A Vida Dura da Pesca Artesanal em Angola

A actividade é dura e a mão-de-obra barata. Pescadores artesanais com pequenas embarcações ganham a vida no mar. Actuam na contra costa e para a captura de peixe, utilizam a rede de cerco. A vida de pescador é difícil e arriscada.
O sol vai fugindo e os pescadores juntam-se numa pequena tenda numa praia da Ilha do Cabo. São os puxadores de rede “banda-banda”. No interior da tenda está o mestre Zé, responsável pelo grupo. São no total 15. Ele e mais quatro ajudantes têm a missão de “empurrar” a chata para o mar e estender a rede. Os outros ficam em terra para puxar.
Ao início da noite começam os preparativos. O tempo, como disse o mestre Zé, é que dita a direcção que devem seguir ao entrar no mar. “Como a maré está alta só vamos entrar às 23 horas”, explicou.
Enquanto o tempo não chega, o grupo aproveita para descansar na tenda que serve de moradia do mestre e sua família.
Uns aproveitam para manter a conversa em dia e outros para repousar. É o caso de Jorge Corrente, o tio Jorge. Tem 66 anos e é o mais velho dos puxadores. Com ele, outros também se deitam na areia. “Estamos a aproveitar para descansar”, disse o mais velho que tem na pesca o seu ganha-pão.
Tio Jorge cumpriu serviço militar no tempo colonial. O que ganha da pesca ajuda nas despesas da casa. Tem mulher e sete filhos. Na actividade de pesca nem todos os dias são santos. “Há dois dias que o grupo não consegue capturar peixe. Ontem, por exemplo, só conseguimos duas bacias com carapinha e espada que serviu para o consumo interno”, explicou.
Mestre Zé conta que a embarcação tem dono e quando a captura é pouca o peixe é dividido entre os trabalhadores. “Damos parte do peixe aos trabalhadores e a outra metade vende-se”, acrescentou.

Sobrevivência difícil

A pesca artesanal é hoje uma actividade de sobrevivência para os pescadores. Apesar do dinheiro da venda do pescado ser parco para sustentar a família, muitos pescadores artesanais procuram outras actividades para conseguirem o pão para os filhos.
Sebastião Rufino, 52 anos, é ajudante da rede “banda-banda”.
Deficiente físico é um homem que motiva os jovens. Apesar de não ter a perna esquerda, com força de vontade consegue desenvolver a tarefa sem qualquer problema. “Para puxar a rede, em vez das mãos, utilizamos a cintura e isso possibilita que eu trabalhe sem qualquer problema”, referiu.
Quando foi convidado para o trabalho do mar, de princípio, tio Sebastião ficava doente e chegou a apanhar uma pneumonia, uma vez que o trabalho é mais de madrugada. Depois habituou-se mas às vezes sente o corpo cansado.
Sebastião Rufino é pai de quatro filhos e, além de ajudante, também vende peixe, todos os dias, após o trabalho: “vendo na linha-férrea, no mercado do Tungango. O pescado hoje só dá para ter uns trocos”. Sente-se orgulhoso por ainda continuar a trabalhar: “já sou mais velho e tenho filhos. Para não ficar na rua a mendigar, com este trabalho consigo contribuir para a compra dos livros dos meus filhos e qualquer coisa para a cozinha”.
Feliciano Francisco foi militar. Hoje tem 47 anos e diz que a actividade já não está a ser lucrativa como antigamente: “há 20 anos, num dia de trabalho podia facturar qualquer coisa como 20 mil kwanzas, conforme o tipo de pescado capturado. Agora, tenhho dias que a venda do peixe nem dá para apanhar táxi”.

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No dia em que estivemos no “terreno”, o grupo capturou carapinha e espada. A carapinha foi vendida a 2.500 kwanzas, que serviu para repartir 100 kwanzas por cada ajudante e parte do peixe.
“Há momentos em que não vem nada na rede, só lixo do mar”, conta o mestre Zé.

Segredos do mar

O mar tem muitos segredos. Para o mestre Zé, o pescador deve ter técnica e nunca permitir que sua rede vá ao mar e venha sem nada. “Com a nossa intuição conseguimos ver a posição em que devemos lançar a rede. Quem não está atento em vez de peixe só apanha lixo e isso é frustrante e desmotivador para os trabalhadores, porque eles dependem do peixe”, sublinhou. Mestre Zé acrescentou que no mar, “para ter sorte” não se deve assobiar.
Bernardo Raimundo é puxador de “banda-banda” há três anos. Ele também foi militar. Tirou um curso de canalizador e trabalhou nesta profissão depois de ser desmobilizado. Como apanhou tuberculose, foi forçado a abandonar a profissão. “Fiquei muito tempo doente e fui obrigado a juntar-me aos pescadores da Ilha do Cabo, onde estou até à data”.
Dizer quanto ganha como puxador de “banda-banda”, é como entregar o ouro ao bandido: “não posso dizer o que ganho porque é perigoso”, disse Bernardo Raimundo, que sai de casa às 18h00 e só ­regressa às oito horas da manhã do dia seguinte. Numa noite ela chega a trabalhar em tuas chatas.

