A História de Angola Precisa de Mais Pesquisa

O escritor Pepetela mostrou-se, quinta-feira, em Luanda, preocupado com o fraco conhecimento e a pouca pesquisa sobre a história de Angola.
Pepetela fez este comentário ao Jornal de Angola, à margem da apresentação do seu mais recente romance “A Sul. O Sombreiro”, no auditório com o seu nome, no Instituto Camões, em Luanda.
Segundo o escritor, o objectivo é chamar a atenção, sobretudo dos historiadores e estudantes universitários, para a necessidade de compreenderem melhor a história de Angola.
O autor, que escreveu o romance “A Sul. O Sombreiro” em dois anos, disse que este livro foi idealizado há mais de 20 anos, quando publicou uma crónica sobre Manuel de Cerveira Pereira e a fundação de Benguela. “Tenho escrito uma crónica que é praticamente o roteiro deste livro, que acabo de apresentar”, disse Pepetela, acrescentando que “é conhecendo o passado, que seremos capazes de lutar para um bom futuro”.
Questionado sobre a pressão que as editoras impõem aos escritores, lembrou que “nunca foi pressionado” para a conclusão das suas obras. “Felizmente não é o meu caso. Nunca uma editora pressionou-me com prazos para concluir um livro. Quando termino uma obra entrego à editora e se tenho algumas dúvidas dou a pessoas que possam dar o seu ponto de vista sobre um determinado tema”, explicou.


>"A Sul. O Sombreiro" O Mais Novo de Pepetela

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O escritor Pepetela regressou ontem aos livros com o lançamento, em Portugal, do seu mais novo romance, “A Sul. O Sombreiro”, sobre os primórdios do colonialismo, no qual o autor procura mostrar uma época desconhecida da história de Angola.
O livro, que conta a história do governador de Angola de 1615 a 1617, Manuel Cerveira Pereira, conduz o leitor à Angola dos séculos XVI e XVII, enquanto Portugal vivia sob o domínio filipino.
“Entre lutas de poder, muitas conspirações, envolvendo governadores e ordens religiosas, com os franciscanos e os jesuítas na linha da frente, travamos conhecimento com homens muito ambiciosos, com um inglês um pouco doido, e com os terríveis jagas, os guerreiros incomparáveis que povoavam os piores pesadelos dos brancos, ao mesmo tempo que nos deixamos encantar por um fugitivo que se torna um aventureiro e explorador de terras por desbravar”, escreve o autor no prefácio.

Repleto de aventuras, com 360 páginas e o selo da editora Dom Quixote, o romance tem como pano de fundo a cidade de Benguela, com principal realce para a ditadura de Manuel Cerveira Pereira e o papel da Igreja Católica na altura.
A História de Angola relata que o trajecto de vida de Manuel Cerveira Pereira foi muito conturbado: extremamente severo, lutador e ambicioso, confrontou-se com inúmeras oposições e intrigas, tendo, inclusivamente, sido vítima de tentativa de assassinato por envenenamento e outros actos de grande violência.
“A estória merece ser contada com alguns detalhes. O Manuel Cerveira nunca escondeu a amizade tecida com os hipócritas jesuítas, os verdadeiros chefes do território, passando no seu retiro maior parte do tempo ocioso de Luanda”, diz o escritor. Contada na visão de Simão de Oliveira, a personagem principal, que é um padre recém-nomeado, o livro aborda ainda a força dos jesuítas na antiga colónia de Angola. “Não posso defender em público ideias religiosas tão perigosas como as que acabo de expor, apenas guardá-las nos recessos do silêncio temeroso, como fizeram o meu avô e o meu pai”, escreve Pepetela. Pepetela é o pseudónimo literário do escritor Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos. Frequentou o Ensino Superior em Lisboa e iniciou a sua actividade literária e política na Casa dos Estudantes do Império. Como membro do MPLA, participou activamente na governação de Angola, após o 25 de Abril. Da sua obra destacam-se os romances “Lueji”, “Mayombe” (Prémio Nacional de Literatura de Angola), “Yaka” e “O Cão e os Caluandas”. A atribuição do Prémio Camões, em 1997, confirmou o seu lugar de destaque na literatura.


Pepetela é Distinguido Com Título de Doutor “Honoris Causa” Pela Universidade do Algarve

Pepetela, um dos escritores mais lidos
da língua portuguesa, disse, na ocasião,
ser impossível separar a obra e vida de
um escritor da história e cultura do seu povo”.


