Renascimento do Egipto-Praia a Norte da Cidade do Lobito

 

O Egipto-Praia, que tem o nome que tem porque os primeiros portugueses a chegarem ao local confundiram as montanhas com as pirâmides do Egipto, procura recuperar parte da importância que já teve. Não como entreposto comercial, mas como zona turística.
A comuna regista avanços significativos a nível económico e social, com a construção de infra-estruturas administrativas, casas, escolas, postos e centros de saúde e a recuperação de várias vias de acesso.
O administrador comunal disse ao Jornal de Angola que a com a entrada em funcionamento do Centro de Apoio à Pesca Artesanal (CPA) e o desenvolvimento dos sectores da agricultura e do turismo, a comuna deu “um salto significativo”.
José Faria também salientou a importância da abertura de uma fábrica de gelo, com três câmaras frigoríficas para congelação e transformação de pescado, bem como a reorganização da Cooperativa dos Pescadores Artesanais e a aquisição de cinco embarcações, cada uma delas com capacidade para três toneladas e meia.
Com os equipamentos de conservação, referiu, os pescadores têm a actividade facilitada e correm menos riscos dos produtos se deteriorarem. Na região predominam o carapau, cachucho, sardinha, garoupa e corvina, bem como vários tipos de mariscos, entre os quais a lagosta verde.“ Estas diver sidades de peixes faz com que os pescadores desta região possam aumentar a sua produtividade e ter uma renda familiar boa”, referiu o administrador.
O repovoamento animal é outra aposta ganha, como provam os três mil bovinos que há na comuna, quando em 2002 não havia um único, pois o conflito armado permitiu que fossem todos roubados.
O sector da educação também regista melhorias, com a construção de uma escola do primeiro ciclo do ensino secundário, onde há aulas até à 9ª classe, e cinco primárias, que têm 26 professores. No tempo colonial, recordou o administrador comunal, havia apenas ensino primário e dois professores. A comuna passou também a ter um centro de saúde e um posto médico, com técnicos permanentes, mas que conta coma a colaboração de clínicos do Hospital Geral do Lobito.
Também foi construída uma estação de conservação e tratamento de água potável, que serve a sede, Praia e Cacale, através do sistema de gravidade, enquanto, para já, as aldeias têm de recorrer a furos. Entre as obras de reparação conta-se a picada que liga o bairro da Praia ao de Cacale, onde foi instalado um sistema de energia eléctrica.

Importância de batata-doce

Na comuna do Egipto-Praia a batata-doce é cultivada no leito do rio Balombo, principalmente, na época do Cacimbo, quando o caudal está mais baixo e os camponeses o atravessam sem riscos.
A batata-doce, dos produtos básicos da alimentação da população da região, é geralmente acompanhada de peixe ou carne e legumes.

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A campanha agrícola 2011/12 foi afectada pela seca, o que se tem reflectido no gado. Por isso, os técnicos do Instituto de Desenvolvimento Agrário aconselharam os camponeses a aproveitarem a pouca água do rio Balombo, com recurso a motobombas, adquiridas no âmbito do programa de combate à pobreza, o que tem dado bons resultado.

Turismo

O Governo Provincial e a Administração Municipal do Lobito querem aproveitar as potencialidades naturais da comuna, principalmente as 11 praias, o rio Balombo e as montanhas, para a transformar numa zona turística.
No Egipto-Praia está previsto instalar um posto da Polícia de Guar­da Fronteira, um aeródromo para helicópteros, postos de abastecimento de combustíveis, hotéis, restaurantes, bungalows, um centro de apoio à pesca artesanal, furos para captação de água potável e a construção de estradas asfaltadas. Tudo isto, a juntar às potencialidades naturais da comuna, salientou José Faria, podem num futuro próximo, com apoio de empresários, fazer do Egipto-Praia uma região de grande importância económica. A par do embelezamento das áreas de interesse turístico e da reparação de estradas, estão a ser construídas escolas, um posto médico e casas para técnicos.

Passado histórico

A comuna, com cerca de três mil habitantes e 763 quilómetros quadrados, 91 quilómetros a Norte da cidade do Lobito, situa-se na foz do rio Balombo. É uma região tradicionalmente piscatória, mas também própria para a cultura de milho, feijão, banana e hortícolas.
Egipto-Praia já teve um lugar de charneira na região de Benguela no século XIX e princípio do XX, até 1930, período em que começou a perder importância com a construção do porto e da cidade do Lobito.
A sua ligação directa ao interior, através do percurso Londuimbali-Huambo-Bailundo, proporcionou-lhe o estatuto de entreposto comercial de produtos provenientes do exterior que eram depois transportados para Benguela. Nos séculos XVII e XVIII serviu de ponto de passagem de muitos escravos levados para a América. Foi sede do concelho, teve Tribunal, Administração e forte militar.
A circunscrição do Egipto-Praia, como era denominada a área administrativa até meados do século XX, abrangia toda região vizinha até ao actual Sumbe.
Os portugueses ao chegarem à comuna no século XVII confundiram-na com o que tinham visto no Norte de África, pela forma como o rio Balombo desagua no mar e pelos seus montes semelhantes as pirâmides. Daí o nome de Egipto.

Rituais

No Egipto-Praia realizam-se as “Festas do Mar” para pedir a Deus peixe em abundância, na qual participam inclusivamente os pescadores do Lobito-Velho. José Faria disse ao Jornal de Angola que as pessoas têm sido sensibilizadas para a importância de manter tradições.
Por isso, os pescadores e as famílias juntam-se antes da época das calemas, que ocorrem em Fevereiro e Março, visitam os locais onde estão enterrados antigos pescadores, limpam os túmulos e realizam uma pequena cerimónia do “varrer das cinzas”, durante a qual se comem produtos da terra e bebem bebidas espirituosas.
No final da cerimónia, o soba grande, a mulher e as crianças tomam banho no mar. “Quando era criança, fui um dos miúdos que mergulhou no mar e lembro-me que alguns dias depois apareceram seis tubarões e vários cardumes. A população entrou em alvoroço, nunca tinham visto nada parecido”, recordou João Faria.
Manuel Joaquim pescador há mais de 20 anos, disse que a festa do mar é um ritual que deve ser passado de pais para filho. Acrescentou que dessa forma se consegue preservar os hábitos dos antepassados. Para o ancião quem não sente o orgulho das suas raizes não tem dignidade, é sem valor.
“Incentivo meus filhos e netos a continuarem o legado deixado pelos nossos ancentrais”, afirmou o idoso Manuel Joaquim.

Jornal de Angola/ Jesus Silva

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