Da Gabela Saía o Café Que Muitos Consideravam o Melhor do Mundo

Fotos de Pedro CarrenoGabela é ar fresco. Desta cidade encravada nos morros, com a bênção do Cruzeiro, saía o café que muitos consideravam o melhor do mundo. Em tempos de revitalização, a Gabela pôs de novo as mãos à obra e vê agora, pouco a pouco, os cafezais a ganharem novo verde.

Quando a independência chegou a Angola, a Gabela estava nos paladares do mundo. Por essa altura, o país era o terceiro produtor mundial de café. Uíge, Ndalatando e o “concelho” do Amboim eram os produtores-estrela. A Gabela, capital deste município do Kwanza Sul, crescia à sombra dos cafezais que se estendiam por 120 mil hectares. Os grãos já processados eram levados de comboio até ao Porto Amboim. Entre os anos 20 e 30, nesta região (e em toda Angola) arrancava o cultivo intensivo de café, que colocaria este produto no primeiro lugar das exportações angolanas.

Nos anos de ouro, 80 mil toneladas de café saiam anualmente do Kwanza-Sul (actualmente são menos de 2 mil toneladas). As fazendas do Amboim contribuíam em grande escala para estes números impressionantes. Companhia Angolana de Agricultura (CADA), Mário e Cunha, Marques e Seixas, Rocha e Coelho, Rio Gila e Fazenda Sofia eram as principais empresas produtoras.

É nas florestas escarpadas da Gabela que os pés de café encontram o terreno fértil e a altitude (800 a 1300 metros) que lhes dão as características e tonalidades únicas. Numa viagem à região, é obrigatório descobrir os sabores do “Robusta do Amboim”. Este tipo de café foi identificado pelos portugueses em 1917 nas margens do Cungulo e dizem os especialistas que é uma referência nos mercadores internacionais pelo sabor suave e baixo teor de cafeína.

Embora o café lhe tenha dado fama internacional, a Gabela surgiu no mapa em 1888 como um interposto de cera, marfim e borracha. Encravado em montanhas verdes a mais de mil metros de altura e varrido por ventos cálidos, o pequeno povoado tornou-se vila a 28 de Setembro de 1907. Já por esta altura, as makas entre os colonos e as populações locais eram grandes. Várias revoltas estalaram entre 1893 e 1917. Para se protegerem da fúria de quem via as suas terras usurpadas, os portugueses construíram um fortim cujas ruínas ainda hoje se podem ver no Cruzeiro, o morro que domina a paisagem urbana da Gabela.

O crescimento da cidade foi significativo entre os anos 60 e 70. A poucos quilómetros da sede está a Boa Entrada, que representa esses tempos de abundância. A pequena vila foi construída de raiz como a sede da então toda-poderosa CADA. Plano arquitectónico de luxo, com casas sumptuosas, régua e esquadro a todo o vapor, numa das áreas mais produtivas do município do Amboim.

Outros pontos interessantes incluem a Igreja matriz. Fica num grande largo e destaca-se pela sua torre centrada. À volta do edifício de características modernas e em bom estado, foi-se organizando o espaço urbano. A antiga Câmara Municipal também não pode ficar de fora deste roteiro. Planeada na segunda metade do século passado, na altura em que a Gabela era uma força económica pujante, o edifício destaca-se pelos pilares elegantes, a varanda e o jogo de volumes. Num plano contrastante, está o Cine Amboim (ou o que resta dele) – uma fachada neobarroca marcada por cinco arcos redondos. São ruinas-memória.

Marca dos tempos do café, está também a Estação de Caminho-de-Ferro, que já foi recuperada. O edifício térreo foi construído entre os anos 20 e 30 do século XX, quando o CFA começou as operações de escoamento do café da Gabela para a Holanda, Bélgica, Inglaterra e Estados Unidos.

Se se sentir mais atraído pela natureza exuberante, então tem que conhecer a surpreendente faceta ornitológica das florestas da Gabela. Os cientistas consideram a área florestal da Kumbira como a mais importante de toda a Angola, no que a aves diz respeito. No total, a área alberga mais de 110 espécies, sete delas endémicas. A importância de Kumbira é tal, que a Birds International a classificou de Área Importante de Aves (IBA, sigla em inglês). No total, a organização mundial identificou 27 IBA em Angola.

A apenas 95 km do Sumbe, a Gabela é também um ponto intermédio de um passeio de fim-de-semana grande que pode sair de Luanda, passar pelo Porto Amboim, Cachoeiras do Binga e águas quentes de Conda. Já no regresso, avance então pela Gabela, Quibala, Dondo e Massangano, seguindo por Catete até chegar à capital angolana.

Bago de café, a Gabela quer ser de novo grande. Lentamente, a produção começa a ressurgir. Modesta, ainda, mas a cada ano maior. A cidade sombreada pelo Cruzeiro é um chamariz interessante para quem quer investir, ou simplesmente conhecer o melhor que o Kwanza Sul tem para oferecer.

Rede Angola/Pedro Cardoso

 

 

 

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