1ºRelatório Deste Ano “Defesa da Palanca Negra Gigante”, Fotos Captadas por Drone

 

 

Trabalho do Dr.Pedro Vaz Pinto, Relatório Palanca Outubro 2016 – Maio 2017

 Caros amigos,

Este relatório já era devido há muito, e penitencio-me pelo atraso nas comunicações. Pretendo compensar o tempo perdido e colocar os dados em dia para o restante do ano de 2017. De todas as formas, aqui vai uma actualização relativa aos últimos meses. O macho de 5 anos, Mercúrio.

No seguimento da operação de capturas de 2016 tivemos muito que fazer e mambas as reservas. No Luando, começámos por seguir por satélite oito fêmeas e sete machos. As fêmeas marcadas com coleiras tinham sido distribuídas por todas as cinco manadas sobreviventes, ao passo que os machos eram todos solitários. Treze coleiras GPS ainda estvam activas e a funcionar bem no final de Maio 2017, mas fomos forçados a deixar de seguir dois animais quando os seus sinais ficaram estacionários. É quase garantido que ambos os exemplares morreram, mas estão localizados em áreas remotas, e até que tenhamos a chance de recuperar as coleiras e inspeccionar a cena não poderemos determinar as causas.

Os últimos dias de actividade registada por estas coleiras não denunciou qualquer padrão de movimentos suspeitos. Animais sofrendo de ferimentos ou doença tendem a deixar assinaturas de movimentos específicas, mas nenhuma foi aqui detectada… pareceu morte súbita! Uma das perdas foi de um macho de 7 anos, no máximo das suas faculdades, mesmo que fosse uma dos exemplares menos impressionantes que nós manuseámos. Infelizmente a outra perda foi não apenas uma fêmea, a Jinga com 13 anos, mas ela era também a fêmea dominante e o único animal com coleira GPS na manada 5, que é por sua vez a maior dos grupos. Assim, de um só golpe perdemos o acesso à nossa manada mais numerosa. Muito embora fosse uma fêmea velha, ela estava saudável e lactante em Aosto, e a dentição não sugeria que ela pudesse estar a entrar no seu último ano de vida.A mamã palanca-ruana e jovem cria, apenas com algumas semanas de idadeMachos de palanca-ruana

Observações muito preocupantes derivaram de imagens de satélite que mostram que baseado nos níveis de água e padrão de inundações das bacias hidrográficas do alto Kwanza e Luando, a última estação chuvosa foi, de longe, a mais seca dos nossos registos de 10 anos. Algumas manchas de mata estão já a perder a folhagem, antes mesmo do fim “formal” da época da chuva. Isto significa que a época seca que se iniciou agora muito provavelmente será muito complicada para os animais, e podemos esperar mais  e precoces queimadas, menos comida e menos água disponível. Uma preocupação particular é o cenário em que a maior parte dos pontos de água vão secar em breve, e as manadas serão forçadas a usar poucos, longínquos, inadequados e perigosos locais de abeberamento. Teremos de melhorar as medidas de protecção levando as novas condições em conta. Um lano está já a ser delineado neste sentido.

Uma experiência espectacular foi voarmos um drone sobre algumas manadas de palancas. Confesso que eu estava céptico em relação à praticalidade de filmarmos manadas selvagens com um drone nas áreas muito remotas da reserva do Luando, mas mostraram-me estar errado, muito errado de facto.

O Kostas a conduzir o drone com grande perícia

vista aérea de onde estávamos

Obtendo as localizações GPS para os animais

Viajei para o Luando com o meu bom amigo e fotógrafo profissional Kostadin Louchanski (podem ver algum do seu trabalho em www.angolaimagebank.com), e que é sem dúvida um piloto de drone muito hábil. Usámos então uma estratégia de aproximação às manadas por etapas. O Kostadin filmando os pastores em acção

Primeiramente montámos acampamentos avançados dentro das conhecidas áreas vitais em uso para uma cada manada. Acampando no Luando sob as estrelas e preparando o crucial café matinal!

Depois, cedo na manhã seguinte usámos um telefone satélite para contactar um colega em Luanda que estava a monitorar remotamente as coleiras e que nos passou as últimas posições GPS. A etapa seguinte foi conduzir o Landcruiser a corta-mato até ao local, e depois usando o sinal rádio VHF para triangular no terreno a localização da manada até cerca de 1-2 km, suficientemente perto para chegar com um drone e suficientemente longe para que os animais não dessem por nós. Depois a etapa final foi sobrevoar o drone lentamente em direcção à manada a cerca de 50 m de altura, até conseguir encontra-los e permitir assim a aproximação final.E uma notável foto a partir do drone da maior manada!

