Visita ao Centro de Hemodiálise do Hospital Josina Machel em Luanda


Em alusão ao dia Mundial do doente que hoje se assinala, a equipa de reportagem deste jornal visitou o Centro de Hemodiálise do Hospital Josina Machel, que atende cerca de 124 pacientes /dia, e acompanhou o drama de quem sobrevive com auxílios de máquinas
Pedir esmolas para apanhar um táxi, passar fome e dormir ao relento são alguns dos sacríficios que dezenas de cidadãos que padecem de insuficiência renal enfrentam semanalmente para terem mais algumas horas de vida.

Muitos deles dizem terem sido abandonados pela família, perderam o emprego, os sonhos, o respeito da sociedade e a auto-estima, tudo porque os rins deixaram de funcionar correctamente. Com isso, as suas vidas passaram a depender de uma máquina que filtra as impurezas do seu sangue. João Santos tem 51 anos e há mais de três conhece bem essa realidade.

Na luta pela sobrevivência, desloca-se pelo menos três vezes por semana à pedonal do “ISIA”, na via-Expressa, para pedir esmolas aos automobilistas e transeuntes, a fim de custear o táxi do Benfica até ao Centro de Hemodiálise do Hospital Josina Machel, na Maianga, para o tratamento e para sua a alimentação. Sentado no chão, encostado aos ferros, sem camisa para mostrar os tubos que tem canalisados no peito, tenta chamar a atenção dos que por ali passam. Foi durante esta ocasião que o abordamos, às 8horas de Sexta-feira.

Com lágrimas nos olhos, o homem afirmou que adoptou esta iniciativa de forma a não faltar às sessões de tratamento, agendadas para Domingos, Terças e Quintas-feiras, uma vez que os seus familiares desistiram de o apoiar psicológica e financeiramente

. “A minha mulher faleceu e os meus familiares dizem que não há outra coisa a fazer a não ser esperar a morte”, lamentou. A sua esperança esteve depositada num dos filhos que vive em França e havia enviado cerca de 10 mil dólares para o ajudar no tratamento. Entretanto, o vizinho, que parecia estar engajado em ajudá-lo a levantar tais montantes, num momento em que os bancos impuseram algumas barreiras aos seus clientes para movimentarem moedas estrangeiras, acabou por deixá- lo na penúria. Apossou-se da quantia e fugiu.

“Às vezes peço a Deus que me leve porque o sofrimento é demais”, desabafou João Santos, em prantos, tendo acrescentado que devido à doença deixou de exercer o seu trabalho de motorista, pelo que não tem como se autossustentar. Deste modo, tem dependido da bondade das pessoas que generosamente lhe doam algumas moedas. Em média, João Santos necessita de pelo menos dois mil Kwanzas/ dia e quando não consegue amealhar essa quantia entra em desespero, por saber que poderá faltar ao tratamento, elevando o risco de perder a vida prematuramente.

“Os vizinhos sustentam os meus filhos”

Já no Centro de Hemodiálise do Hospital Josina Machel, a nossa equipa de reportagem viu entrar dezenas de pacientes para aguardar pela sua vez de fazer o tratamento e outros, que já haviam feito, de saída. Entre os que aguardavam, dos quais sete a conviver com o tratamento de hemodiálise, estava Delfina Xavier, de 46 anos. O marido morreu em 2016, deixando- a nesta “batalha” e com três filhos de 15, 12 e 10 anos respectivamente por criar. Apesar de ela ter casa própria, depende da solidariedade dos vizinhos para comer, uma vez que não tem recursos financeiros para se aguentar sozinha. Com a doença, foi o vigor no corpo e a capacidade de trabalhar. Para não faltar aos tratamentos às Segundas, Quartas e Sextas-feiras, das 12h às 16 horas, Delfina Xavier alega que também tem pedido esmolas e opta por pernoitar no hospital para reduzir os gastos. “Estendo os papelões e deito-me aqui nos bancos”, precisou.

