Pepetela em Entrevista ao Rede Angola, “O Estado da Cultura e Literatura Angolana”

Fotos de Ana Brígida pepetela_Os leitores perdoarão que este texto comece com uma má notícia: Pepetela não está a escrever nenhum livro novo. Mas se a caneta está pousada, não será por muito tempo. Até porque a realidade pede que se escreva, não vá esta tornar-se num estranho. “Eu só compreendo quando escrevo, senão não percebo nada do que se está a passar”, admitiu em conversa ao Rede Angola, na Feira do Livro de Lisboa.


Pepetela “A Cidade Voraz” (A Cidade Engoliu o Sistema, Engoliu a Cultura)

pepetela“(…) Os habitantes perderam a memória, mal transmitida de gerações passadas, não associando portanto a forma de viver (ou de obedecer) à cada vez mais esquecida escravatura. No entanto, sob novas formas, ela permanece”, escreve Pepetela.

“A cidade engoliu o sistema, engoliu a cultura, ou, se quisermos, o reverso, o sistema engoliu a cidade, a cultura engoliu o sistema”. A cidade fervilha, mesmo antes de o dia nascer.

As pessoas, estremunhadas, muitas sem a cara lavada por falta de água nas casas, avançam dos bairros periféricos, das novas urbanizações, do Cacuaco, de Viana, até de mais longe, do Zango, do Panguila, do Morro dos Veados, convergindo para o centro, onde há trabalho ou possibilidade de um negócio.

Vêm muitos a pé, de carro individual ou, sobretudo, de candongueiro, os táxis coletivos que compensam a falta de transportes públicos, projeto sempre adiado pelas autoridades competentes, com desculpas descosidas. De comboio só mesmo os sortudos de Viana. O cheiro dos mal acordados se sobrepõe ao perfume barato com que as mulheres tentam disfarçar outros odores.

Nos carros estão famílias inteiras, os filhos arrancados da cama às cinco da manhã e continuando a dormir na viagem, para poderem chegar a horas à escola ou creche e os pais depois seguirem para o trabalho. Gente com dinheiro para ter carro e talvez uma vivenda, mas sem tempo para viver, perdida no trânsito.

Jovens usam motos, alguns aproveitam até para o negócio de levar clientes atrás. Kupapatas se chamam, nome nascido em Benguela, mas depressa se espalhando pelo país.

A cidade é um bicho vivo, cada vez mais desperto.

E voraz.

As vidas ficam sujeitas às necessidades e desejos da cidade, a ela entregando por vezes a alma. Pelo menos a consciência, vencida pelo imperativo da sobrevivência, deixando para trás princípios, valores, vindos de sociedades antigas e com outras regras e vantagens. No entanto, os habitantes perderam a memória, mal transmitida de gerações passadas, não associando portanto a forma de viver (ou de obedecer) à cada vez mais esquecida escravatura. No entanto, sob novas formas, ela permanece, obrigando as gentes a fazerem o que não querem mas a que são obrigadas. De forma mais subtil, apenas.

É mesmo esta a forma como queremos viver?

África 21


Temos que Aprofundar os Direitos Democráticos, Diz o Escritor Angolano Pepetela

pepetelaAngola ainda tem um longo caminho a fazer para respeitar em pleno as liberdades de expressão e de manifestação. Quem o diz é o escritor Pepetela, que ainda assim admite que “tem havido alguns progressos” no país.

O direito à liberdade de expressão e de manifestação ainda não é devidamente exercido em Angola, reconhece o escritor angolano Pepetela. “Temos que aprofundar os direitos democráticos” afirma o autor. Sublinha que apesar do país ter uma Constituição da República “avançada” e que prevê essas liberdades ainda “é difícil pôr em prática toda a Constituição”, lamentando a dificuldade de a praticar em pleno.

Quando solicitado a comentar o recente clima de repressão em Luanda, nomeadamente os episódios de detenção de jovens do Movimento Revolucionário, que protestavam contra as injustiças sociais, Pepetela diz que “tem havido alguns progressos” no país. Contudo, admite que em Angola os avanços e os recuos são constantes. Mas para o escritor “todas as sociedade sofrem estes processos”.

Angola vive em paz “há pouco mais de 10 anos”

Relembra que só há pouco mais de 10 anos é que Angola vive numa situação de paz e que “antes era complicado e ainda há muitos problemas psicológicos derivados dessas situações que o país sofreu”. Para Pepetela não se pode “ser tão exigente assim e querer que de um dia para o outro aquilo vire o paraíso”.

No entanto, o escritor recusa-se a se pronunciar sobre o caso Nito Alves, jovem de 17 anos de idade detido, sem acusação, pela polícia angolana nos arredores de Luanda, desde 12 de setembro passado. “Sei que ele foi preso mas não sei se já saiu se não”. Admite que não está a seguir a situação e remata dizendo que “especulações não faço”.

Leia Mais


Novas e Melhores Políticas Que Reduzam o Preço dos Livros em Angola, Pede Pepetela

Foto de Paulino Damião

pepetela_O escritor Pepetela considerou ontem, em Luanda, fundamental serem criadas novas e melhores políticas para a redução dos preços dos livros, de maneira a permitir que mais pessoas possam ter contacto permanente com as obras dos autores angolanos.

