, que “foi graças a essas obras antológicas que muitos dos então jovens escritores angolanos, como o autor destas linhas, começaram a ser divulgados em Angola, após o 11 de Novembro de 1975, antes de o serem através de publicações individuais”.
O prefaciador refere-se às antologias publicadas com fins pedagógicos, sob a égide do Ministério da Educação e Cultura, nomeadamente as selectas de Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, que comportavam textos literários para os II e III níveis do Ensino de Base.
“Por mérito próprio, os Anais da História da Literatura Angolana lembrarão com elevada veneração quer a sua figura quer de forma indissociável o seu trabalho intelectual agigantado, de que alunos e estudiosos guardarão eterna e grata memória, pelo seu inestimável contributo na valorização do património literário angolano que lhe deve elevado empenho, no espaço e no tempo”. O autor de Dizanda dya Muenhu sublinha também que “Irene Guerra Marques dedica-se desde há muito ao ensino da literatura angolana, emprestando saber, dedicação e cunho patrióticos de relevo”, observando que “a obra do seu magistério não é individual, é publicamente conhecida, porque foi realizada sob a responsabilidade de um colectivo de quadros do então Centro de Investigação Pedagógica e Inspecção Escolar do Ministério da Educação, da qual a professora Irene fazia parte”.

A respeito da antologia, Boaventura refere antes como sendo de “manifesto pendor pedagógico, esta antologia poética ‘Entre a Lua, o Caos e o Silêncio:
a Flor” prima por uma abrangência metodológica séria e notável, a par de uma rigorosa sistematização de dados que suscitam outras leituras sócio-históricas”.
Ele sublinha que a antologia “vem certamente, preencher uma lacuna nos estudos literários de Angola. Estão, por isso, de parabéns, os autores da mesma e o público interessado em questões de literatura”, destacando previamente que “constitui um contributo para os estudos aprofundados da literatura angolana, no caso da poética das nossas letras”.

Leque alargado de autores

A organizadora da antologia, fazendo jus aos juízos de valor expendidos pelo prefaciador, explica que, mais recentemente, “enquanto docente da cadeira de Literatura Angolana na Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto, e após estruturação de um novo programa, mais detalhado e completo, propus-me elaborar alguns instrumentos de trabalho, que permitissem o cumprimento dos “Objectivos Gerais e Específicos”, assim como dos “Conteúdos Programáticos, apresentados no mesmo (programa)”.
Ela avança outras motivações pedagógicas: “numa primeira fase, projectei a organização de uma “Antologia Poética”, a que se seguirá uma outra, também de carácter pedagógico, já iniciada”.
Quanto aos critérios com que operou para a elaboração do presente trabalho que os leitores podem adquirir por seis mil kwanzas nas livrarias da Baixa da capital, destacam-se: o conjunto da obra literária de cada autor antologiado, a sua carreira de escritor, a qualidade comprovada, a sua importância e impacto no contexto sócio-histórico e político ao longo do processo de consolidação da Nação – refere Irene Guerra Marques, frisando que “não foi possível seguir à risca todos os critérios. Alargou-se o leque de autores, principalmente no que diz respeito aos novíssimos (fim do séc. XX e início do séc. XXI), alguns dos quais só o estudo, o amadurecimento de ideias e uma maior criatividade, se encarregarão no futuro, de confirmar a qualidade da sua produção literária”.

Capacidade criativa libertada

A linguista argumenta mais adiante, objectivando pedagogicamente uma postura crítica do grupo alvo da sua acção formativa – os estudantes universitários – que “pretende-se com esta metodologia, ajudar a libertar a capacidade criativa dos estudantes, levando-os ao estudo, investigação e análise, interpretação e ao contacto individual com os autores possíveis, desviando-os da aceitação total e passiva de todos os estudos e informação que surgem, e que, embora necessárias, devem ser acompanhados de uma reflexão cada vez mais autónoma, individual e profunda”.
Mais especificamente, Irene Guerra Marques sustenta que “esta ideia só poderá ser efectivada, sob orientação dos professores de Literatura Angolana, o que permitirá eventuais novas contribuições ao estudo da Literatura. E consequentemente, do seu desenvolvimento”, tendo em atenção na sua elaboração as grafias originais dos séculos entre XVII e XIX, bem como das línguas nacionais, para os textos literários em causa e respectivas épocas.

