Seca Afecta Mais de 34 Mil Camponeses na Região do Cuangar

 

seca_O município do Cuangar, a 450 quilómetros da cidade de Menongue, está a viver um período difícil devido à seca que afectou mais de 34 mil camponeses da região, que viram as suas culturas destruídas por falta de chuva.

Preocupado com a situação, o administrador local, Manuel Franessa, pediu uma intervenção urgente do Executivo e da sociedade civil para atenuar o sofrimento da população.
Com 43 mil habitantes, distribuídos pelas comunas de Savate, Bondo Caíla e Cuangar, a chuva caiu apenas em duas ocasiões este ano e como resultado as sementes lançadas à terra não resistiram às altas temperaturas que se fazem sentir na orla fronteiriça com a Namíbia.
Manuel Franessa explicou à reportagem do Jornal de Angola que a aldeia de Olupale, situada na fronteira do Kuando-Kubango com a cidade namibiana de Okongo, é a mais afectada pela estiagem estando neste momento os 2.000 habitantes da região a percorrer longas distâncias à procura de água.
A penúria, referiu Manuel Franessa, é tão grande que está a forçar os criadores de gado a venderem as suas manadas para poderem alimentar-se e a população sem recursos está a abandonar a zona em busca de novos lugares onde se estão a instalar de forma provisória.
A região, disse, não tem qualquer furo de água e para as pessoas se abastecerem viajam durante dois dias até a localidade de Savate ou Caíla banhadas pelo rio Cubango, apesar do risco de serem atacados por animais ferozes que proliferam nas florestas.
Nesta luta pela procura de água muitas crianças do Cuangar, estão a abandonar as escolas para ajudarem os pais no pastoreio do gado até a margem do rio Cubango.

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Apoio urgente

Desde que a paz chegou em 2002, a aldeia do Olupale ganhou apenas uma escola primária de cinco salas, que permitiu matricular pela primeira vez mais de 300 crianças no sistema de ensino, um posto médico com três camas de internamento e cinco residências para professores e enfermeiros.
Manuel Franessa disse que neste momento a administração municipal está sem capacidade para acudir ao sofrimento da população e necessita de um apoio urgente do Executivo, tendo em vista que está sem reservas de alimentos. “Nós já pedimos às estruturas competentes de âmbito central e provincial para nos ajudarem a suprir esta situação, porque a aldeia do Olupale faz fronteira com o município de Namacunde, província do Cunene, onde não existe nenhum rio nem furos de água”, informou.

Falta um hospital

Manuel Franessa disse que a falta de um hospital está a criar sérios embaraços à assistência médica e medicamentosa da população e diariamente dezenas de pessoas com os seus parcos recursos são obrigadas a transpor o rio Cubango em busca de cuidados de saúde no Rundu, Namíbia.
Por esta razão, defendeu a necessidade da construção com urgência de um hospital com capacidade para pelo menos 70 camas de internamento e serviços especializados, tendo em vista que os pacientes que vão à procura de assistência médica e medicamentosa no Rundu, para além de terem de pagar somas avultadas, muitas vezes não são bem atendidas.
A administração municipal, revelou, já fez a proposta ao Governo Provincial para que no Programa de Investimentos Públicos (PIP) de 2014 possa ser contemplado com a construção de um hospital.
Manuel Franessa explicou que no sector da Saúde, o Cuangar conta com um centro médico na sede municipal, dois postos médicos e cinco postos de saúde nas comunas do Savate, Bondo Caíla e na aldeia de Olupale.
O município precisa de mais seis unidades sanitárias devido à sua grande extensão territorial, 18.497 quilómetros quadrados, e ao mau estado das vias de acesso.
“A construção destas unidades sanitárias, a par de dar resposta às doenças mais frequentes, vai melhorar substancialmente a assistência médica e medicamentosa das populações, sobretudo aquelas que vivem nas áreas mais recônditas”, disse o administrador municipal do Cuangar.
Este ano, o município foi reforçado com uma médica, um enfermeiro licenciado e um especialista de estatística, tendo em vista que contava apenas com um médico e 38 enfermeiros auxiliares para atender uma população de 43.128 habitantes.
Manuel Franessa sublinhou que em termos de medicamentos, o município do Cuangar dispõe de um depósito devidamente para acudir à população da localidade até ao final do ano. No sector da Educação, o administrador municipal explicou que as dificuldades são semelhantes às da saúde, uma vez que o município se debate ainda com o problema da falta de escolas para integrar mais de 8.000 crianças no sistema de ensino e solucionar a situação de outras que estudam debaixo das árvores.
A administração necessita de construir uma escola do segundo ciclo do ensino secundário e três do primeiro ciclo, para descongestionar as turmas, pois existem salas com mais de 60 alunos, o que é contra as normas do Ministério da Educação.
O município do Cuangar tem sete escolas construídas de raiz e alguns estabelecimentos escolares em capelas, unidades militares e policiais, o que permitiu que neste ano lectivo fossem matriculados mais de 9.000 alunos da iniciação à 12.ª classe. Estão ao serviço 228 professores.
O Cuangar necessita de mais 100 professores para colmatar o grande défice em Olupale, Bondo Caíla e Cafuma, uma vez que os docentes existentes são obrigados a leccionar mais de três classes, uma situação que tem criado muitos problemas.

