Pepetela “A Cidade Voraz” (A Cidade Engoliu o Sistema, Engoliu a Cultura)

pepetela“(…) Os habitantes perderam a memória, mal transmitida de gerações passadas, não associando portanto a forma de viver (ou de obedecer) à cada vez mais esquecida escravatura. No entanto, sob novas formas, ela permanece”, escreve Pepetela.

“A cidade engoliu o sistema, engoliu a cultura, ou, se quisermos, o reverso, o sistema engoliu a cidade, a cultura engoliu o sistema”. A cidade fervilha, mesmo antes de o dia nascer.

As pessoas, estremunhadas, muitas sem a cara lavada por falta de água nas casas, avançam dos bairros periféricos, das novas urbanizações, do Cacuaco, de Viana, até de mais longe, do Zango, do Panguila, do Morro dos Veados, convergindo para o centro, onde há trabalho ou possibilidade de um negócio.

Vêm muitos a pé, de carro individual ou, sobretudo, de candongueiro, os táxis coletivos que compensam a falta de transportes públicos, projeto sempre adiado pelas autoridades competentes, com desculpas descosidas. De comboio só mesmo os sortudos de Viana. O cheiro dos mal acordados se sobrepõe ao perfume barato com que as mulheres tentam disfarçar outros odores.

Nos carros estão famílias inteiras, os filhos arrancados da cama às cinco da manhã e continuando a dormir na viagem, para poderem chegar a horas à escola ou creche e os pais depois seguirem para o trabalho. Gente com dinheiro para ter carro e talvez uma vivenda, mas sem tempo para viver, perdida no trânsito.

Jovens usam motos, alguns aproveitam até para o negócio de levar clientes atrás. Kupapatas se chamam, nome nascido em Benguela, mas depressa se espalhando pelo país.

A cidade é um bicho vivo, cada vez mais desperto.

E voraz.

As vidas ficam sujeitas às necessidades e desejos da cidade, a ela entregando por vezes a alma. Pelo menos a consciência, vencida pelo imperativo da sobrevivência, deixando para trás princípios, valores, vindos de sociedades antigas e com outras regras e vantagens. No entanto, os habitantes perderam a memória, mal transmitida de gerações passadas, não associando portanto a forma de viver (ou de obedecer) à cada vez mais esquecida escravatura. No entanto, sob novas formas, ela permanece, obrigando as gentes a fazerem o que não querem mas a que são obrigadas. De forma mais subtil, apenas.

É mesmo esta a forma como queremos viver?

África 21

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