De Praxe a Viriato

Segundo a disposição dos textos e autores, foi privilegiado o critério da ordem alfabética, sendo que a antologia abre, paradoxalmente, com Abreu Paxe, “um novíssimo”, e encerra com Viriato da Cruz, pioneiro que lançou as balizas da literatura moderna Angolana, o que não pode deixar de, aparentemente, pôr em causa a estratégia formal do trabalho, apesar da sua natureza manifestamente meritória.
Uma partilha de subconjuntos entre os mais velhos e mais novos, surgidos no pós-independência ajuda a dissipar este eventual equívoco, bem como empresta maior coerência e coesão, sem prejuízo da valia geral do trabalho no seu conjunto.
Carlos Ferreira resume, na segunda parte da introdução, o empreendedorismo da empreitada, a originalidade e a natureza valiosa da antologia, afirmando que “não creio haver memória de se unirem, na história recente da nossa literatura, uma estudiosa conhecedora e profunda da nossa escrita e um escritor, para juntos trabalharem num projecto com estas características. Por outro, porque sabia, como sei de há muitos anos para cá, que, mais do que o trabalho de busca e de pesquisa, moroso, perseverante e disciplinador, a troca de ideias, as opiniões distintas, seriam de importância vital para, simultaneamente, organizar alguma coisa que, não sendo fácil, proporcionasse o hoje em dia raro prazer de debater, de discutir, de opinar, de forma saudável e sem complexos.
A antologia supera de longe e de perto as recolhas anteriores já realizadas em termos de abrangência de autores angolanos, sendo a primeira somente dedicada às letras angolanas, inscrevendo-se igualmente na perspectiva da afirmação da sua singularidade entre as literaturas de língua portuguesa e africanas.
Uma última nota. O nascimento de Mário Pinto de Andrade vem na antologia como tendo sido em 1934, quando foi em 1928, pormenor que não desmerece a obra no geral, porque é uma jóia bibliográfica do património literário angolano.

Norberto Costa/Jornal de Angola

Poetas Angolanos-Viriato da Cruz

(Porto Amboim, Angola, 1928 – Pequim, China, 1973.)
Nasceu em Kikuvo, Porto Amboim em 1928. Fez os estudos liceais em Luanda.

 

Considerado um dos mais importantes impulsionadores de uma poesia regionalista angolana nas décadas de 40 e 50, caracterizando-se a sua obra pelo apego aos valores africanos, quer quanto à temática, quer quanto à forma.
A sua produção está dispersa por publicações periódicas e representada em várias antologias, das quais uma – No Reino de Caliban – reúne a sua obra poética.
Foi um principais mentores do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola (1948) e da revista Mensagem (1951-1952). 
Saíu de Angola em 1957 e em Paris foi juntar-se a Mário Pinto de Andrade, tendo desenvolvido intensa actividade política e cultural.Foi membro-fundador e o primeiro secretário-geral do MPLA. durante os primeiros anos da década 60.
Dissidente deste movimento, esteve exilado em Portugal e noutros países europeus, fixando-se posteriormente na China, onde veio a falecer em 13 de Julho 1973.

 

 Obra Poética

Poemas, 1961, Lisboa, Casa dos Estudantes do Império.
Sô Santo

Lá vai o sô Santo…
Bengala na mão
Grande corrente de ouro, que sai da lapela
Ao bolso… que não tem um tostão.

Quando sô Santo passa
Gente e mais gente vem à janela:
– “Bom dia, padrinho…”
– “Olá!…”
– “Beçá cumpadre…”
– “Como está?…”
– “Bom-om di-ia sô Saaanto!…”
– “Olá, Povo!…”

Mas por que é saudado em coro?
Porque tem muitos afilhados?
Porque tem corrente de ouro
A enfeitar sua pobreza?…
Não me responde, avó Naxa?

