Um dos Mais Lindos Lugares dos Arredores de Luanda, o Parque Nacional da Quiçama

Foto O PaísquissamaPelo leque de recursos da fauna e flora, tem tudo para ser uma das maiores atracções nos arredores de Luanda, contudo, muitas vozes criticam “os altos custos dos serviços”. 24 horas de estadia no Parque Nacional da Quiçama para duas pessoas maiores de 18 anos, partilhando o mesmo dormitório, custa cerca de 60 mil kwanzas.

quissama1É sem dúvidas um dos mais lindos lugares dos arredores de Luanda, sendo, em parte, responsável disso a fauna, a flora e o deslumbrante quadro paisagístico proporcionado pelo majestoso Rio Kwanza, que na procura do seu destino final (oceano Atlântico) divide-se em múltiplos braços e lagoas antes de alcançar a foz. Às noites está garantido um espectáculo adicional proporcionado pelas luzes da cidade capital de Angola que se avista na linha do horizonte.

Ao alvorecer, as luzes esfumam-se entre a névoa característica dos dias de transição que assinalam o fim do Cacimbo e a chegada das chuvas e reina no parque um indescritível silêncio, quase total, não fosse o martelar do gerador eléctrico que destoa na sinfonia quase perfeita do chilrear dos passados que antecipa a chegada do rei Sol. Com o brilho do astro rei transfigura-se o cenário e o anterior prateado do rio parece agora um grande espelho que reflecte fielmente as suas próprias margens e o céu cinzento, enquanto de um extremo ao outro ecoa o acordar dos pássaros e de outros animais sob um frio ainda a exigir agasalho aos humanos.

Lá um pouco ao longe, centena e meia de metros, no acampamento dos trabalhadores, também destoa na contra-mão da sinfonia natural do amanhecer o som de um rádio que toca música gospel, como que a relembrar que é Domingo, 6 de Setembro. No Santuário da Muxima, a 50 quilómetros do parque, assinala-se a apoteose final da maior peregrinação católica de Angola, razão pela qual o parque regista fraca presença de turistas, como invoca um dos guias que verifica ao amanhecer a operacionalidade do carro de “tour”, porque a qualquer momento pode retomar a rotina de ir à “caça” de animais em companhia de passageiros turistas.

Um tour a ‘sós’ no parque da Quiçama

quissama2Gente simpática e profissional, devidamente uniformizada ajuda-nos a embarcar na carroçaria da camioneta Mercedes Hunimog, apetrechada de 4 bancos corridos, almofadados e revestidos de lona azul, a mesma cor da lona que abriga a toda extensão o veículo sob uma estrutura em metal que forma um cubículo. Dizem os guias que “faça Sol ou haja chuva os excursionistas estão protegidos e podem completar o passeio pelo parque”.

Nossos guias tomam os seus lugares, sendo que o mais simpático e bem falante é simultaneamente o condutor do veículo. De dentro da cabine ambos levantam os polegares para se certificar de que o único excursionista está pronto para a aventura. Começa a viagem na barulhenta e potente camioneta, dizem os entendidos, concebida inicialmente para fins militares.

De início, o Hunimog segue por um trilho bem pavimentado, o que proporciona uma confortável viagem, mas por pouco tempo, porquanto abruptamente o veículo abranda a marcha e embrenha-se savana adentro. Segundos depois percebe-se o motivo da mudança brusca; é que 3 girafas estão à vista. Majestosas, exibem o que a natureza lhes deu em demasia: a altura que facilmente as coloca ao alcance das mais tenras folhas das copas dos arbustos mais altos do bosque.

O condutor manobra o carro com destreza e procura habilmente posicioná-lo de forma a que o único passageiro que segue na carroçaria tenha boa vista e tire fotografias. Feitas as fotos, a viagem prossegue, agora em trilho cada vez pior até ao ponto do mesmo desaparecer e a viagem assemelhar-se mais a um passeio errante no meio da savana.