De acordo com os pacientes, muitas vezes sãos os funcionários da instituição que deixam de fazer as suas refeições para as cederem aos pacientes mais carentes. Ao contar como lhe foi diagnosticada a doença, Delfina Xavier afirma que inicialmente a doença se manifestava com febres muito altas, vómitos e tosses que a levavam a acreditar que trata-se apenas de paludismo. Entretanto, foi no Hospital Sanatório de Luanda que recebeu a orientação que deveria visitar o centro de hemodiálise. “No princípio do tratamento tive um acidente vascular cerebral. Hoje sinto-me melhor. Todavia, preciso de ajuda porque não há dinheiro para ir ao hospital”, sublinhou, acrescentando que o Estado deveria ajudar doentes como ela.

faltar é ter menos uma hora de vida

Sobre as formas de tratamento, o médico Eduardo Lopes, do Centro de Hemodiálise, afirma que existem duas, o ambulatório (no qual o sangue é filtrado artificialmente por uma máquina), administrado ao paciente três vezes por semana, por um período de quatro horas, ao longo da vida, ou o transplante do rim, que ainda não está disponível no país. “É muito perigoso ao paciente faltar à hemodiálise. Quem não faz hemodiálise tem uma hora a menos de vida. Pode acontecer que fique com líquido nos pulmões ou ficar com uma quantidade elevada de potássio no sangue”, detalhou.

O transporte não cobre todos os pacientes Relativamente

à falta de transportes, de que muitos dos doentes se queixam, Eduardo Lopes afirma que o hospital dispõe apenas de duas viaturas que os auxiliam. Contudo, têm priorizado os pacientes com maiores dificuldades de locomoção, especificamente os que andam em cadeiras de rodas, com muletas canadianas e os deficientes visuais residentes nas zonas de Viana, Cacuaco, Golf (Kilamba Kiaxi). Com os olhos marejados, Eduardo Lopes disse estar consciente de todas as dificuldades que os pacientes enfrentam para não faltarem às sessões. Na convivência diária, acabam por criar laços de amizade, muito além da relação médico-paciente. Fruto dessa relação, muitos encontram aí um ombro amigo, alguém com quem podem desabafar os seus problemas e não só. “Eles são a minha família e não tenho como não amá-los”, reiterou o médico com os olhos humedecidos.

Sinais de insuficiência renal aguda:

Pouca urina, amarela escura e com cheiro forte; Cansaço fácil e falta de ar; dor na parte inferior das costas; Inchaço das pernas e pés; Cansaço fácil com falta de ar; Pressão alta; Febre superior a 39ºC; Tosse com sangue; Falta de apetite e presença náuseas e vômitos; Pequenos caroços na pele

Atendemos 124 pacientes / dia

A insuficiência renal caracteriza-se pela perda das funções dos rins (podendo ser aguda ou crónica), na qual os rins tornam-se incapazes de proceder à eliminação de certos resíduos produzidos pelo organismo. Ela torna-se crónica quando, em estado avançado, a percentagem de rim funcional é inferior a 20%; muitas vezes, só nesta fase surgem os primeiros sintomas. de acordo com o vice-director clínico do Centro de Hemodiálise do Hospital Josina Machel, Eduardo Lopes, diariamente têm atendido, em média 124 doentes, divididos nos turnos de manhã, tarde e noite. Segundo o responsável, a nível mundial aponta-se a diabetes como a principal causa da enfermidade, em seguida a hipertensão arterial e as doenças próprias do rim.

Em Angola, além da diabetes pode ainda destacar-se a malária, que causa a insuficiência renal aguada, podendo atingir em casos mais avançados o estado crónico (a partir do terceiro estágio). A manifestação da doença pode ocorrer em diferentes faixas etárias, dependendo, sobretudo, da doença que originou a sua ocorrência, bem como os hábitos alimentares do paciente. O especialista afirma que a primeira medida para o tratamento é a prevenção da hipertensão, da diabetes e da malária. O paciente precisa de ser consultado por um nefrologista (especialista que se ocupa do diagnóstico e tratamento clínico das doenças do sistema urinário, em especial o rim).

O PAÍS/Afrodite Zumba

 

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