Isto funcionou muito bem e os resultados superaram as expectativas. A manada 5 por exemplo permitiu-nos contabilizar um total de 41 animais, o que foi fantástico. Na maior parte dos casos, as palancas reagiram de forma um pouco nervosa quando foram sobrevoadas pelo drone, trotando como um grupo mas de forma algo hesitante, certamente sem compreender bem que tipo de risco representava o drone (talvez o som seja reminiscente de um gigantesco enxame de abelhas?). Mesmo assim, quando subíamos o drone os animais relaxavam e assim obtivemos boas filmagens. Mas quando atacámos a manada 4, aconteceu magia: um grupo relativamente pequeno composto de fêmeas, crias e machos, entrou numa anhara e ignorou completamente o drone, mesmo quando o baixámos a 12 m acima das suas cabeças! Pudemos assim filmar incríveis cenas comportamentais, incluindo interacções hierárquicas entre três machos dominantes e comportamento pre-copulação com fêmeas. Material mesmo único!AF1QipOFkZqw4fMsVzMYwIWnrX5P20roAe19yPqI6W7O

Os sinais de reprodução na Cangandala têm sido excelentes com muitos nascimentos, e também com um aumento considerável de jovens machos solteiros.

O Ivan o Terrível tem vindo desde Agosto a ser convenientemente seguido diariamente de forma remota, e como sempre, ele nunca deixa de nos impressionar e surpreender. Ao longo dos primeiros meses teve movimentações interessantes, por vezes visitando locais distantes, mas mais frequentemente passando a maior parte do tempo “livre” patrulhando o exterior da vedação do santuário. Até aqui tudo bem. Mas no final de Março o Ivan deu o “click”: rebentou a vedação e invadiu o santuário! Ainda não sabemos exactamente os detalhes mas as evidências apontam para uma terrível luta de machos através da vedação e que continuou dentro do santuário. Não podemos confirmar ainda se a luta foi com o Mercúrio ou com um dos machos mais jovens, e só podemos imaginar se o Ivan não terá morto mais um rival… O macho dominante Mercúrio, tornou-se notavelmente parecido com o seu pai Duarte, quer na forma do corpo como na curvatura dos cornos, e também denotando um carácter confiante e gentil.Vista no terreno da manadaA principal manada do santuário e um macho híbrido ao centro. Jovens machos de 1 ano também.

Por coincidência, foi também num mês de Março há alguns anos atrás, que o Ivan matou o velho macho Duarte na sequência duma batalha através da vedação, por isso esperemos que o Mercúrio não tenha seguido demasiado longe as pisadas do seu pai. Curiosamente, e desde que entrou, o Ivan tem mostrado pouco interesse em explorar o santuário ou, aparentemente, em interagir com as manadas. Em vez disso, ele parece obcecado em tentar sair novamente, patrulhando incansavelmente a vedação na esperança de poder retornar à sua anterior zona de conforto. O louco Ivan, nasceu para ser selvagem, nasceu para ser livre.

Jovem macho Eolo de 4,5 anos, orgulhosamente mostrando a sua coleira VHF, e jovens em manada

Apenas nas últimas duas semanas de Maio, o Ivan fez algumas limitadas explorações dentro do santuário, mas não muito. Com uma idade estimada de 14 anos, o Ivan é, quer queira quer não, um macho muito velho. Estará definitivamente na sua fase de declínio em termos de pujança física, e não esquecendo que teve de recuperar de ferimentos causados por uma armadilha e que quase lhe causaram a morte num passado recente, pelo que me parece difícil de acreditar que ainda se mantenha por muito mais tempo como uma ameaça séria à integridade dos jovens machos… e por outro lado seria bom, ou pelo menos iria manter-nos entretidos, se pudéssemos ter alguns dos seus torcidos genes perpetuando-se nas futuras gerações!

Os pastores em serviço monitorando as câmaras e tratando do bebedouro

Um evento muito significativo deu-se em Dezembro, quando o nosso principal pastor das palancas do Luando, o notável Manuel Sacaia, recebeu o prestigiante prémio Tusk Trust Ranger Award. A cerimónia de prémios teve lugar no Victoria e Albert Museum em Londres, e o Manuel recebeu o prémio das mãos de Sir David Attenborough e do Prince William, nada mau! O Manuel Sacaia merece toda o nosso reconhecimento, e podem encontrar mais detalhes sobre a cerimónia, e a pessoa (incluindo um curto filme), nos seguintes links (em Inglês):

http://www.telegraph.co.uk/travel/safaris-and-wildlife/tusk-conservation-awards-2016-winners/

 

http://tuskawards.com/

 

https://www.youtube.com/watch?v=Anx1qjdethI

Ainda antes de fazer 5 anos de idade, o Eolo promete tornar-se um macho muito impressionante

O jovem Xiamy e seus compinchas, todos com idades entre os 2,5 e 3,5 anos, e formando um grupo de solteirões.

Jovens fêmeas na salina e os jovens solteirões farejando a

.Um jovem macho de palanca com 2,5 anos, provavelmente tendo dispersado recentemente.

Muitas crias sugerem uma época reprodutora de grande sucesso na Cangandala

As chuvas trazem a explosão anual de anfíbios

 

One Response to “1ºRelatório Deste Ano “Defesa da Palanca Negra Gigante”, Fotos Captadas por Drone”

  1. ´ diz:

    Uma reportagem EXCEPCIONAL. PARABÉNS.
    Abraços,
    Álvaro Pelicano

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