Produção Agrícola, Água, Energia Eléctrica, Desminagem de Campos e Transporte Ferroviário Potenciaram o Fomento Agrícola no Bié

Foto Angop-Silos para conservação de produtos agrícolas em Camacupa

bie_silosProdução agrícola, água, energia eléctrica e transporte ferroviário deixaram de ser, nos últimos anos, problemas que faziam do Bié uma cidade quase parada. Localizado na região Centro, a 735 quilómetros da capital política, administrativa e económica do país (Luanda), o território procura ter de volta os tempos áureos dos cereais.

Para tal, quatro factores potenciam-lhe o fomento agrícola: desminagem dos solos, extensão da rede eléctrica, capacidade de captação e distribuição de água, além da recuperação da linha férrea. A combinação desses vectores tem trazido resultados visíveis nos campos de produção e ajudado a reduzir os índices de pobreza.

Os “velhos” produtores em grande escala, cujos solos aráveis estavam em cinzas, estão de volta ao mercado, para competir e inundar as cidades com cereais.

Dia após dia, esfumam-se as marcas da guerra, que deixou efeitos nefastos no sector da produção agrícola, sobretudo o conflito pós-eleitoral (1993-2002). Hoje, os campos de produção estão em busca de condições favoráveis para “gerar” alimentos à região Sul/Leste.

O Bié procura recuperar o tempo perdido e voltar a ser um dos principais celeiros de produção de milho, soja, trigo e arroz. Depois da “travessia no deserto”, sem infra-estruturas e presa a uma agricultura familiar, a província quer apostar na auto-suficiência alimentar e na industrialização.

É com esta crença que Marcolino Sandemba, director local da Agricultura, encara e perspectiva a nova etapa. “Bié é histórico em produção agrícola. Em 1973, nasceu na província a Extensão Rural de Angola (ERA). As infra-estruturas, como armazéns, serviam de mecanismo de conservação dos produtos dos camponeses, durante a guerra. Foram todos destruídos”.

A autoridade lembra com saudade dos antigos grémios em Camacupa, onde tinham a maior reserva de produtos, como milho. A guerra levou-os consigo.

Com a normalização do país e o fim do conflito, as autoridades e os agricultores arregaçaram as mangas. Cada minuto na lavoura dos campos passou a ser fulcral.

Desde 2002, o Executivo implementa políticas de curto e médio prazos, para potenciar a produção, transformação, armazenamento e distribuição de cereais.

Foi no âmbito dessa estratégia que uma cidade verde brotou no “coração” do mato. Em plena embala de Umbo, povoação de Catenga, comuna de Ringoma, nasceu a Fazenda Agro-Industrial de Camacupa.

É uma das principais infra-estruturas do novo Bié, que corre acelerado para recuperar a mística dos anos 80.

A infra-estrutura moderna, ainda em fase de acabamento, deve permitir um maior excedente de cereais, fruto de uma produção à escala industrial.

Abarca quatro silos de milho (cada um com capacidade de cinco mil toneladas) e dois silos de soja (ambos de mil toneladas).

Quando se iniciar o seu funcionamento, provavelmente em 2017, a previsão é armazenar produtos em quantidades de sobra para dar alimentos às cidades vizinhas e aos países da região austral.

Na fazenda, uma moderna moageira está ao dispor dos clientes. Ela tem capacidade para transformar 120 toneladas de milho em fuba, por dia. Da fábrica sairá, numa primeira fase, fuba de milho amarela e branca, sendo 85 porcento limpa e 15 racção animal.

O equipamento está praticamente todo montado. Apenas uma esteira de ligação entre os silos e o centro de transformação está a condicionar os primeiros ensaios.

O centro de controlo de qualidade também está quase pronto, assim como o sistema de alimentação de energia, que aguarda pelos especialistas chineses para o teste.

A fábrica surge com primazia para o milho e soja. Mas pode, numa fase avançada, “atacar” outros cereais, como o arroz.

“É uma mais-valia para o município. Além desta, temos outras fazendas privadas para o cultivo de arroz, que em maior escala têm já servido o mercado”, adianta a administradora municipal de Camacupa, Alcida Camatele.

A fazenda é um mega projecto do Executivo e já entrou na fase experimental, como diz o director provincial da Agricultura.

Para evitar constrangimentos, está em carteira a abertura de uma linha de fornecimento de energia, através da Barragem de Camacupa. Enquanto se espera, as máquinas de colheita, de fabrico chinês, colhem o milho produzido na última temporada agrícola.

Benjamim Paposeco é um dos engenheiros agrónomos envolvidos no projecto, que já deu mais de 65 empregos temporários a jovens da região. 

O especialista explica que o ambicioso projecto começou em 2012 e tem uma área cultivável de nove mil hectares, sobretudo para o milho. Confirma que os serviços de montagem do equipamento estão na recta final. Nesta altura, estão a ser montados a balança e a casa de controlo de quantidades a produzir.

O director provincial da Agricultura indica que a Fazenda Agro-Industrial de Camacupa já produziu, em fase experimental, alguns resultados, desde a implementação em 2012.

