A Bandeira de Cabo Verde e os Seus Significados

O arquitecto Pedro Gregório foi o vencedor do concurso para a criação da nova bandeira de Cabo Verde. Na altura, enfrentou diversos críticos que o acusaram de fugir às cores tradicionais de África – o amarelo, o vermelho e o verde – mas, como explica o autor ao Expresso das Ilhas, o arquipélago só tinha uma cor que o identificasse – o azul do céu e do mar. Hoje, Pedro Gregório recusa qualquer protagonismo especial, por ser o criador do símbolo da nação e afirma que é apenas um cidadão que deu o seu contributo.

Como se desenvolveu o processo até chegar à bandeira de Cabo Verde?

Pedro Gregório – No início, nós tínhamos outra bandeira, que veio com os combatentes. Essa mesma bandeira era, praticamente, igual à da Guiné-Bissau. Para mim, a bandeira, o hino, as armas, são símbolos de um povo ou de uma nação. Daí que não pode, no meu entender, ser confundido com outro povo ou outra nação. Foi a razão principal porque resolvi tomar parte no concurso.

Quantas tentativas fez?

Foram várias, porque precisava de encontrar os símbolos que representassem Cabo Verde. Cheguei a diversas formas, que me faziam lembrar outras bandeiras, de forma que foram rechaçadas. Há quem encontre semelhanças entre a bandeira que eu criei e a bandeira utilizada pela União Europeia, mas baseiam-se em apenas duas coisas: a cor, que é azul, e as estrelas em círculo. Quando se quer encontrar razões para deitar qualquer coisa abaixo, sem fundamento sólido, encontram-se com facilidade. De modo que admito que cada um tem a liberdade para dizer que se parece com o que quiserem. A mim isso não me parece verdade, pelo seguinte: há dois elementos que são essenciais em Cabo Verde; o mar e o céu, daí o azul existente na bandeira; mais ainda, somos um povo de emigração, por isso mesmo estamos abertos ao mundo e, pela mesma razão, devemos estar também abertos a receber os que vêem de todo o lado. Daí a razão das estrelas em círculo, nenhum ponto é mais importante do que outro, há pontos de convergência e pontos de expansão. Há uma conotação, se quiser ir mais longe, com as descobertas e com a esfera armilar, com a navegação, porque também nós somos um povo de marinheiros. E as dez estrelas representam as dez ilhas. Mas, há na bandeira outros elementos. Ela está dividida em três partes principais – superior, intermédia e inferior -, dois azuis, em cima e em baixo, e mais três faixas, na zona central – com dois brancos e um vermelho.

O que significam?

Suponho que Cabo Verde deve ser uma zona de diálogo. E quando falamos, fazemos um círculo, daí o círculo também das estrelas, que está deslocado a um terço da bandeira, as próprias estrelas estão distribuídas a 30 graus. Quando falamos, procuramos um consenso, para o conseguir temos de nos esforçar, mas ao mesmo tempo esse esforço tem de ser contido porque se for demasiado gera o caos. Daí que a faixa vermelha esteja ladeada por duas faixas brancas, porque psicologicamente e historicamente consi-deramos a cor branca como a cor da paz. Ou seja, é necessário fazer um esforço para o desenvolvimento de Cabo Verde, mas é necessário que esse esforço seja controlado dentro da paz. Ou seja, para criar a bandeira, explorei as formas todas, até chegar a um símbolo que deve revestir-se de uma simplificação que seja capaz de ser fixado rapidamente.

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Dizem as regras que as bandeiras têm de ser simples ao ponto de poderem ser dese-nhadas, de memória, por uma criança.
Exactamente. E qualquer criança pode desenhar esta bandeira. A bandeira é um símbolo, e ela não deve ser confundida com nenhuma outra coisa. Se formos mais longe vemos que na costa africana temos dificuldades, muitas vezes, em identificar o país. Há quem conteste, mas foi feito um concurso, eu não impus. Os símbolos, para terem vida, não devem ser impostos, devem ser assumidos, porque fazem parte de nós.

A profusão do número três na bandeira não é inocente, presumo?

Não. Está dentro de mim. Não o inventei, é uma expressão de resistência, de força. Na construção, as vigas eram feitas de escoras de forma triangular. Portanto, o número três representa o triângulo.

Como é que na altura avaliou as críticas que o acusaram de pôr de lado as cores africanas?

Fiz isso exactamente por causa da confusão que se tem gerado com essas cores. Era necessário que não fosse igual a outros países. Apesar do nome, Cabo Verde, de verde temos pouco. O que é constante e permanente é o azul, o branco, das ondas, e o esforço que é necessário fazer, como o ferro. Quem tem experiência de agricultura sabe que antes da época das águas preparam-se as enxadas, com uma parte de aço, geralmente vermelha, porque esteve no fogo, que depois é batida, para dar resistência. Passei essa mesma ideia, que é necessária a resistência da enxada.

A bandeira, como temos falado, representa a história de um povo, as suas convicções, as suas lutas e também as suas esperanças. Temos isto tudo na bandeira de Cabo Verde?

Está. Quando eu ponho o vermelho a meio de duas faixas brancas, e dou como significa-do o esforço necessário para a construção de um país, tenho um começo e uma esperança de um caminho que me vai levar a algum lugar, um caminho que deverá ser também percorrido pelas gerações vindouras. Assim como o mar, se for bem explorado, poderá dar-nos o que precisamos. E o céu é porque somos um ponto de encruzilhada entre os continentes, temos uma posição privilegiada. E o céu é hoje, também, uma das vias para viajar.

O que representa para si, hoje, ser o autor do símbolo da soberania nacional de Cabo Verde, um símbolo que vai perdurar na história?

A vida ensinou-me uma coisa: nada é definitivo. Tudo o que existe se transforma ou é posto de lado durante algum tempo. Espero que, se efectivamente consegui interpretar o sentimento do cabo-verdiano, a bandeira possa perdurar, mas não tenho a fantasia nem a preocupação disso ser algo definitivo. O que sinto por ser o autor? Nada de especial. Al-guém tinha de o fazer. Como houve um primeiro presidente, um primeiro médico ou um primeiro advogado, eu fui o primeiro que apresentou esta proposta, mais nada. Não há qualquer vaidade. Apenas sinto que, como cidadão, contribuí para o símbolo. Há outra coisa. As armas não foram feitas por mim, mas o engraçado é que determinadas coisas são comuns: o seu autor também utilizou o mar, o triângulo, tem o fio-de-prumo, tem o círculo e tem também as estrelas. O curioso é que nunca nos encontrámos. Coincidências acontecem.

Expresso das Ilhas

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