– “Sô Santo teve riqueza…
Dono de musseques e mais musseques…
Padrinho de moleques e mais moleques…
Macho de amantes e mais amantes,
Beça-nganas bonitas
Que cantam pelas rebitas:
“Muari-ngana Santo
dim-dom
ualó banda ó calaçala
dim-dom
chaluto mu muzumbo
dim-dom…”
Sô Santo…

Banquetes p´ra gentes desconhecidas
Noivado da filha durando semanas
Kitoto e batuque pró povo cá fora
Champanha, ngaieta tocando lá dentro…
Garganta cansado:
“coma e arrebenta
e o que sobra vai no mar…”

Hum-hum
Mas deixa…
Quando Sô Santo morrer,
Vamos chamar um Kimbanda
Para ngombo nos dizer
Se a sua grande desgraça
Foi desamparo de Sandu
Ou se é já própria da Raça…”

Lá vai…
descendo a calçada
A mesma calçada que outrora subias
Cigarro apagado
Bengala na mão…

… Se ele é o símbolo da Raça
ou a vingança de Sandu…

(No reino de Caliban II –  antologia panorâmica de  poesia africana de expressão portuguesa)
Serão de menino

na noite de breu
ao quente da voz
de suas avós,
meninos se encantam
de contos bantos…

“Era uma vez uma corça
dona de cabra sem macho…
…………………………………..
… Matreiro, o cágado lento
tuc… tuc… foi entrando
para o conselho animal…
(“- Tão tarde que ele chegou!”)
Abriu a boca e falou –
deu a sentença final:
“- Não tenham medo da força!
Se o leão o alheio retém
– luta ao Mal! Vitória ao Bem!
tire-se ao leão, dê-se à corça.”

Mas quando lá fora
o vento irado nas fresta chora
e ramos xuaxalha de altas mulembas
e portas bambas batem em massembas
os meninos se apertam de olhos abertos:

– Eué
– É casumbi…

E a gente grande –
bem perto dali
feijão descascando para o quitande-
a gente grande com gosto ri…

Com gosto ri, porque ela diz
que o casumbi males só faz
a quem não tem amor, aos mais
seres buscam, em negra noite,
essa outra voz de casumbi
essa outra voz – Felicidade…

(No reino de Caliban II –  antologia panorâmica  de poesia africana de expressão portuguesa)
Rimance da menina da roça

A menina da roça
está no terreiro
cosendo a toalhinha
pró seu enxoval…
– “ Que céu tão lindo!,
e o encanto da mata!…
Ai, tanta beleza
no cafezal…”

A menina da roça terá poesia
terá poesia nos olhos de mel?

A menina da roça
chega à janela
e na estrada branca
a vista alonga…
– “É o carro a vir?”
Não… é o bater compassado
do aço de enxadas
dos negros na tonga…

A menina da roça tem é um namoro
tem um namoro com um motorista

A menina da roça
veio à varanda
e os olhos erra
no verde à toa
– “Está ele a chegar?!”
Ah… são negros pilando
dendém para azeite
na grande canoa

(Prucutum, lá do telheiro,
vai chamar o meu amor)

A menina da roça
acorda à noite
ouviu um barulho
na escuridão
– “O carro chegou!…”
Oh… é o pulsar
apressado
do seu coração

(Por que bates tão depressa, coração alucinado?
Coração alucinado, espera que o dia amanheça)

– “Já viu a minina?…”
“Hem… tem cor marela
do mburututu…”
– “E não come nem nada…”
– “E os olhos de mel
tão-se afundar
num lago azul
que faz sonhar…”
Conversam as negras
à boca apertada

(minha dor, ninguém a saiba –
não há peito em que ela caiba)

A menina da roça
escuta dorida
a triste canção
que vem do rio

Que vem do rio? – Que vem do peito:
baixinho, lá dentro,
chora de amor
o coração.

Menina da roça – águas do rio
saudades da fonte… desejos de amar.

(No reino de Caliban II –  antologia panorâmica de poesia africana de expressão portuguesa)

Namoro
Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com a letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar

e dando calor ao sumo das mangas.
sua pele macia – era sumaúma…
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
tão rijo e tão doce – como o maboque…
Seu seios laranjas – laranjas do Loge
seus dentes… – marfim…
Mandei-lhe uma carta
e ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
que o Maninjo tipografou:
“Por ti sofre o meu coração”
Num canto – SIM, noutro canto – NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou.

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro…
E ela disse que não.

Levei à avó Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu…
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos…
falei-lhe de amor… e ela disse que não.

Andei barbado, sujo, e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
” – Não viu…(ai, não viu…?) Não viu Benjamim?”
E perdido me deram no morro da Samba.
E para me distrair
levaram-me ao baile do sô Januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso às moças mais lindas do Bairro Operário

Tocaram uma rumba dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: “Aí Benjamim!”
Olhei-a nos olhos – sorriu para mim
pedi-lhe um beijo – e ela disse que sim.

