Recuperação das Salas de Cinema no Huambo

cinema-huambo-580As salas de cinema existentes na província do Huambo vão ser submetidas a obras de recuperação. O objectivo é o de impulsionar o desenvolvimento cultural desta província, bem como proporcionar momentos de lazer à população. Os projectos de recuperação dos espaços, destruídos ao longo do conflito armado, estão a ser elaborados pela direcção local da cultura. A informação foi avançada pelo director da Cultura na província do Huambo, Pedro Nambongue Chissanga.

O responsável disse à comunicação social estão em curso trabalhos de estudo e levantamento sobre o estado de degradação das infra-estruturas. Numa fase posterior, serão demolidos os espaços mais danificados e recuperados os que estiverem em normal estado de conservação.

Depois do término das obras do centro cultural que vai possuir salas de teatro, cinema, dança e música, trabalhará nesta região uma delegação do Ministério da Cultura para avaliar, com profundidade, o estado das salas de cinema.

O próximo ano, será segundo o director da Cultura o marco para o inícioda reabilitação das salas públicas de cinema do Rua Caná, Cine São João (município do Huambo) e 11 de Janeiro (município do Cachiungo).

VerAngola


Será uma Revolução a Nova Pauta Aduaneira Angolana, Críticas à Localização da Refinaria do Lobito…

 

porto_luandaUm dos grandes protagonistas da nova pauta aduaneira, pela convicção das ideias e pelo impacto mediático das intervenções, foi José Severino, presidente da Associação Industrial de Angola (AIA), estrutura que representa 5 mil empresários nacionais. A entrada em vigor da nova pauta aduaneira não pode deixar de ser vista como uma vitória da AIA, que não só participou na sua elaboração como tão denotada e persistentemente por ela se bateu. Agora que a iniciativa já entrou em vigor, impõe-se fazer o primeiro balanço sobre a amplitude dos agravamentos às importações, os efeitos que produzirá e os riscos que se lhe apontam.  

Qual foi o contributo da AIA para a elaboração da pauta aduaneira?

Fizemos um longo caminho durante os últimos dois anos, em parceria com o Serviço Nacional de Alfândega (SNA), do Conselho Nacional de Carregadores e da Direcção Nacional dos Impostos. Foram organizados seis encontros regionais e seis em Luanda. Ouvimos inúmeras entidades: associações, dirigentes, governadores e empresários de todos os sectores. Fomos ao terreno visitar áreas produtivas. E estudámos as pautas de outros países da região.

Que conclusões retiraram dessa comparação com outras pautas?

A maioria dos nossos vizinhos está inserida na zona de comércio livre da SADC, à qual ainda não aderimos. Mas nas relações com países fora do bloco, elas são mais fechadas do que pensa. Sentimos isso na África do Sul, na Zâmbia ou no Zimbabué, por exemplo. Veja-se o caso da carne. Na África do Sul, a pauta para a importação de carne é de 60% e isso reflecte-se na riqueza dos criadores sul-africanos. Em Angola, houve uma descida de 15% para 10%. Não se pode fazer criação animal com esta pauta. Em Angola, as comunidades rurais são donas de milhares de cabeças de gado e não conseguem fazer desse recurso uma riqueza, Porque é que nós estamos a contribuir para a riqueza do Brasil, Argentina, Portugal e França? A verdade é que há muitos casos de países que agravaram as taxas para defender a produção. Por exemplo, para se protegerem dos ataques de quem subvenciona exportações, fecha os olhos à exploração desenfreada da sua mão-de-obra, desvaloriza desmesuradamente a sua moeda, ou que usa a contrafacção e outros mecanismos subterrâneos desleais.

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Cabo Verde Com Semana Cheia de Incidentes no Campo Político

cabo_verdeAnalista político Corsino Tolentino critica actuação dos deputados.

A última semana em Cabo Verde foi cheia de incidentes no campo político, com um claro aumento da crispação entre o PAICV e o MpD, os dois principais partidos.

Na segunda-feira, o primeiro-ministro José Maria Neves disse num debate parlamentar sobre a política externa que cabe ao Governo definir e dirigir essa política.

No mesmo dia, o Presidente da República Jorge Carlos Fonseca reconheceu a definição da política externa é da responsabilidade do Governo, mas que cabe ao Chefe de Estado representar o Estado.

Ontem, os deputados das duas bancadas protagonizaram momentos de muita agitação no parlamento tendo o presidente da Assembleia Nacional suspenso a sessão.

