Luanda Procura Nova Matriz Arquitectónica

Na década de 70, Luanda era considerada cidade de encantos. Fundada em 1576, passou por transformações estruturais de fundo, a partir do século XX, que lhe deram sinais de modernidade, mas colocaram em risco dezenas de patrimónios.

A antiga cidade de Loanda nasceu de uma estrutura arquitectónica vernacular (feita com materiais e recursos do meio ambiente). Em contrapartida, com a chegada dos colonizadores portugueses, adoptou novos parâmetros urbanísticos europeus.

Segundo estudos, a capital angolana era, nos meados do século XX, “uma cidade com traçado urbano lasso, disperso, de baixa densidade, com os seus casarões típicos, com enormes quintais e com grossas paredes”, além de “praças ajardinadas”.

De acordo com a obra “Luanda, da Arquitectura Vernacular ao Século XXI”, do pesquisador Luís Alexandre, “após a Segunda Guerra Mundial, a cidade sofreu uma profunda transformação, determinada pelo seu porto, em conjugação com os caminhos-de-ferro que lançaram as bases para um grande crescimento económico”.

Com estas mudanças, narra o pesquisador, “a antiga cidade típica portuguesa, com os seus palácios, sobrados, casas típicas, as suas igrejas barrocas, coroando os seus pontos mais altos e os seus bairros populares tradicionais, foi sendo demolida para dar origem a edifícios de arquitectura moderna”, que ganharam corpo por volta da década de 50.

Com o passar dos anos, sobretudo na década de 70, Luanda ganhou projecção internacional. Mas, a cidade, que ainda hoje conserva vestígios da construção colonial, vai perdendo a essência, com a “destruição” de patrimónios históricos.

Quem anda pela capital angolana nota hoje, mesmo à distância, uma cidade com diferentes linhas de orientação arquitectónica.

Os edifícios “gigantes”, as luxuosas residências, os estabelecimentos comerciais de tipo oriental e ocidental, as centralidades (…) contrastam com uma área suburbana cheia de carências, que não acompanha o ritmo de desenvolvimento.

Com o surgimento de edifícios modernos, vários patrimónios deixados pelos colonizadores europeus tendem a perder a essência, a ser transformados, em termos de estrutura, ou até a desaparecer, para dar lugar a outro tipo de projectos urbanísticos.

Essa prática levanta duas questões de fundo: Afinal, qual a matriz arquitectónica de Luanda? Qual a linha que se quer seguir, doravante, em termos de construção?

O pesquisador Luís Alexandre responde, no seu estudo, que “Luanda teve três períodos cruciais no desenvolvimento das suas cidades e arquitectura, após a sua fundação, e dois deles foram determinados por razões económicas”.

Lembra que, apesar de não ter sido palco de grandes confrontos da guerra civil que destruiu o país, foi ponto de abrigo da população refugiada, facto que permitiu o surgimento de zonas suburbanas sem planificação arquitectónica.

Outro aspecto que influenciou a transformação da cidade, no entender de Luís Alexandre, foi “o chamariz económico que até hoje atrai populações”, em busca de melhores condições de vida, e o crescimento urbano planificado.

Foi nesse quadro, sustenta, que nasceram projectos como Nova Vida, Kilamba, condomínios do Luanda Sul, Nova Marginal, entre outros.

De acordo com o livro “Igrejas Monumentos de Angola”, “na capital existem igrejas construídas pelas primeiras colónias de habitantes, com notória visibilidade no campo da arquitectura nacional”. Todos esses edifícios revelam efeitos estéticos que representam a riqueza arquitectónica e artística do passado.

É o caso das Igrejas Nossa Senhora da Nazaré, Nossa Senhora da Conceição, do Carmo ou Nossa Senhora do Cabo, que constam da lista de templos católicos classificados como Imóveis de Interesse Público.  

Embora alguns ainda se mantenham “de pé”, Luanda está a mudar, substancialmente, de imagem. A cada dia, os edifícios antigos estão a dar lugar aos arranha-céus modernos.

