Parque Nacional de Cangandala na Defesa da Palanca Negra Gigante

Trabalho do Dr.Pedro Vaz Pinto

2018 Relatório Palanca 2º Semestre

Caros amigos,

A segunda metade do ano é tipicamente mais preenchida para nós no terreno do que a anterior, e desta vez não foi excepção. À medida que a época seca do cacimbo progride e eventualmente dá lugar a uma espécie de primavera, rapidamente seguida pelo início da época das chuvas, as condições no terreno tendem a ser mais favoráveis para nós em termos da nossa própria mobilidade, ao passo que os ecossistemas locais evoluem de forma notável.

Em Julho o clima é seco e agreste, as madrugadas podem ser bastante frias e testemunhamos as últimas queimadas sazonais; a paisagem surge desoladora e marcada pelas cores chamuscadas sobretudo cinzentos, preto e castanhos, não existe capim e as árvores nuas parecem enganadoramente moribundas; esta é uma altura do ano quando as fêmeas acabaram a parição e as manadas se reúnem e são atraídas para as anharas.

Durante Agosto as árvores iniciam a sua regeneração de folhagem e o novo capim brota em manchas localizadas, ao passo que os dias são tipicamente muito quentes, secos e ventosos; esta é uma boa altura para observar as palancas, quando as manadas se banqueteiam no novo capim e as crias pequenas podem ser vistas em creches.

Setembro é o período que mais se aproxima ao que nós podemos chamar de primavera, caracterizado por uma espectacular explosão de cores nas árvores e arbustos, desde os verdes-claros e amarelos ao vermelho carregado; é quando os céus começam a acumular nuvens e energia e podem libertar as primeiras descargas;

é também o período quando os machos ficam progressivamente mais agitados, desafiando-se uns aos outros e movendo-se grande distâncias em busca de fêmeas receptivas. Em Outubro testemunhamos as primeiras chuvadas sérias, mas estas são ainda irregulares no espaço e tempo; a época da reprodução atingiu já o pico e os machos permanecem nervosos e excitáveis. Durante Novembro as chuvas finalmente instalam-se, tornando-se mais frequentes e generosas, e é então que as cores mais vibrantes se desvanecem e dão lugar aos verdes carregados; os machos estão agora exaustos, e isolam-se tendo terminado o assédio às fêmeas. Dezembro pode ser considerado como um mês típico da época das chuvas –

o primeiro de alguns que se seguirão, o capim está já bem desenvolvido em todo o lado, o sol lamacento e encharcado, e um manto verde homogéneo cobre a paisagem; as manadas de palancas tendem agora a penetrar na mata mas passando períodos mais longos em áreas menores, ao passo que os machos recomeçam a patrulhar rotineiramente os seus territórios.

 Na Cangandala pudemos testemunhar mais uma vez os excelentes resultados da última época de reprodução, confirmados pelo elevado número de saudáveis crias que foram frequentemente observadas em creches. Mas possivelmente a nota mais saliente foi a abundância de jovens machos que podem agora ser vistos, formando vários “grupos de solteiros” espalhados pelo santuário.

Alguns destes machos são ainda bastante jovens, abaixo dos três anos de idade e tendo recentemente abandonado as respectivas manadas, mas outros estão agora a atingir os seis anos de idade e são bastante formosos, mesmo que ainda não estejam preparados para desafiar Mercúrio, o macho territorial residente. Como o macho maduro e auto-confiante que ele é, o Mercúrio é um prazer de observar, sendo muito tolerante à nossa presença e frequentemente permitindo que o LandCruiser se aproxime a menos de 30 metros de distância. Contudo, o seu estatuto de dominante já não pode ser tomado como adquirido e ele tem vindo a passar cada vez mais tempo a patrulhar o seu território e menos tempo acompanhando a manada. A principal razão para a sua crescente inquietação é certamente a presença do Eolo, que se está a tornar dia a dia cada vez mais forte e assertivo.

O Mercúrio está a ser desafiado e no final do ano já não era nada claro quem era o número um na Cangandala. Na verdade, de uma forma ou doutra, o momento da reforma do Mercúrio está a aproximar-se rapidamente, uma vez que pretendemos recolocá-lo em 2019 para um novo santuário recentemente finalizado.

A nomeação recente de um administrador no PN da Cangandala tem vindo a demonstrar ser benéfica, melhorando a gestão em geral e culminou com a detenção de um grupo de caçadores furtivos local. Estes foram capturados quando transportavam carne de vários bâmbis e golungos abatidos no parque. Os caçadores furtivos estavam bem infiltrados nas comunidades locais e temos razões para a acreditar que já se dedicavam a esta actividade há vários anos com total impunidade.