(No reino de Caliban II –  antologia panorâmica de poesia africana de expressão portuguesa)

Mamã negra (canto da esperança)

(À memória do poeta haitiano Jacques Roumain)

Tua presença, minha Mãe – drama vivo duma Raça,
Drama de carne e sangue
Que a Vida escreveu com a pena dos séculos!

Pela tua voz
Vozes vindas dos canaviais dos arrozais dos cafezais
[dos seringais dos algodoais!…
Vozes das plantações de Virgínia
dos campos das Carolinas
Alabama
Cuba
Brasil…
Vozes dos engenhos dos bangüês das tongas dos eitos
[das pampas das minas!

Vozes de Harlem Hill District South
vozes das sanzalas!
Vozes gemendo blues, subindo do Mississipi, ecoando
[dos vagões!
Vozes chorando na voz de Corrothers:
Lord God, what will have we done
– Vozes de toda América! Vozes de toda África!
Voz de todas as vozes, na voz altiva de Langston
Na bela voz de Guillén…

Pelo teu dorso
Rebrilhantes dorsos aso sóis mais fortes do mundo!
Rebrilhantes dorsos, fecundando com sangue, com suor
[amaciando as mais ricas terras do mundo!
Rebrilhantes dorsos (ai, a cor desses dorsos…)
Rebrilhantes dorsos torcidos no “tronco”, pendentes da
[forca, caídos por Lynch!
Rebrilhantes dorsos (Ah, como brilham esses dorsos!)
ressuscitados em Zumbi, em Toussaint alevantados!
Rebrilhantes dorsos…
brilhem, brilhem, batedores de jazz
rebentem, rebentem, grilhetas da Alma
evade-te, ó Alma, nas asas da Música!
…do brilho do Sol, do Sol fecundo
imortal
e belo…

Pelo teu regaço, minha Mãe,
Outras gentes embaladas
à voz da ternura ninadas
do teu leite alimentadas
de bondade e poesia
de música ritmo e graça…
santos poetas e sábios…

Outras gentes… não teus filhos,
que estes nascendo alimárias
semoventes, coisas várias,
mais são filhos da desgraça:
a enxada é o seu brinquedo
trabalho escravo – folguedo…

Pelos teus olhos, minha Mãe
Vejo oceanos de dor
Claridades de sol-posto, paisagens
Roxas paisagens
Dramas de Cam e Jafé…
Mas vejo (Oh! se vejo!…)
mas vejo também que a luz roubada aos teus
[olhos, ora esplende
demoniacamente tentadora – como a Certeza…
cintilantemente firme – como a Esperança…
em nós outros, teus filhos,
gerando, formando, anunciando –

o dia da humanidade

O DIA DA HUMANIDADE!…

(No reino de Caliban II –  antologia panorâmica de poesia africana de ex-pressão portuguesa)

Makèsú
“Kuakié!… Makèzú…”
………………………………………..
O pregão da avó Ximinha
É mesmo como os seus panos
Já não tem a cor berrante
Que tinha nos outros anos.

Avó Xima está velhinha
Mas de manhã, manhãzinha,
Pede licença ao reumático
E num passo nada prático
Rasga estradinhas na areia…

Lá vai para um cajueiro
Que se levanta altaneiro
No cruzeiro dos caminhos
Das gentes que vão p´ra Baixa.

Nem criados, nem pedreiros
Nem alegres lavadeiras
Dessa nova geração
Das “venidas de alcatrão”
Ouvem o fraco pregão
Da velhinha quitandeira.

“Kuakié!… Makèzú, Makèzú…”
“Antão, véia, hoje nada?”
“Nada, mano Filisberto…
Hoje os tempo tá mudado…”

“Mas tá passá gente perto…
Como é aqui tá fazendo isso?”

“Não sabe?! Todo esse povo
Pegô num costume novo
Qui diz qué civrização:
Come só pão com chouriço
Ou toma café com pão…

E diz ainda pru cima
(Hum… mbundu Kene muxima…)
Qui o nosso bom makèzú
É pra véios como tu.”

“Eles não sabe o que diz…
Pru qué Qui vivi filiz
E tem cem ano eu e tu?”