Para Luís Alexandre, essa transformação está a matar a “história da cidade”.

“Podemos considerar estes períodos como ciclos de renovação urbana e morte da história da cidade, onde os interesses económicos, aliados a alguma ignorância por parte das instituições que regem o território, vieram destruir muita da sua história”, opina.

Visão idêntica tem o arquitecto urbanístico Ilídio Daio, para quem a cidade de Luanda se transformou numa verdadeira “anarquia”.

Segundo o especialista, onde havia vivendas surgiram prédios de 20 andares, mas sem espaço para estacionamentos e insuficientes vias de comunicação para o tráfego.

“Tudo isso resultou numa situação muito difícil para os luandenses”, lamenta Ilídio Daio, que condena as construções feitas à volta de patrimónios históricos.

A título de exemplo, considera que a construção do edifício defronte à Fortaleza de São Miguel (actualmente Museu Nacional de História Militar) constituiu “um crime histórico urbanístico, arquitectónico e ambiental”.

“A montanha é sustentada por várias árvores ao seu redor. Ao retirá-las, as raízes vão causar fissuras que podem afectar a estrutura histórica da fortaleza e cair. Isso é muito grave”, adverte o arquitecto, que pede maior fiscalização do Estado.

Aponta, igualmente, a retirada do Mercado do Kinaxixi, antigo monumento histórico, como um erro arquitectónico inaceitável.

Do ponto de vista do especialista, outro ponto que precisa, urgentemente, de ser reconstruído, por ser um acervo histórico, é o Largo do “Pelourinho”, no distrito urbano da Ingombota, onde eram chicoteados os escravos.  

O arquitecto apela ainda ao Governo para rever a Rua dos Mercadores, localizada no bairro Coqueiros, distrito da Ingombota, pela história que tem, de forma a servir de ponto turístico e comercial, onde se podem arrecadar valores para os cofres do Estado.

Esse tipo de problema, conforme o especialista, poderá começar por ser evitado ou resolvido, através da implementação do Plano Director Metropolitano para Luanda, que se julga um instrumento de grande valia para o melhoramento da cidade.

“Apesar da imperfeição, o mesmo deverá ter emendas ao longo do seu desenvolvimento”, expressa, sublinhando que o aumento populacional de 500 mil habitantes para os mais de sete milhões é outra razão que levou à ruptura entre a cidade e a periferia, em Luanda.

Que futuro para zona histórica de Luanda?

Apesar da destruição desenfreada do património, Luanda pode ainda oferecer, quer na “Cidade Alta”, quer na “Cidade Baixa”, um número razoável de edificações, tanto pelo valor histórico, quanto pelo arquitectónico, paisagístico ou pela sua antiguidade.

É esse património que pode ainda projectar a cidade para um lugar ímpar nesta região geográfica, justamente porque atesta a sua antiguidade em relação às demais cidades.

“Já é tempo de deixarmos de tratar o património imóvel da cidade de Luanda com a leveza e distanciamento de outrora e de olhar, admirar e exaltar”, adverte Ilídio Daio.

Os munícipes da capital também lamentam a forma como a história da cidade está a ser ignorada.

Manuel Rocha, morador do bairro Marçal, diz que, na cidade de Luanda, no tempo em que era conhecida como “São Paulo de Assunção de Loanda” e com edifícios tradicionais da arquitectura portuguesa, “se respirava melhor”.

Hoje, lamenta, os arranha-céus fazem com que a pessoa nem sinta mais a brisa do mar, algo que considera muito triste.

Já Maria Fernandes, moradora da rua dos Mercadores, no bairro dos Coqueiros, considera imperioso preservar-se a história da cidade, com a conservação do património.

“Os outros países vivem do turismo, e é isso que temos de imitar para desenvolver a economia nacional”, salienta. 

ANGOP/Por Francisca Augusto

 

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