Ritual da Kianda

A actividade piscatória na Ilha do Cabo é caracterizada também pelo ritual da Kianda, que reúne, além das entidades tradicionais, pescadores e puxadores de “banda-banda”. O ritual é feito para acalmar o mar e permitir boa pesca.
Para alguns ilhéus, antigamente o ritual era feito dentro de uma casa feita de luando e lugar em que se guardavam as coisas que eram utilizadas no ritual. “Na kianda guardam-se os panos de xinguilamento, as panelas, bacias, pratos e outros utensílios”
José Bernardo Taty, 78 anos, vive em Luanda há 60. Natural de Cabinda conta que apesar de nunca ter participado em nenhum ritual teve a oportunidade de assistir a alguns. O que mais o comoveu foi quando viu reunidos velhos pescadores chamando a atenção da sereia, porque ninguém conseguia pescar: “eram mais velhos do Cacuaco, Samba, Benfica, Calumbo e outros.
Há quem diga que os rituais mudaram muito. “Antes o ritual era feito a todo o momento, mas hoje só acontece na época das festas da cidade de Luanda”, contou uma peixeira da Ilha do Cabo. Muitas mais velhas que faziam o ritual já não fazem parte do mundo dos vivos.
Mestre Zé reconhece que o ritual tem ajudado na actividade pesqueira. “Logo depois do ritual, vamos ao mar e conseguimos trazer muito peixe”, disse. E acrescentou que “é um momento em que os espíritos do passado são invocados e feitas algumas adivinhas”.

Pescador artesanal

A vida do pescador artesanal é dura: a rotina é arriscada. Antes mesmo do sol nascer, muitos já pegaram nas suas chatas para se aventurarem no mar, mas a hora da volta nunca se sabe. Tudo porque muitas das vezes os pescadores são surpreendidos pelas fortes correntes. Nesta altura, a tripulação tem de parar a captura e aguardar até a maré abrandar. “O tempo de pausa no alto mar pode levar duas a três horas. Quem vai ao mar deve ser guiado pela intuição, para saber lançar a rede”, contou.
Cada peixe, realçou, tem o seu movimento. Uns ficam quase à superfície da água e outros em meia-lua. A sardinha por exemplo fica em cima da água. Mas a carapinha, carapau, peixe-agulha e espada em meia-lua. O peixe-espada é o que mais aparece nos últimos dias. Na pesca artesanal para além da chata são ainda utilizados, a rede, linhas e o anzol. Existem ainda as redes de cerco e as malhas.
Para captura de peixe, o grupo utiliza uma rede de 14 metros de largura e seis de profundidade com chumbos e cortiças com um peso de 26 quilos aproximadamente.
As calembas e as catelas são os maiores problemas que os pescadores artesanais enfrentam. Estes dois fenómenos naturais do mar, para além dos seus malefícios, têm trazido grandes benefícios aos pescadores: “podemos ficar entre três a quatro dias sem pescar devido às calembas e catelas, mas depois da tempestade temos o mar limpo e mais peixes para pescar”, disse mestre Vena, que acabava de sair do mar sem peixe. “Hoje como vocês puderam ver, só veio lixo do mar. É triste mas nos próximos dias vai ser melhor”, explicou o pescador
Quando sai pouco peixe vai todo para o pessoal. Nesta altura é importante motivar os puxadores para o dia seguinte. Quando fazemos 10 ou 20 mil kwanzas tiramos uma para o dono da chata, parte para a manutenção da rede e a outra metade para os ajudantes”, disse o mestre Zé.
Mestra Vena pesca há mais de 20 anos. Naquela madrugada a sua chata saiu do mar apenas com lixo. “Na pesca é preciso ter calma. Há dias em que podemos conseguir capturar, mas outros dias não sai nada, como hoje”, disse.

Acidente no mar

Mestre Zé tem 15 anos de mar. Mas já viveu uma aventura que por pouco lhe custou a vida. Há três anos, mestre Zé, na companhia de outros marinheiros, rumou ao mar. O tempo estava péssimo para pesca.
“Como já estávamos há algum tempo sem pescar, resolvemos enfrentar a correnteza. Sorte nossa foi o facto de não estarmos muito distantes da costa. Fomos atacados por uma catela (onda forte) e a chata abriu-se ao meio”, contou o mestre, referindo que um dos integrantes da embarcação não sabia nadar e teve de ser transportado às costas. “Tivemos de nadar 30 minutos ou mais até chegar a terra”, explicou.

Jornal de Angola/Cristina da Silva

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