Na ocasião o líder da bancada do MpD acusou dois deputados do PAICV, no poder, de tentativa de agressão do antigo primeiro-ministro e ex-lider do partido Carlos Veiga.

O Paicv respondeu hoje dizendo que tudo não passou de encenação e que o MpD deve pedir desculpas ao presidente do parlamento e à Nação.

O correspondente da VOA em Cabo Verde Eugénio Teixeira falou com o analisa político Corsino Tolentino, antigo governante e embaixador, sobre o ambiente político no país.

Voz da América


Governo dos EUA Considera Angola, Guiné Bissau e Brasil Como os Piores Países Lusófonos em Direitos Humanos,

 

cadeiasCorrupção, assassinatos, uso abusivo de força, exploração e discriminação de mulheres são algumas das acusações feitas pelo relatório do Departamento de Estado dos Estados Unidos.

O relatório sobre os Direitos Humanos 2014 do Departamento de Estado dos EUA indica Guiné-Bissau, Angola e Brasil como os casos mais preocupantes na lusofonia na área dos direitos humanos, informa a rádio estatal norte-americana VoA ( Voz da América).

Corrupção, uso abusivo de força, exploração e discriminação de mulheres são algumas das acusações feitas pelo relatório que diz ainda que são praticados impunemente.

As mais graves violações de direitos humanos incluíram “detenções arbitrárias, corrupção agravada pela impunidade dos funcionários do governo e pelas suspeitas de envolvimento no tráfico de drogas e uma falta de respeito para com o direito dos cidadãos de eleger o seu governo”.

Segundo o governo norte-americano as autoridades de Bissau “não conseguiram ter controlo efectivo sobre as forças de segurança que cometeram abusos”.

O relatório diz ainda que o governo de Bissau “não tomou medidas para processar ou punir os oficiais ou outros indivíduos que cometeram abusos, seja nas forças de segurança ou em outras estruturas governamentais”.

Em Angola, o Departamento de Estado no seu relatório anual cita vários casos de violação de direitos humanos.

Entre outras violações, o documento cita espancamentos, tortura, assassinatos por parte dos agentes de segurança e polícia, limites às liberdades de reunião, de associação, de expressão e de imprensa, corrupção e impunidade.

Na extensa lista dos abusos de direitos humanos o relatório cita ainda a privação arbitrária ou ilegal, condições adversas nas cadeias, prisões e detenções arbitrárias, prisão preventiva excessiva, infracções sobre a privacidade dos cidadãos, despejos forçados sem a devida indemnização, restrições às organizações não-governamentais, discriminação e violência contra as mulheres, abuso de crianças , tráfico de pessoas, limites aos direitos dos trabalhadores e trabalho forçado.

O Relatório do Departamento de Estado sobre a Situaçao dos Direitos Humanos reconhece que o governo tomou medidas limitadas para processar ou punir funcionários que cometeram abusos, mas falta capacidade para enfrentar uma generalizada cultura de impunidade e corrupção no Governo.

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Para Mim, Domingo de Angola é Isso Tudo, Um Céu Colorido. Uma Moamba de Peixe. Uma Noite de Luar.