É na reserva do Luando, contudo, que a maior parte do nosso trabalho decorre por estes dias, e onde as tarefas são mais desafiadoras. Mas também aqui é onde o nosso progresso se está a tornar mais significativo. O nosso recém-nomeado chefe da fiscalização, o fiscal-sénior cujo nome de guerra é Fox, está a realizar um excelente trabalho na formação e organização dos pastores das palancas de forma a torná-los fiscais funcionais. As nossas acções estão finalmente a ter impacto directo em termos de policiamento na reserva. As primeiras tarefas de importância crucial que tínhamos programado foram implementadas neste período. Abrimos diversas picadas e construímos um posto de fiscalização avançado uns bons 50 kms adentro no mato.

 

Este acampamento está situado num local pitoresco, junto a um dos principais rios temporários e a uma lagoa permanente, estrategicamente próximo de três das cinco manadas sobreviventes de palancas, e consiste numa grande tenda colocada em terreno elevado à sombra de grandes árvores de Brachystegia. Aqui escalonámos equipas de quatro fiscais em rotações de duas semanas. Na ausência de repetidoras rádio e rede telefónica, mantemos as comunicações diárias através de telefones satélite. Os fiscais mantém motorizadas para o transporte regular, e a logística é assegurada semanalmente, primeiro com LandCruiser, e com motos 4X4 desde Novembro, quando as chuvas tornaram as picadas intransitáveis para viaturas convencionais.

Usando este novo posto como apoio avançado, pudemos penetrar muito mais longe em patrulhas de rotina e atingir locais cruciais que requeriam investigação. Uma das nossas primeiras missões foi o resgate de duas coleiras GPS de animais que sabíamos terem morrido alguns meses antes. Tínhamos seguido remotamente um macho e uma fêmea até que deixaram de se mover, o que usualmente significa uma simples coisa: morte. Eles deveriam ser ambos animais saudáveis, o macho com nove anos de idade e a fêmea era bastante jovem, com apenas seis. Machos adultos podem frequentemente lutar até à morte, mas na ausência de predação natural, a morte duma fêmea jovem é uma grande preocupação – não apenas se perde um animal de elevado potencial reprodutor, mas é também uma indicação provável de ocorrência de caça furtiva.

Em ambas as ocasiões, e simplesmente pela análise dos dados remotos, pudemos apenas inferir que a morte teria sido súbita e sem aviso prévio, mas inconclusivo em relação às causas. Idealmente, deveríamos estar preparados para agir imediatamente após os incidentes terem sido identificados, mas infelizmente ocorreram numa localização muito remota e durante a época chuvosa, e faltavam-nos os recursos para reagir prontamente. Tínhamos já tentado um par de vezes antes sem sucesso atingir aqueles locais, situados relativamente próximos um do outro. Agora que finalmente lá chegámos, ficámos chocados ao confirmar que a fêmea tinha na verdade sido morta por furtivos e foi inclusivamente desmembrada e a sua carne secada no local, e que os caçadores tinham lá acampado durante alguns dias e nem se deram ao trabalho de destruir a coleira nem esconder as evidências do seu acto.

Muito triste de facto, e tínhamos chegado demasiado tarde. Recuperámos também a coleira e os despojos do macho, sendo que neste último caso não foi possível determinar uma óbvia causa de morte. Pode ter sido uma morte natural, no entanto, estando situado a uns meros 4 km do local onde a fêmea foi morta é bastante suspeito, e parece mais provável que ambos tenham sido vítimas de caça furtiva.

Acreditamos, contudo, que de agora em diante, estamos melhor preparados para reagir imediatamente a futuros sinais de alarme obtidos a partir do seguimento por GPS, e atingir a maior parte das localizações críticas menos de 48 horas após o incidente ter ocorrido e sido detectado. Estamos de momento em standby, com uma equipa permenente no mato profundo, com meios de transporte e com as comunicações operacionais.

Um incidente pouco usual aconteceu no Luando, quando testemunhas locais reportaram o avistamento de um grande macho alegadamente “doente” que teria aparecido numas lavras situadas próximo de uma das principais comunas da reserva. Isto foi algo inesperado uma vez que ocorreu numa área muito afastada de quaisquer registos recentes confirmados de palancas negras gigantes. Uma equipa foi enviada para o local e o macho foi localizado, mas tinha já morrido algumas horas antes.

Após inspecção determinou tratar-se de um macho muito velho, e não havia quaisquer sinais sugerindo jogo sujo, e nem sequer ferimentos frescos que pudessem indicar que tinha lutado recentemente com outro macho.

