A Mulher na Sociedade Angolana

Para quem trata todos os dias a informação do país e do mundo é fácil fazer uma leitura objectiva sobre o papel da mulher na sociedade angolana. “A importância da mulher em todos os níveis da nossa sociedade é hoje uma realidade. Nos últimos anos, houve uma conquista clara de posições importantes por parte das mulheres. Ainda na recente visita de Ban Ki-moon ao país ele falava disso mesmo”, começa por dizer Luísa Damião, que acrescenta: “Se olharmos para o aparelho legislativo e judicial, vemos que em cerca de 40% dos lugares de destaque estão mulheres. Hoje, estamos em cargos onde anteriormente era ‘proibido’ sonhar em lá chegar. Isto tem muito que ver com o esforço de profissionalização e de busca de conhecimento que as mulheres fizeram em Angola. Veja-se, por exemplo, nas faculdades, onde a maioria dos estudantes são mulheres.”
Sobre isto não há dúvidas. Mas há um mundo onde as mulheres ainda têm pouca expressão. Estamos a falar das instituições financeiras, das grandes empresas e mesmo daquilo a que se chama “grupos económicos privados”. Para Luísa Damião a explicação tem que ver com a própria história do país. “São 500 anos de colonialismo, onde as mulheres não tinham qualquer papel no mundo dos negócios. Mas ainda assim começam a aparecer. Veja-se o caso da ministra Ana Dias Lourenço que há muitos anos está à frente da Comissão Económica do Governo. Na área empresarial também já apareceram as primeiras associações de mulheres, assim como no acesso aos programas de microcrédito, o que mostra também a sua capacidade empreendedora.”
Importa também sublinhar que existem hoje muitas angolanas que se metem nos aviões e vão ao Dubai, China ou Tailândia negociar directamente a importação das mais diversas mercadorias. Pode mesmo concluir-se que apesar de não estarem nos grandes grupos económicos, as mulheres tem hoje um papel decisivo na estrutura do pequeno empresariado.
Uma das questões que se levanta sempre quando se fala de igualdade do género tem que ver com a obrigatoriedade de cumprimento de quotas nalgumas decisões importantes, como, por exemplo, a elaboração de uma lista de deputados, os concursos para a função pública ou os cargos de gestão em empresas estatais. Para uns, trata-se de uma necessidade, para outros, de uma nova forma de discriminação. E para Luísa Damião? “Penso que é uma discriminação positiva. Mas a questão das quotas tem de estar ligada à competência das mulheres. A qualidade na função é o mais importante. E existem mulheres que a têm nas mais diversas actividades. Como disse, a questão das quotas tem de ser vista em simultâneo com a questão das competências.” Resumindo, é ou não a favor da manutenção da obrigatoriedade das quotas? “Sou. Revejo-me neste sistema”, conclui.
Luísa Damião também não tem dúvidas sobre a importância da ascensão das mulheres. “Elas são mais competentes na gestão da causa pública. Aliam a competência à sensibilidade, e desde sempre que as mulheres tiveram um papel importante na construção do país. Desde a luta de libertação até aos dias de hoje. A participação na sociedade começa pelo facto de serem mães, terem um papel decisivo na educação dos cidadãos, até à sua participação na gestão do país. Costumo dizer que quando educamos um homem, educamos um indivíduo. Quando educamos uma mulher, estamos a educar a sociedade e o país”, defende. Acrescente-se que Luísa Damião tem três filhos e “a maior realização em termos pessoais é conseguir que eles tenham acesso á sociedade do conhecimento. Num mundo competitivo como o de hoje, o acesso à formação é decisivo. Felizmente que a minha filha mais velha já se formou em Medicina e está agora a fazer a especialização, o meu filho está em Direito e a mais nova está em Marketing e Comunicação. Essa é uma grande missão da minha vida.”

A importância das mulheres no meio rural é maior do que nas cidades, onde além da função maternal, são também elas que trabalham no campo, “costumo dizer que em África as mulheres são as grandes responsáveis pela alimentação das populações, uma vez que são elas que trabalham no campo, que produzem os alimentos”. Não deixa, no entanto, de acrescentar que “uma mulher para ser reconhecida têm de ser duas vezes melhores do que os homens. Veja-se, por exemplo, o que acontece no trânsito. As mulheres são muito mais cuidadosas e provocam menos acidentes do que os homens. No entanto, veja-se o que eles dizem das mulheres ao volante”.

a favor da discriminação positiva

Não restam dúvidas de que existe hoje um grupo de mulheres que se destaca nas mais diversas áreas da sociedade. Mas será que estas conversam, debatem, dão-se bem? Luísa Damião dá-nos a sua visão: “Por vezes existe a ideia de que as mulheres quando atingem o topo se isolam. Retiram a escada para mais ninguém lá chegar. Mas não é bem assim. Encontramo-nos em diversos locais e eventos públicos e aproveitamos para conversar. Direi que existe um espírito de unidade.” Funcionam como uma confraria? “Não direi isso. Mas existe solidariedade, troca de experiências e conselhos.”