Marcolino Sandemba explica que em 2014 chegou-se a produzir duas mil e duzentas toneladas de milho, em variedades distintas. Quase mil 200 toneladas de soja foram também colhidas, na mesma altura.

Enquanto isso, o município do Andulo aposta na produção de café, num esforço que visa voltar a ser potência neste segmento, a sua marca antes da guerra.

“Maioritariamente, a população do Andulo é camponesa e uma das potencialidades é o café. Ainda hoje temos muito café e já estamos a vender. A outra produção é soja, milho, feijão. Mas a maior produção é a batata rena”, precisa o seu administrador.

Moisés Capapelo explica que há parceria com o projecto Mosape, para formar agentes comunitários sobre como preparar a terra e intensificar a agricultura familiar.

O projecto no Andulo, que já teve grandes silos para armazenar milho, no período de guerra, financia e atribui inputs agrícolas, como sementes e animais.

A estratégia de construção de silos chegou também a Catabola, que beneficia, como toda a província, do projecto Pagagro, uma iniciativa do Ministério do Comércio.

Segundo o administrador local, Domingos Pascoal, o Programa de Aquisição de Produtos Agropecuários (Papagro) ajuda a melhorar o escoamento dos produtos.

“Temos proporcionado condições, em que o produtor concentra a produção e a administração faz que o produto chegue ao Centro de Logística e Distribuição (CLODE) que o Bié tem no Chinguar. Neste momento, os camponeses estão motivados a trabalhar, porque sabem que a produção é absorvida pelo Papagro”, conta.

A febre da produção agrícola atingiu também as autoridades municipais de Chitembo, que regista sinais animadores, apesar de a sua comunidade viver de agricultura familiar.

Grande parte das famílias pratica agricultura de subsistência. Algumas andam mais de 10 quilómetros para cultivar. Apesar de rudimentar, há excedentes na produção, que são vendidos.

Segundo o seu administrador, Daniel Mucanda, o município trabalha para repor nos solos férteis a cultura de milho, feijão e mandioca. Hoje, oferece em boas quantidades batata, tomate e repolho.

“Vamos incentivar o trabalho das associações, para termos segurança alimentar. Hoje, o Chitembo fornece repolho, tomate e batata rena para as localidades vizinhas, como o Cuando Cubango”, adianta o gestor.

Na mesma senda, o município de Kunhinga corre contra o tempo para superar os efeitos da guerra e buscar a auto-suficiência alimentar. Cultiva milho, feijão, mandioca, trigo, feijão macunde, soja, gergelim, ginguba, gengibre, batata rena, doce, inhame, rícino e tabaco.

Os seus agricultores apostam na plantação de frutas, como banana, laranja, tangerina, nêspera, mamão, abacate, manga, pera, maça, pêssego, goiaba, maracujá, ananas e morango.

O município carece de indústrias. O sonho das autoridades locais é criar indústria para transformar o ananás em compotas e sumos.

“É preciso andar de mãos dadas com o empresariado local, e não só, acreditar que no Kunhinga é possível implementar uma indústria”, ressalta a administradora local.

Celeste Elavoko Adolfo refere que há estudos para reactivar a produção de trigo, num território cujos produtos, em maioria, são para consumo local. O excedente vai para o Chinguar.

Em Nhârea, a dinâmica da produção agrícola é favorecida pela quantidade de terras aráveis e pelo forte potencial de água.

É potencial na produção de cereais e tubérculos, sobretudo mandioca, que transforma em bombó para localidades do Norte do país.

Feijão manteiga é outro produto que muito abunda no município, que está a trabalhar com o Ministério do Comércio para a abertura de infra-estruturas para a recolha de produtos nas zonas rurais.

Com o eclodir da guerra, Nhârea perdeu todas as pequenas infra-estruturas, mas mantém o sonho de recuperar o tempo perdido e tornar-se um pilar no sector da agricultura.

Já o município de Chinguar tem uma população que produz quase tudo, desde a batata rena, repolho e cenoura, feijão, milho, massambala, ginguba, hortículas aos citrinos.

Para impulsionar o sector da agricultura, um trabalho de fundo é feito pela organização não-governamental Amozape, com os camponeses, para o aprimoramento de novas técnicas. O trabalho assenta no tratamento dos solos para que se produza mais para o consumo e haja excedente para a comercialização.

Chinguar vive à base do Programa de Aquisição de Produtos Agro-pecuários (Papagro) e do Centro de Logística e Distribuição (CLODE), instituições que facilitam a venda de produtos. Duas vezes semanalmente (terça-feira e sexta-feira), a loja da Agromerca adquire os produtos dos camponeses e os canaliza ao Papagro. Este coloca no CLODE. Daí, disse José Lopinho, a mercadoria tem geralmente como destino a capital do país.

A província sofreu como um todo os efeitos da guerra. Hoje, quer fazer ressurgir, também como um todo, os campos e projectos agro-pecuários.

Segundo o director provincial da Agricultura, muitas infra-estruturas perderam-se e grande parte ficou irrecuperável. Mas uma especial está na mira da reconstrução: o Pólo Agro-Industrial.

Angop/Elias Tumba e Adriano Chisselele

 

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