Rede viária

Manuel Franessa anunciou que já foram retomadas as obras de reabilitação dos 116 quilómetros de estradas de Savate até à sede municipal de Cuangar, que incluem um ramal até Catuitui, na fronteira com a Namíbia, num percurso de 16 quilómetros. A empresa de construção civil Consórcio Decar, à qual o Estado adjudicou em 2008 a empreitada, sentiu inicialmente muitas dificuldades, mas com a chegada de novos equipamentos as actividades arrancaram a todo o vapor e a colocação do asfalto é uma questão de dias, já tendo vários quilómetros de estradas queimadas com óleo preto.
O administrador municipal lamentou não existir ainda um horizonte temporal para o início dos trabalhos no troço rodoviário Caiundo-Savate, um percurso de 143 quilómetros da Estrada Nacional 140, e se encontra num estado avançado de degradação, situação que tem contribuído para o subdesenvolvimento da região.

Ponte cais

Manuel Franessa anunciou ainda que estão em fase de conclusão as obras de construção de uma ponte cais, nas margens do rio Kubango, na sede do município do Cuangar, uma infra-estrutura que vai servir de apoio às ligações fluviais entre as localidades angolanas de Calai e Dirico com as da Namíbia situadas ao longo das margens do rio Kubango.
O Cuangar, recordou, vai albergar a sede da delegação provincial fluvial, razão pela qual, em 2012, o Ministério dos Transportes enviou para aquele município oito embarcações, das 56 previstas, para apoiar a população que vive ao longo dos rios Cubango, Cuando e Cuito, concretamente nos municípios do Cuangar, Calai, Dirico e na comuna do Caiundo (Menongue). As embarcações, acrescentou, têm capacidade para transportar 28 passageiros e mercadorias entre uma a três toneladas, estando equipadas com um dispositivo que permite medir a profundidade das águas, e com motores de 300 cavalos capazes de atingir uma velocidade de 100 quilómetros por hora.
“Por esta razão, é que neste momento não estão a funcionar devido a o caudal das águas dos rios estar muito baixo, face à seca que está assolar a região, estando a efectuar apenas pequenos trabalhos, como a travessia da população de uma margem do rio para a outra”, disse.
O administrador municipal sublinhou que a entrada em circulação destas embarcações é uma resposta do governo provincial, tendo em conta o estado avançado de degradação das vias de acesso que força as populações do interior da província a percorrer mais de 800 quilómetros até à cidade de Menongue, durante quatro a cinco dias.
A entrada em funcionamento destas embarcações vai permitir ao governo da província do Kuando-Kubango levar os principais bens e serviços às populações do interior, sobretudo àquelas que vivem nos municípios do Cuangar, Calai, Dirico, Nancova e Cuito Cuanavale.

Jornal de Angola/Carlos Paulino

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