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Quando se fala da possibilidade de termos uma mulher na Presidência da República e de este facto ainda poder demorar muitos anos, Luísa Damião defende: “Uma mulher como Presidente da República? Não estamos assim tão longe. Em África, já temos o caso da Libéria. Ellen Johnson está a fazer um bom trabalho. Parece-me normal que daqui a alguns anos possamos ter uma mulher no mais alto cargo da Nação.” No entanto, do Norte de África não chegam boas notícias. Os países árabes, que passaram por revoluções populares, estão agora a retirar direitos básicos às mulheres. Que em muitos casos demoraram anos a conquistar. Luísa Damião olha para esta situação com um primeiro sentimento. “Fico muito feliz por ser angolana. Por ser de um país onde não há discriminação entre homens e mulheres. Onde os salários e os direitos são iguais. Motiva-me pensar que passamos uma mensagem de igualdade que é defendida pela nossa Constituição. Dando argumentos a todos os que acreditam na igualdade de oportunidades independentemente do género. Em toda a sociedade, existe este pensamento. Na comunicação social, nos órgãos de decisão, na máquina do Estado. Temos de valorizar as políticas que têm sido desenvolvidas nesse sentido.” E com um segundo sentimento. “Claro que ainda há coisas a fazer. Veja-se o caso da lei contra a violência doméstica. Não é uma lei destinada apenas às mulheres, mas a toda a família. Aos homens também.”

Num país onde as segundas ou terceiras relações assumem um papel importante, não há como falar da relação entre homem e mulher sem falar da poligamia. Ainda há meia dúzia de anos se debatia na Assembleia Nacional se a nova Constituição deveria prever a poligamia, na altura apenas era sugerida a masculina. Houve uma enorme discussão à volta deste assunto, levando mesmo à divisão entre os deputados. “É preciso dizer que antigamente, os nossos avós viviam muitas vezes num ambiente de poligamia assumida. Tinham duas ou três mulheres, todas sabiam e algumas vezes até viviam na mesma casa. Não se escondia. Hoje, a questão é completamente diferente. Os homens tem duas e três mulheres, muitas vezes, mas nenhuma delas sabe. Fazem-se passar por solteiros e divorciados, e quando se descobre já há filhos, já há outras consequências, que por vezes acabam em violência doméstica. Isso não é poligamia, é infidelidade. Até porque quando são descobertos fogem à responsabilidade”, explica Luísa Damião, que acrescenta: “Naturalmente que não sou a favor da poligamia. Acredito que uma relação é a dois e não deve existir mais ninguém. Agora, não deixo de pensar que se a poligamia estivesse prevista na lei, que se eles tivessem que assumir as responsabilidades em todas as relações, certamente haveria muitos menos casos de infidelidade. O problema também gira à volta da impunidade. Mas, por princípio, sou contra qualquer lei que preveja a poligamia.”

27 anos de carreira no jornalismo

Luísa Damião, natural do Huambo, teve o primeiro contacto com a comunicação social em 1982. “Fui gravar a uma emissora de rádio local um programa para jovens e as pessoas acharam que tinha talento. O director convidou-me a ficar. Na altura eu trabalhava para outra organização e não aceitei. Mas as pessoas foram encorajando-me a seguir a profissão. Em 1984, esta mesma organização proporcionou-me uma formação em jornalismo em Cuba e acabei por ir, juntamente com um grupo de profissionais que ainda está no activo, nomeadamente o Vítor Silva, director do Novo Jornal”, explica. Quando regressou ao país, com a instrução básica terminada, fez estágio nos órgãos de comunicação estatais (rádio, televisão, Jornal de Angola e Angop). Acabou por entrar para a agência noticiosa que, na altura, era a que tinha maior falta de quadros. Na Angop, nessa altura, já tinha várias mulheres na redacção, continuou a sua formação, inscreveu-se no Instituto Médio de Economia, onde fez o curso de Jornalismo, e no ISCED, onde concluiu um curso de Linguística. “A língua portuguesa é fundamental para esta profissão. Por isso, quis melhorar os meus conhecimentos nesta área”, justifica.
Depois, devido a questões familiares (“fui acompanhar o meu marido que foi colocado como diplomata em Cuba”), acabou por sair do país. Em Havana candidata-se a trabalhar na assessoria de imprensa da embaixada angolana, na qual, mais tarde, se torna adida de imprensa. “Costumo dizer que durante um tempo fiz uma pausa para ser diplomata. Regressei em 2007 e nessa altura convidaram-me para dirigir a área da informação da Angop. Quando a empresa foi reorganizada e passou a existir o conselho de administração, fui nomeada para a posição que ocupo até hoje. Ainda cá estou e gosto muito do que faço”, diz sorrindo.
Faz questão de nos explicar que ao longo da sua carreira “nunca me senti discriminada. Acho que sempre me empenhei em fazer bem e em mostrar profissionalismo e, por isso, acabei por ter uma boa relação com todos. Nunca senti isso de ser mulher. Não tenho qualquer preferência em trabalhar com homens ou mulheres, quero é ter bons profissionais. Hoje, esta é uma equipa grande, e com ajuda de alguns conhecimentos de psicologia, que entretanto adquiri por formação, sinto que falo com todos da mesma maneira. Quem trabalha bem não tem problemas comigo. Sempre foi esta a minha maneira de estar na Angop”, confessa.
O seu sonho profissional também passa pela agência. “Quero que a Angop funcione em cinco plataformas. Hoje trabalhamos em apenas duas: texto e fotos. Eu quero adicionar o áudio, o vídeo e a infografia. A Angop deve ser capaz de chegar a todo o país e a todo mundo nestas cinco plataformas simultaneamente, levando a imagem e as notícias de Angola com objectividade e fiabilidade. Esse é o meu sonho e o meu grande objectivo profissional”, explica. Quando lhe perguntamos se sente mais política ou mais técnica, não hesita na resposta: “Sou uma técnica. A minha profissão é jornalista.”

Exame Angola/João Armando

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