“É pruquê nossas raiz
Tem força do makèzú!…”

(No reino de Caliban II –  antologia panorâmica de poesia africana de ex-pressão portuguesa)

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Com a Devida Vénia Retirado do Blogue


Poetas Angolanos-Abreu Paxe

Abreu Castelo Vieira dos Paxe
Nasceu em 1969 no vale do Loge, município do Bembe província do Uíge, (Angola)
Licenciou-se no Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED), em Luanda, na especialidade de Língua Portuguesa. É docente de Literatura Angolana nesta mesma instituição.
É membro da União dos Escritores Angolanos (UEA)
Venceu o concurso Um Poema para África em 2000,
Foi animador do Cacimbo do Poeta na sua 3ª. edição, actividade organizada pela Alliance Française, por ocasião da dia da África.
Figura na Revista Internacional de Poesia “Dimensão n. 30 de 2000, na antologia dedicada à poesia contemporânea de Angola, editada em Uberaba, Brasil.
No Brasil, foi publicado nas revistas Dimensão (MG), Et Cetera (PR) e Comunità Italiana (RJ), Portugal, na antologia Os Rumos do Vento, (Câmara Municipal de Fundão).
Publicou:

A chave no repouso da porta (2003), que venceu o Prémio Literário António Jacinto.
O Vento fede de luz, Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2007.

A câmara elemento da rasura

transmudar o monólogo obscuro emagrece
o tempo contrária plenitude imperfeita cai azeda palavra
há sempre limites para o exílio de textura vertical
penumbra os ângulos auroras de meia superfície
molham a relva tarde os papéis brancos infernos
ainda um corpo imperativa bainha defeito lençol
nascimentos esquecimentos descobrimentos
de rima relvado
poema fumaça da água viva conjunção os escombros
mastigado avesso árvores plana geometria parada
lança rasura a transparência devolve a montanha outra lavra

Abreu Paxe, in A CHAVE NO REPOUSO DA PORTA
Luanda: INIC, 2003. Colecção A Letra 29 Prémio Literário António Jacinto, 2003

O limão fruto do mês

no tópico a penumbra limita o céu
a deus a mesma paragem
passa em liberdade suave textura
a mulher tarde horizontal
de estrutura espessa o género substantiva camada
passa a boca espalhada pelo corpo
guarda todos os traços femininos empurram o limão
permanecem no caminho de frias letras
decifrada a edição é toda ampla pluma
os determinadores pernas no planeta as sedas
deixam de lado os factos contextuais
as luzes estendem-se até a nudez
a existência tão longa produção constrói estrelas
outro corpo
as trevas janelas inquilinos selando juro

Abreu Paxe in O VENTO FEDE DE LUZ Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2007.

O Material o Andor das Paredes

todos os dias estas velas traziam alegóricas cidades.
mesma surpresa confidente pé
o céu todo dia sentado.
na terra o material das paredes empurra deitado
o meio-dia vestido inesquecível encantamento.
os olhos adiante lúcia na irrigação hoje primeiro dia
eram falas no sétimo mês inquieto discurso dentro dele
o céu todo dia de pé.
a terra material das paredes declarativos os espelhos
vidro fundo o sinal próximo acinzentado andor
este lugar se nada ocupa só dissolve
o possível sorriso na imutabilidade do tempo
De Certo Modo os Destroços Palavras
De igual modo as partículas invariáveis traços lábias
sempre há uma mulher no mal
por isso trepo meu olhar pelas paredes e pelo tecto
o último cruzar de pernas
zona prestigiada o eixo compreendia o acento de intensidade
junto todos os sentidos no modo algum tempo exacto
sem esquecer na via erudita expressão
o étimo uma mesa com o portal aberto
outro reino de certeza
a comunicação oficial adoptou o berço língua lençol
tanto tempo sonorizado
estava inscrito nas fronteiras este período
das alíneas funções sintácticas
diferenças dos pares vocabulares
nascem outras partículas variáveis destroços

Muma Ulunga da Brevíssima Existência

Sinto em mim oposto ao medo
– lá para dentro minha pedra (brevíssima existência) -,
o viver silenciado
como se desta vez a existência
abrisse a alma que o guia muna ulunga
a calma mas próxima função
conduz-me anunciando a sedução
a noite ganha razão
como ferida a glória no duro labirinto
muito perto do sofrer
morre em mim oposto a amargura
a doçura da vida espumas de luz lá para diante:
o fracasso, a desonra. que importa a vitória
talvez sobre os dias porque alguém me esmaga a cidade
pó só pó sobre os ombros da morte o vazio
efectivamente intervalo de noites a brevíssima,
inacreditável existência (a pedra) já nada seduz )Os Meus Agradecimentos ao BlogueLeia Também