África 21 – O escritor angolano Pepetela, pseudónimo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, foi distinguido, quarta-feira (28), pela Universidade do Algarve, no sul de Portugal, com o título de doutor “honoris causa”.

Pepetela, um dos escritores mais lidos da língua portuguesa, disse, na ocasião, ser impossível separar a obra e vida de um escritor da história e cultura do seu povo.

“Compreendo o gesto como vontade de homenagem que ultrapassa o próprio homenageado, mas também, e principalmente, visa uma literatura e uma nação, a angolana”, disse Pepetela, em discurso pronunciado durante o evento.

“Dedico-o também à minha mãe, que, como se verá de seguida, teve um papel decisivo no meu percurso, e à minha mulher, infelizmente ausente nesta ocasião, responsável por, pelo menos, metade daquilo que tenho produzido”, afirmou o escritor.

Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos é natural de Benguela, cidade do litoral sul de Angola, onde nasceu em 1941. Licenciado em Sociologia, Pepetela participou activamente do movimento de libertação de Angola, nas fileiras do MPLA.

O seu primeiro romance, Mayombe, retrata as vidas e os pensamentos de um grupo de guerrilheiros em Cabinda, durante a luta de libertação. Da sua bibliografia fazem parte títulos como Yaka, A Geração da Utopia, A Gloriosa Família, Lueji, Jaime Bunda, Predadores, O Quase Fim do Mundo e O Planalto e a Estepe.

Além de escritor, galardoado com diversos prémios internacionais, entre eles o Prémio Camões, Pepetela é docente da Faculdade de Arquitectura da Universidade Agostinho Neto, em Luanda.


Horror do Vazio


Pepetela

Sei que pode parecer repetitivo, mas afligem-me as megalomanias se apossando de algumas cabeças que assumem responsabilidades em relação a Luanda. Uns tantos acham que merecemos ter uma capital no estilo Singapura ou Hong Kong, com torres de quarenta andares (no mínimo) ao longo do mar.

Não é forçosamente para amealhar umas comissões, como imediatamente pensam os nossos cérebros borrados de preconceitos, embora uns tantos aproveitem. Nada de novo, afinal o mundo está cheio de processos por causa do imobiliário e o cinema e a literatura até já esgotaram o tema.

O que me preocupa é muita gente estar sinceramente convencida que isso é que é bonito e assim é que será viver bem. Têm horror ao vazio que nas suas cabeças significa uma praça, um jardim, um parque, um desperdício de espaço que ficaria melhor com uma torre no meio (antes dizia-se arranha-céus, mas reconheço o exagero americano ao inventar o termo, porque os céus não têm costas, são da natureza dos anjos, e ninguém imaginaria um edifício a arranhar as costas de um anjo).

Torre é melhor, lembra logo aquelas construções onde se enfiavam os prisioneiros para morrerem lentamente, como a célebre Torre de Londres, ou onde se aninhava o povo da Europa medieval para se defender de ataques. Torre sim, pois os seus utentes/prisioneiros vivem no medo de sair à rua, de viver a cidade, enclausurados e protegidos da miséria que espalham à volta de si.

Queixamo-nos do trânsito na baixa da cidade (não só na baixa, sejamos justos) e nem sempre escapamos de lá cair, porque ali está concentrado mais de metade do capital financeiro e dos serviços do país. E querem fazer mais torres, para atrair mais gente e mais carros? Que as torres vão ter parques de estacionamento, dizem os defensores das ideias futuristas.

O problema é entrar ou sair dos parques, porque as ruas estão atulhadas de carros. Claro que há uma solução do mesmo estilo. Fazer as ruas da baixa com andares, género auto-estrada em fatias sobrepostas, ou até com viadutos por cima dos prédios, a arranhar as nuvens. Isso seria um arranhanço útil. Já agora peço, façam um túnel por baixo da baía ou uma ponte a ligar o bairro Miramar à Ilha, assim chegamos à praia em cinco minutos, como era há vinte anos atrás.

Como de todos os modos a ideia geral é dar cabo da baía e da Ilha, também tanto faz, mais ponte menos ponte. Suponho também que já deve haver negociações para se tirar a Igreja da Nazaré do sítio onde está, a ocupar indevidamente um espaço nobre para mais uma torre. Uma pequena concessão não fica mal, mantém-se a igreja na cave do edifício.

A História que se lixe, não foi a lição da destruição do palácio de D. Ana Joaquina? Então continuemos. Neste afã de ocupar todos os espaços, proponho também acabar com o prédio dos correios, bem feio e sem valor arquitectónico por sinal, e já agora com a praceta à sua frente, outro desperdício de espaço E aquele compacto e azul edifício que serve a polícia? Um quarteirão inutilizado!