DOMINGO DE ANGOLA

rio_tchicapa_Rio Chicapa

Para mim, domingo de Angola é paraíso. É um Céu. Colorido. É moamba de peixe ou caril de galinha de Quilengues. Domingo de Angola não tem rival no mundo. Começa na praia e acaba na sesta. Não tem Sporting-Benfica, nem linha de Sintra, não tem passeio a Vila Franca. Não tem touros, nem Cacilhas, nem caracóis no Ginjal. Domingo de Angola, para mim, é o melhor domingo do mundo que eu conheço – e que já não é nada pequeno, benza-o Deus.
Moamba para mim é um ritual. Tem pirão de fuba de mandioca – que eu sou do Sul, usa-se de milho, mas eu prefiro de mandioca à moda do Norte, à moda de Malanje, tal qual no Uíje – mete farinha de pau e obrigado velha que está uma delícia. Tem de ser comido à sombra de um palmeira ou coqueiro, debaixo de uma mandioqueira ou mangueira quando é no interior. Porque coqueiro só no litoral. É por estas e por outras que eu gosto do domingo em Angola. Domingo de Branco. Domingo de Preto. Domingo de todos, domingo de missa, de padre, de domingo.
A verdadeira moambada, aquela que é feita de galinha tenra, tão tenra que sabe a peito de virgem, a moamba verdadeira, tem de ser do cacho primeiro da palmeira do quintal. O molho será apurado pelo velho cozinheiro, que foi mestre dos pais, dos filhos e dos filhos dos filhos. Tem molho que é de “come e arrebenta e o que sobra vai no mar” como dizia o poeta patrício e mulato Viriato da Cruz, no “Sô Santo”. Moamba verdadeira, repito, só se come duas ou três vezes na vida. É preciso estar-se em estado de graça. Estar-se com Nosso Senhor e com os anjos.
Moamba para mim, é saudade, hoje que estou longe, hoje que estou perto. Estou perto de estar tão longe. Não compreendem leitores? A gente está longe e tem saudades. Antes de adormecer, pela noite, vem a lembrança, da pitangueira do quintal, da Rosa Lavadeira, do amo-seco Canivete que falava “axim” à moda de Viseu, e tudo isso aparece nítido, cada vez mais claro e puro como certas horas da madrugada da Serra do Lépi. A primeira vez que comi moamba, dela me lembro como da primeira vez que beijei mulher, do primeiro desafio de futebol, do primeiro amor nocturno na areia da praia, com mulher de verdade. A primeira moamba, lembra-se como se lembra a primeira ida à escola.
O travo nativo do cacho de déndém, que leva meses a fazer-se, até os frutos terem a tonalidade da queimada. Metade o clarão no céu da noite, a outra metade, escuro, um escuro de breu. Tudo isso o sabor tropical junta naquele fruto, que tem brisa do mar, sol de praia, frescura de casuarina, amor de mulata. O coconote e as influências indianas nadando no molho. Tem jindungo, a moamba genuína, aquela que cheira a sândalo, que escorre do canto da boca, do patrício apaixonado, de olho rútilo e lábio trémulo. Mas a galinha, essa tem de ser de Quilengues, magra e criada no mato, quase sem penas, galinha de sanzala, galinha de preto, que é como quem diz, de pobre. Isto está divinal, velha, eu um dia volto. Se entra a erva-doce, zumba que zumba e farinha de pau, oh, céus, oh, Mãe, isto não é moamba, isto é poesia. Literatura.
Mas tem de ser comida no terreiro da casa de adobe do bairro velho. Tem de ser comida em ritual, na casa de adobe com telhado de zinco da estrada da escola da Liga, ou num dos Muceques de Luanda, por sobre as areias avermelhadas do Prenda ou do Burity.
Depois a altura do peito de mulher na moleza da carne ou do peixe. Se é “roncador”, aka, é peixe da costa e sabe que sabe tão bem. Mas de galinha é melhor. Galinha de Quilengues escanifrada, repito. Galinha de pobre.
Fico por momentos em êxtase, as mãos sobre o estômago, lembrando o terreiro da família Gamboa lá de Luanda onde comi uma coisa dessas uma vez há muitos anos. Num bairro velho de Benguela, eu estarei ainda um dia com meus companheiros dos tempos de eu menino, comendo moamba e bebendo quissângua à sombra do bambu do Edelfride – na casa do Edelfride.
Moamba é riqueza de pobre e fraqueza de rico. Entra em palácios sem pedir licença, com o mesmo à vontade com que se senta nos quintais com sombra de mangueira e entra em terrina de esmalte, prato de esmalte, caneca de esmalte, garfo de alumínio. Velho sonho de poeta, lembrança de castimbala, moambada para mim é saudade e sonho, recordação e batuque, história de amor.
Um dia, quando eu voltar, hei-de comer uma moambada de peixe ou de carne, à sombra de um cajueiro, num Muceque de Luanda, moamba do cacho primeiro da palmeira do quintal, não é velha? Depois de muito beber dormirei a sesta. E hei-de gostar de ouvir um desses rapazes do meu tempo, feito velho de cabelos brancos, recitar baixinho enquanto adormeço, a balada do Viriato:
“… Kitoto e batuque pró povo lá fora champanha, ngaieta tocando lá dentro…
Garganta cantando:
“Come e arrebenta
E o que sobra vai no mar…”
Para mim, domingo de Angola é isso tudo. Um Céu colorido. Uma moamba de peixe. Uma noite de luar.
… não tem Sporting-Benfica, não tem touros, nem caracóis no Ginjal…

Ernesto Lara Filho,poeta benguelense e cronista.
in Jornal de Notícias, 1957