Perguntado, o condutor assevera, “faço muitas viagens do género chefe, várias vezes ao dia, quando temos turistas, não se preocupa”. Parece seguro do seu ofício, mas também socorre-se de um olhar de lince e um afinado sexto sentido.

Não tarda para que ocorra o segundo encontro com outra espécie animal do parque. Desta vez é com uma pequena manada de veados que mal se apercebem da chegada do veículo partem em fuga desordenada que, entretanto, a seguir interrompem e olham curiosos, sempre de sobreaviso.

Animados, os guias prometem: “se tivermos sorte podemos avistar zebras e elefantes”. Observam as patadas e as fezes, para “adivinhar” os percursos seguidos pelos animais. Dialogam por instantes e estabelecem o rumo a seguir. Apontam para a zona mais íngreme em direcção aos pântanos, “passaram por aqui elefantes, foram em direcção ao rio Kwanza”, dizem alto e a bom som, à guisa informativa para tranquilizar o único passageiro do “tour”.

Enquanto isso, diferentes espécimes de pássaros, dos vulgares aos “exóticos”, dos grandes aos pequenos, exibem-se em voos acrobáticos e associam o seu chilrear ao ritmado e cada vez crescente barulho que assinala a chegada de mais um dia no Parque Nacional da Quiçama. Prossegue a viagem e a seguir dá-se o encontro com os gnus que, assustados, também batem em fuga desordenada. A manada é comandada por um exemplar de corpo avantajado, informam os guias “é o macho dominante”.

Encurtam-se os caminhos por entre “corta-matos que só o Hunimog suporta” mas infelizmente nada de zebras nem elefantes. A equipa de guias tenta ainda aproximar- se o mais perto possível ao rio, mas de elefantes apenas as fezes e as grandes patadas.

Contrariados pela natureza, declaram-se vencidos e empreendem a marcha de regresso quando via telefónica recebem a informação de que partia do acampamento o segundo “tour”. Tinham passado 2 horas e 30 minutos e estava concluído o “tour a sós” numa camioneta onde cabiam sentados no mínimo duas dezenas de turistas, pelo qual desembolsamos 4 mil kwanzas por viagem.

Portanto são precisos mais turistas e é ponto assente que não vêm, em parte, por culpa dos altos preços dos serviços no parque.

Tabela para bolsos ‘avantajados’

quissama3Quiçama tem tudo para ser uma grande atracção turística e um ponto de interesse para estudantes e académicos para diversos objectivos, nas áreas técnica, científica, cooperação, lazer, relaxe, entre outros, mas os preços “exorbitantes” que se cobram pelos serviços no local estão a afastar muito boa gente.

O acesso ao parque custa 4 mil kwanzas por cada pessoa maior de 18 anos. Pela entrada do seu automóvel o utente desembolsa mais 2 mil kwanzas, pelo embarque no carro de “tour” outros 4 mil kwanzas, e pela diária num dos bungalows 20 mil kwanzas. Portanto por 24 horas no parque, um cidadão deve desembolsar mais de 30 mil kwanzas. Acompanhado deve multiplicar o valor por dois, se ambos partilharem o dormitório o que fixaria o orçamento em qualquer coisa como 60 mil kwanzas em 24 horas de estadia.

No cubículo pelo qual se desembolsa 20 mil kwanzas o hóspede tem disponível um frigobar, um televisor de marca sharp 14 polegadas, um cesto, uma cadeira, uma escrivaninha e uma cama de casal com duas minúsculas bancas de cabeceira. No banheiro, o habitual, mais o duche de água quente que a gerência faz questão de destacar na hora de mostrar as comodidades do aposento. Um circulo de cerca 3.5 metros Tabela para bolsos ‘avantajados’ com 2 janelas e porta em madeira corroída pelo tempo e pelo salalé.

quissama4Dizem os funcionários, via de regra, os visitantes do parque são turistas estrangeiros e de forma sazonal se vai registando uma visita ou outra de cidadãos nacionais. A reclamação pelos preços é evidente, ao ponto de ser o que mais se repete na secção de comentários do sítio oficial do parque na Internet, apesar de também poder-se ler elogios às exuberantes imagens que a flora e a fauna oferecem. Em conversa com funcionários do parque ficamos a saber que os salários da equipa estão atrasados 3 meses.