O escritor, que apresentou na quinta-feira, na União dos Escritores Angolanos (UEA), o seu mais recente livro, “O Tímido e as Mulheres”, referiu que existem ainda problemas “sérios” de edição no país, o que encarece o preço dos livros.
A falta de bibliotecas públicas e nas escolas, assim como os custos elevados da produção de obras literárias são, para o autor, deficiências que acabam por se reflectir na própria literatura, assim como na falta de leitores e na qualidade das obras.
Apesar de ter felicitado os esforços das instituições ligadas à produção literária angolana, para dar outra dinâmica à arte da escrita no país, Pepetela reconheceu existir uma expectativa maior que ainda não se alcançou, desde a edição dos primeiros livros do pós-independência, “que deram a sensação de existir uma explosão literária”.
Agora, disse, existem mais títulos e um súbito aparecimento de bons escritores que têm dado outra dinâmica à literatura angolana. “As artes plásticas, a música e o teatro têm-se desenvolvido bastante, mas o cinema e a literatura ainda precisam de mais investimentos e divulgação”, realçou.
O escritor referiu, ainda, que é importante definir e padronizar a cultura angolana, tal como é urgente aumentar no mercado os materiais para produção e divulgação das obras. “A cultura vai continuar a ser feita no país. O único problema é como a divulgar ao mundo, já que para isso são precisos apoios financeiros”, desabafou.
Pepetela acrescentou que existe uma diferença muito grande entre a literatura de antes e a de agora. “Anteriormente, os textos eram mais focados na independência, com forte pendor político. Actualmente, há uma maior liberdade de expressão nas abordagens dos textos literários”, contou.
Para se criarem bons escritores, Pepetela aconselhou a nova geração a ler e a escrever muito. “Este é apenas o único caminho para uma pessoa se tornar um bom escritor”, disse o autor de “O Tímido e as Mulheres”. O livro, esclareceu, é uma análise de Luanda, sobre as pessoas que se movem na cidade e também de uma família, como muitas outras, que vive num bairro mais periférico. “É um retrato da vida social e do desenvolvimento da capital do país”, explicou.
Pepetela adiantou que o seu novo romance, que vendeu mais de 200 exemplares no acto de lançamento, de acordo com a Texto Editor, tem aspectos diferentes das outras obras já publicadas. “Acredito que é pelo facto do assunto ser um pouco mais superficial, abordando os problemas mais pessoais das personagens, e não propriamente as ideias, embora tenha preservado alguns princípios”, comentou o representante da editora.
Pepetela é o pseudónimo literário de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, nascido em Benguela, há 71 anos. Tem no mercado as obras “Muana Puo”, “Mayombe”, “O cão e os calús”, “Yaka”, “Lueji – O nascimento de um Império”, “A Geração da Utopia”, “Parábola do Cágado Velho”, “A gloriosa família” e “A Sul. O Sombreiro”.
Licenciado em sociologia em Argel, Pepetela foi guerrilheiro do MPLA, político e governante. Desde 1984 é professor na Universidade Agostinho Neto, em Luanda.
Pepetela tem no seu palmarés o Prémio Camões de Literatura, conquistado em 1997. É também membro da União dos Escritores Angolanos (UEA).

Jornal de Angola/Manuel Albano


Crónica do Escritor Angolano Pepetela

Estranho a atração fatal de alguns ricalhaços cá da banda que querem agora comprar castelos na Europa”. O título remete a um livro de John Steinbeck nos tempos da Grande Depressão, primeira metade do século XX.

Hoje assistimos de novo a uma luta incerta, mas agora entre «austeros» e «crescendistas». De um lado, economistas, governantes e alguns comentaristas (esses que estão sempre a mandar bocas por todo o lado, muitas vezes sem estudo nem fundamento), os quais defendem a austeridade financeira para os países endividados para lá de limites considerados decentes. Do outro lado, os que apostam no crescimento económico, com os respetivos governos (ou os alheios, se os seus estiverem quase falidos) a investirem no desenvolvimento, única forma de obterem dinheiro extra para pagar as dívidas. Se não houvesse pelo meio tantos dramas individuais, tanta miséria e frustração, era caso para se dizer que o combate, além de incerto, é extremamente interessante de seguir. Como se pudéssemos nos alhear dele, resguardados numa redoma de insensibilidade.

A maka é que toca a todos o resultado das asneiras que andam a fazer lá pelo Norte, com a senhora Merkel querendo recuperar para a Alemanha a glória do Império Germânico e conquistando todos os castelos a leste e a oeste, e alguns mais prudentes a dizer que assim não dá, vai provocar uma bronca danada, com gregos a queimarem bandeiras nazis hoje e amanhã a aperfeiçoarem espadas e catapultas, seguidos pelos exaltados espanhóis, machos de puxar logo pela faca e talvez até de barulhentos italianos, sempre prontos a cantarem tragédias.

No outro lado do tabuleiro, neste momento, curiosamente, o governo de Obama, apoiado por muitos prémios Nobel, defende para a economia mundial um sistema próximo do que se poderia chamar uma social-democracia, pelo menos as teorias recuperadas de Keynes; logo contrariado pelos austeros do Congresso, que lhe cortam as vazas quando se fala em aumentar impostos dos ricos e distribuir melhor os proventos pelos pobres, considerados preguiçosos e incompetentes e por isso mesmo, pobres.

Como vai acabar a luta? Os «austeros» conseguirão mais uma vez dominar o que lhes vai restando de poder? Ou os «crescendistas» poderão evitar por algum tempo o que parece inevitável, o declínio do chamado Ocidente?

Pepetela/África 21