A polícia pode ocupar um andar da nova torre. Com menos agentes, claro, para se fazer encolher o Estado, assim mandam os compêndios do liberalismo económico, nossa nova Bíblia. Problema que estamos com ele é que todas essas novas construções vão ter sérias infiltrações de água salgada, pois ali antes era mar. E o mar gosta de recuperar o que lhe roubaram, ainda mais agora com a previsão da subida dos oceanos, como em todas as conferências se apregoa.

Vai ser lindo, com as fundações das torres a serem corroídas pelo salitre e os prédios a desabarem. Felizmente para eles, já não estarão cá os responsáveis nem os seus filhos. E os netos dos outros que se lixem.

 


Gente Com Língua de Gato

Juro por tudo, não queria tratar este assunto. Até já tinha uma crónica prontinha para o número de Janeiro, falando de coisas mais interessantes. Mas houve alteração de programa e pedem-me os editores para escrever sobre algo relevante que aconteceu este ano em Angola, a jeito de tiro final.

E sou obrigado a cometer o que recusava fazer: escrever sobre lambe-botas, atipicismos e outras esdruxulices que relampejaram nos calmos e previsíveis céus da política cá do burgo.

Há tentativas de revisão constitucional, comissão, metodologia e propostas para se conseguir obter nova lei magna. Parece ser desperdício de tempo e talentos. Para alguns será sempre um ganho, atirando algumas questões importantes para mais longe, mas a insinuação vem de maldade minha, concedo.

Só num aspecto me parece útil, e diz mesmo respeito ao sistema do poder: se acabarem com o dito semi-presidencialismo, fico contente. Porque essa invenção francesa, talvez sirva para eles, que sempre foram de andar entre o peixe e a carne. Os portugueses imitaram-nos e também não se sentem confortáveis com o sistema, embora nem ousem dizê-lo em voz alta. Os europeus têm suas idiossincrasias que devemos respeitar. Mas já o Presidente de São Tomé e Príncipe veio muito acertadamente reconhecer que a principal causa de instabilidade política do seu país tem a ver com o regime semi-presidencialista.

Para o resto, não vejo utilidade de tanto dinheiro gasto para se mudar uma lei. Ainda por cima se não se respeita a metodologia adoptada para o fazer. Muito provavelmente, só o peixe miúdo vai apanhar com essas regras em cima e forçado a obedecer, pois os graúdos passarão por cima dela com 4×4 de luxo.

Afirmo, fazendo chover mais no molhado, um partido mudando à última hora a proposta que todos os seus membros defendiam a golpe de catana se necessário fosse, presumivelmente estará a jogar contra os regulamentos. Se fosse um cabulas qualquer a tentar jogar em fora de jogo, logo o árbitro lhe dava cartão vermelho. No entanto, a Constituição que vai ser mudada nunca foi cumprida, o semi-presidencialismo idem, quem duvida?

Mas o espantoso não é isso, estamos habituados a que não se respeite metodologias e acordos passados; o espantoso é que bastou o chefe dizer que talvez tivesse outra ideia para todos declararem que nunca estiveram de acordo com a proposta apresentada com fanfarra e fogo-de-artifício, para se arregimentarem militante e agressivamente atrás da palavra do chefe. E lá vimos os mesmos de sempre a argumentar convictamente sobre a perspicácia, a ousadia intelectual, a inovação, etc. (já se conhecem os encómios dos discursos de fim de ano ou de aniversário)…

O lambe-botismo de alguns políticos e comentadores raia a sem-vergonhice mesmo. Estão lá só para cantar angélicas melodias aos ouvidos de quem manda e apanhar as migalhas. O problema é que de tanto lamber botas os responsáveis menores e intelectuais de plantão já têm a língua áspera como lixa. De onde se conclui que o melhor militante é o que tem língua de gato. Por isso, a entrada para um próximo congresso será a aspereza da língua.

Certamente 2010 trará novas surpresas. É a nossa idiossincrasia. Por isso deve haver presidencialismo puro e duro, sem atipicismos moderadores, ou sim ou sopas, ou carne ou peixe, abaixo o semi! A propósito, só uma dúvida: bacalhau é mesmo peixe? É que se aproxima o natal e nós comemos bacalhau com vinho tinto, como se de carne se tratasse. Perplexidades típicas de afrancesados!
Pepetela