O fluxo de arrecadação financeira é flutuante, chegando algumas vezes a não ser suficiente para assegurar os vencimentos. Os funcionários concordam que as entradas, tanto de pessoas como de veículos e a viagem do “tour”, estão caras, mas “esta é a decisão do ministério de tutela e pouco ou quase nada podemos fazer. No passado, quando cobrávamos mil, tínhamos mais gente e arrecadávamos mais” disse um funcionário que não quis identificar-se. A nossa fonte revelou que as “gorjetas dos turistas e a pesca nas lagoas” têm sido a alternativa para sobrevivência dos trabalhadores e seus agregados.

Reacções: “As taxas são legais”

Tentativas para obter uma reacção oficial da empresa gestora do parque não surtiram efeitos. Entretanto, funcionários no local descartaram responsabilidades na subida dos preços. Segundo disseram, a imposição das taxas de acesso às pessoas e veículos é uma decisão unilateral do ministério de tutela.

“Nós fizemos um incremento de mil kwanzas no custo para podermos suportar as despesas com a manutenção dos veículos e compra de combustíveis”, disse a nossa fonte. Para comprovar que a taxa cobrada à entrada de pessoas e veículos eram resultantes de uma instrução do Ministério do Ambiente, nos foram exibidos os documentos orientadores. “Neste momento limitamos-nos a cumprir as orientações do Ministério, portanto é lá que devem buscar explicação do porquê dessa subida”, disse a nossa fonte que não quis ser identificada.

A directora geral do Instituto Nacional da Diversidade e Área de Conservação (INBAC), Lizeth Gonçalves, confirma que as taxas foram estipuladas pelo sua instituição em regime experimental, atendendo que ainda não existe legislação apropriada para regular actividades do género. Lizeth Gonçalves diz que a manutenção de um parque com mais de 9 mil quilómetros quadrados, como é o da Quiçama, requer valores avultados, pelo que se impõe a necessidade de arrecadação de alguns valores.

A vida do parque é assegurada por mais de 40 funcionários que, apesar de serem assalariados do Estado, precisam de uniforme, as viaturas com as quais se deslocam precisam de combustível e manutenção, dentre outras despesas. A responsável refere ainda que as áreas de conservação em todo o lado são sempre onerosas. As instituições de ensino, particularmente as universidades, têm beneficiado de taxas especiais e as crianças até aos 12 anos de idade não pagam, enquanto as de 13 a 17 anos pagam 3 mil Kwanzas pela entrada.

O Instituto tem disponibilizado pacotes turísticos especiais, em que os custos são baixos, e considera que “deviam procurar visitar o parque nestas ocasiões”. Elizeth Gonçalves, mestre em Ambiente e Desenvolvimento, disse também que a fraca presença de pessoas no parque resulta de medidas cautelares da sua instituição que tem estudado formas de melhorar as condições de acolhimento e usufruto das potencialidades da infra-estrutura para, de um lado proporcionar diversão e estudo aos visitantes, mas, por outro, proteger a biodiversidade do parque.

A directora do INBAC revelou ainda que 13% do território nacional esta sob gestão da sua instituição, porque correspondem às áreas de reserva, conservação e parques nacionais, pelo que os custos decorrentes da sua manutenção são um grande fardo orçamental para o Estado. Promete que brevemente a experiência da Quiçama pode ser alargada a outras áreas, mas só depois de legislação apropriada ser aprovada e publicada.

OPaís/

 

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