Conheça a História do Jovem Fugido do Genocídio no Ruanda Que se Tornou Bilionário

Ashish ThakkarMuitos empreendedores de sucesso tiveram de superar inúmeras dificuldades para chegarem ao topo. Mas poucos passaram pelos mesmos horrores que Ashish Thakkar e a sua família. A história é contada pela BBC.

Thakkar, de 34 anos, é o fundador e o CEO do conglomerado empresarial Mara, que atua em 21 países – na sua grande maioria em África. Dá atualmente emprego a 11 mil pessoas, é considerado o bilionário mais jovem do continente e tem até uma fundação, de apoio a pequenos empreendedores. É ainda consultor da ONU e de vários países de África na área de empreendedorismo.

É difícil imaginar que tudo começou quando, aos 12 anos, Thakkar teve de fugir do genocídio no Ruanda com toda a família. Na altura, estudava num colégio interno, no Quénia, mas estava de férias, e por isso foi visitar a família ao Ruanda. Chegou um dia antes do assassínio do Presidente do país (que morreu na queda de um avião, derrubado por um atentado), que acabou por dar início ao massacre.

Nesse dia, Thakkar estava no Hotel Ruanda (famoso após um filme de Hollywood com o mesmo nome), mas apenas como turista. E mesmo após a morte do Presidente ele e a família ficaram tranquilos, achando todos que os tumultos durariam apenas um ou dois dias. No entanto, dias depois chegava junto deles um tio do empresário, acompanhado de soldados da ONU. Levaram Thakkar de novo para o interior do hotel, com os seus familiares. Ali, refugiaram-se cerca de 1200 pessoas.

«Havia corpos na rua, barulho de tiros e explosões frequentes. Por sorte conseguimos sair de lá vivos», lembra Thakkar à BBC. «E isso ensinou-me que temos de devolver o que o mundo nos dá, e que temos de garantir que algo como aquilo nunca voltará a acontecer. Então, como é que eu, enquanto indivíduo, posso garantir isso? Cada um tem de fazer a sua parte, mesmo que seja pequena.»

Ao fugir os pais perderam tudo o que tinham. E nem sequer era a primeira vez: já tinham tido que reconstruir a vida quando foram expulsos do Uganda – país vizinho do Ruanda –, em 1972. Naquele ano, o ditador Idi Amin expulsou mais de 50 mil pessoas de origem asiática (indianos, bengalis, paquistaneses ou cingaleses). Naquela ocasião, a família de Thakkar foi para a Inglaterra, sem nada. O pai começou a trabalhar na fábrica da Ford em Leicester e a mãe numa uma fábrica de batatas fritas. Juntaram dinheiro, abriram um negócio e envolveram os filhos no trabalho de forma lúdica. «Faziam aquilo como se fosse um jogo. Davam-nos objetivos, e isso tornava tudo divertido», conta o milionário. (Os pais repetiram esse estilo de jogos, recorda, quando estavam refugiados no Hotel Ruanda, para que os filhos não sentissem tanto o horror do que estava a acontecer.)

Quando a vida estabilizou, a família partiu de Inglaterra para o Ruanda. Mais tarde, o empreendedorismo familiar e a forma positiva como ali se lidava com os problemas influenciaram muito Thakkar para que entrasse no mundo dos negócios.

Depois de terem de fugir do Ruanda, regressaram ao Uganda. E a vida de Thakkar começou a mudar quando, após muita insistência, os pais lhe ofereceram um computador. Um dia, um amigo da família foi jantar à casa dos Thakkar e ficou encantado com o computador. O jovem Ashish disse de imediato que tinha outro computador daqueles e que estava a vendê-lo – o que era mentira. O amigo quis comprá-lo, e por isso o rapaz apagou os seus arquivos do PC e entregou o aparelho no dia seguinte. Lucrou 100 dólares.

O passo seguinte, conta a BBC, foi Thakkar convencer os pais a deixarem-no alugar uma loja por dois meses, nas férias de verão, para montar um negócio. Conseguiu um empréstimo de 5 mil dólares e dedicou-se à revenda de equipamentos e acessórios para computadores – como disquetes, que vinham do Dubai.

No fim das férias, Thakkar não contou aos pais que as aulas tinham recomeçado. Não queria voltar. Explicou depois que, mesmo que completasse os estudos, queria continuar a trabalhar como empreendedor, e pediu que lhe dessem uma hipótese. Os pais fizeram então um acordo com ele: se o negócio não resultasse, Ashish teria de regressar às aulas no ano seguinte. «Mas não voltei, até hoje», conta.

Depois de convencer os pais, o empresário decidiu ampliar os negócios. Em vez de importar equipamentos para vender no Uganda, abriu um escritório no Dubai e começou a vender dali para empresas em vários países africanos.

A partir daí, o grupo Mara diversificou-se. Hoje engloba diversos negócios: fornece infraestruturas a empresas de telecomunicações, produz embalagens e tem bancos, hotéis, centros de conferências, centros comerciais, fábricas de papel e milhares de hectares de terras usadas em agricultura.

Quanto à fundação de Thakkar, esta dá tutoria e formação a pessoas que estejam a começar os seus negócios. Funciona sobretudo no Uganda, na Tanzânia e na Nigéria. E desde o seu lançamento, em 2009, já ajudou mais de 160 mil pequenos empresários.

Mesmo tendo chegado onde chegou, o passado de refugiado é algo que Thakkar não esquece, e que, aliás, aborda diversas vezes no Twitter. «Faz parte de mim, todos os dias. Quando não se tem um país, percebe-se que não pode depender de Estados, e que nós, como indivíduos, como setor privado, temos de fazer algo, também. Se tivéssemos empoderado as pessoas, se tivéssemos criado oportunidades para elas, muitas coisas, como o genocídio (do Ruanda), não teriam acontecido», afirma.

Apesar de ser considerado o mais jovem bilionário de África, Thakkar diz que o seu grande objetivo não é enriquecer. À BBC, afirma que dedica entre um quarto e um terço do seu tempo à fundação e a outros projetos no setor de políticas públicas. Quanto à parte comercial – onde também trabalha toda a sua família –, ocupa o resto do tempo.

Ao falar em sonhos, destaca um à BBC: «quero ver África sustentável».

África 21 online

 

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