João Lourenço Abre Caminho a um Segundo Mandato

Deslocação de Presidente a Portugal, marcada por uma atmosfera distendida, sela novo ciclo nas relações bilaterais. Luanda quer investidores portugueses “em força” e João Lourenço abre caminho a um segundo mandato.

Em três dias de visita de Estado a Portugal, o Presidente angolano João Lourenço assinou 13 acordos de carácter bilateral, proferiu mais de uma dezena de intervenções, e pediu aos “investidores para fazerem as malas e irem para” o seu país “em força”. Em especial “os empresários pequenos e médios, de praticamente todos os ramos da economia”.

João Lourenço disse-o vários vezes ao longo da visita e voltou a dizê-lo neste Sábado ao final da manhã num encontro com representantes dos órgãos da comunicação social portuguesa em Lisboa, insistindo em pontos fortes que foi desenvolvendo ao longo dos três dias da sua presença em Portugal. No encontro com os jornalistas portugueses, o Presidente angolano garantiu não existirem actualmente “obstáculos no caminho das relações” entre os dois países como ficou comprovado pelo número de acordos assinados durante a visita. Acordos estes a que somarão outros, já no início de 2019, quando o Presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, se deslocar a Angola, como fez questão de frisar João Lourenço.

O Presidente de Angola, em resposta a uma pergunta do Diário de Notícias/Plataforma Media, deixou pistas sobre o seu futuro político, admitindo abertamente ter “o direito de lutar por um segundo mandato”, em 2022.

Segundo mandato durante o qual espera concretizar aquela que elegeu como uma das prioridades da sua governação: a autosuficiência alimentar de Angola. Meta de que espera aproximarse “ainda no primeiro mandato, se for possível”, isto em resposta directa à pergunta Diário de Notícias/Plataforma Media. Foram também obtidas garantias do Governo de António Costa para a identificação e repatriamento de capitais angolanos ilicitamente colocados em Portugal.

Noutro plano, como o referiu com discreto sentido de humor, foi garantida a presença de capitais da Sonangol no Millenium BCP: “nós sossegámos essa empresa, para dormir descansada”, disse João Lourenço. A permanência da Sonangol no capital daquele banco prende-se com o processo de redefinição das prioridades de investimento da petrolífera angolana. Das cerca de cem empresas em que a Sonangol está presente, estão identificadas “52 empresas” a nível global das quais se deve retirar, indicou o chefe do Governo de Luanda.

Agricultura, pescas, turismo e ensino

Entre os acordos assinados figuram acordos de cooperação na área do ensino superior, ciência e tecnologia e formação de professores, memorandos de entendimento no setor do turismo e da juventude e desportos, parcerias nas áreas da engenharia, investigação científica e da justiça.

Além de um protocolo para formação e investigação no setor agro-alimentar com o objetivo de alcançar “auto-suficiência alimentar” e a “promoção de culturas em que Angola tem tradição”, como é o caso do café, cacau, palmar e caju para reduzir a saída de divisas, como explicou na passada quinta-feira, 22, o ministro da agricultura angolano, Marcos Nhunga, falando no final de uma visita de João Lourenço ao Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), em Oeiras.

A agricultura, as pescas e o turismo foram, aliás, expressamente referidas como áreas de interesse para a presença portuguesa pelo dirigente angolano neste Sábado. Para a visita de Marcelo Rebelo de Sousa a Angola ficarão os acordos na área da Saúde e da simplificação de vistos, além de outros instrumentos ainda em negociação.

Por outro lado, João Lourenço foi taxativo ao garantir que “não haverá instabilidade em Angola” em resultado do combate à corrupção e outras práticas fraudulentas que desencadeou desde a chegada `s presidência, apesar de estarem em causa figuras anteriormente ligadas aos círculos do poder, como os filhos do ex-presidente Eduardo dos Santos.

“o que mais conta para mim é ser angolana”

O encontro do chefe de Estado angolano com os media portugueses ficou marcado por um pequeno incidente quase no início quando uma angolana, que se identificou como filha de vítimas dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977 em Luanda, procurou interpelar João Lourenço.

O presidente preparava-se, exactamente, para responder a uma pergunta sobre a atitude do seu Governo face àquilo que, na época, foi caracterizado como uma tentativa de golpe de Estado de uma fação do MPLA contra o então Presidente Agostinho Neto. A repressão que seguiu foi violenta. Além dos alegados golpistas foram mortas e presas milhares de pessoas.

Ulika dos Santos, identificando-se como filha de uma das vítimas do 27 de Maio, Adelino Ribeiro dos Santos, dirigente da juventude do MPLA, pediu para ler um poema do pai escrito no período em que esteve detido no campo de São Nicolau, ainda na época do regime colonial, em 1973.

O Presidente angolano permitiu que Ulika dos Santos falasse, mas não deixou que lesse o poema em causa, e fez notar que, mais importante do que a origem étnica da sua interlocutora, “o que mais conta para mim é ser angolana” e “não dá privilégio absolutamente nenhum” ter nascido numa determinada localidade ou ser parte de um grupo específico.

Ulika dos Santos invocara a sua origem ovimbundu, tal como é a do Presidente, ao pedir a João Lourenço que autorizasse a leitura do poema. Em resposta à pergunta sobre o 27 de Maio, o governante angolano disse estar consciente de que estão por “reparar as feridas profundas que ficaram nos corações de muitas famílias” na sequência daqueles “tristes acontecimentos”.

Acontecimentos em que perderam a vida alguns dos “melhores filhos” de Angola, admitiu João Lourenço. Os acontecimentos do 27 de Maio de 1977 permanecem como dos capítulos mais controversos e sujeitos a interpretações contraditórias na história da Angola pós-independência.

O PAÍS

 

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