Por outro lado, a sua condição física era deplorável e a sua dentição estava quase completamente gasta até às gengivas. O mais provável, é que este macho tenha morrido de velhice, incapaz de se alimentar quando os seus dentes perderam de vez a sua funcionalidade. Ele era um velho guerreiro com apenas um corno, já que o outro provavelmente terá sido há muito perdido em batalha. Mesmo assim, era um corno muito respeitável, bem arqueado e medindo 57 polegadas de comprimento. Tendo sido encontrado relativamente longe da população remanescente de palancas, é consistente com o ser um velho macho dispersante, que terá perdido a sua boa parte de escaramuças e podia estar agora à procura dum local tranquilo para se retirar e terminar os seus dias.

O intensificar da presença dos fiscais e medidas de anti-furtivismo produziram resultados mensuráveis em diversas ocasiões ao longo dos últimos meses. Para além da localização de diversos acampamentos temporários de caçadores que foram prontamente destruídos, numa dada patrulha em outubro, um grupo de três caçadores foram interceptados junto de um acampamento. Estes caçadores conseguiram escapar mas a sua bicicleta, cartuchos e caçadeira foram apreendidos. No seu acampamento foram encontrados restos de bambis e facochero. Contudo, estávamos ainda a preparar-nos para dezembro, uma mês que carrega a reputação de ser um dos preferidos pelos caçadores, desejosos de aumentar os seus rendimentos antes da quadra natalícia. Todos os anos se diz que a caça atinge o seu pico durante o mês de dezembro, e por esta razão queríamos desta vez estar preparados, e os nossos fiscais seniores sacrificaram as suas obrigações familiares para poderem ficar no mato ininterruptamente desde meados de novembro até meados de janeiro. E esta medida corajosa haveria de produzir resultados!

Beneficiando de um trabalho preliminar de inteligência discreta e com a firme colaboração recebida de comunidades locais, fomos informados no início de dezembro, que uma séria equipa de caçadores furtivos tinha atravessado o rio Luando e estava a operar numa dada região. A área em questão era precisamente a zona mais remota em relação à localização das nossas bases, mas mesmo assim demasiado perto da nossa maior manada de palancas. Esta manada é por esta razão a mais vulnerável, pois pcupa uma área vital a cerca de 30km do outro grupo de palancas mais próximo, e por esta razão tem permanecido como a menos protegida. Nós reagimos mandando seis dos nossos melhores fiscais para baterem toda a área e prepararem uma emboscada se possível. E tal foi feito, tendo seis caçadores sido interceptados e no seguimento de uma breve troca de tiros, três escaparam mas outros três foram detidos, juntamente com uma arma, munições e três boas motorizadas. Significativamente eles também transportavam partes e restos de animais abatidos, incluindo a pele de uma fêmea de palanca negra gigante. Esta foi simplesmente a primeira vez em 50 anos que caçadores são presos com evidências de terem morto uma palanca! Após interrogatório, os caçadores confessaram que tinham morto a palanca no fim-de-semana anterior e reportaram que a sua carne fumada tinha já sido levada e vendida em mercados na vizinha província do Bié. Eles tinham agora regressado para retomar as suas actividades no momento em que os capturámos.

O sucesso desta operação foi uma grande conquista, e motivo de orgulho e grande motivação para os fiscais, e até os membros das comunidades locais festejaram a detenção dos invasores. Tínhamos razões para estar optimista e encarar este incidente como uma jogada decisiva a nosso favor na nossa guerra contra a caça furtiva. Infelizmente, e apesar do todos os nossos esforços, os acontecimentos subsequentes constituíram uma desilusão chocante e trouxeram uma nuvem negra para cima da actual situação. Muito embora tenhamos trabalhado em colaboração estreita com as autoridades provinciais, governo, polícia e militares, e julgávamos que todos os passos necessários tinham sido tomados de forma a assegurar que os caçadores iriam ser exemplarmente punidos, o juiz destacado para o caso decidiu que os acusados deveriam ser soltos após pagarem uma multa de AKZ 250.000,00, o que corresponde a menos de US $250,00 por pessoa. Este foi um valor ridículo, e que corresponde a muito menos do que aquilo que eles tinham já lucrado com a venda da carne seca! Esta decisão ignorou escandalosamente que o acto de matar uma palanca negra gigante – o nosso símbolo natural nacional, tinha recentemente sido criminalizado e a multa estabelecida nuns muito respeitáveis e dissuasores AKZ 22.000.000,00. E desta feita, eles livraram-se pagando apenas 1% daquilo que a lei recomenda, porque o juiz teve pena deles ou possivelmente não achou que tinha sido uma ofensa séria. Desnecessário será dizer, mas isto foi um enorme golpe que afectou a moral dos fiscais, e até os membros das comunidades se sentem frustrados e revoltados com o sistema judicial. Estamos agora a tentar minimizar os estragos, e se tudo correr bem poderemos pelo menos usar estes acontecimentos como argumento para obrigar a mudanças que posam ter efeito no futuro.

Cumprimentos,

Pedro

 

 

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