Mercado da Caponte em Benguela

Situado no bairro da Caponte, em Benguela, o mercado com o mesmo nome constitui a base de sustento para uma parte considerável da população local, conforme asseguraram alguns vendedores, compradores e estudantes abordados por O PAÍS, nessa espécie de grande superfície a céu aberto.

Para se evitar má interpretação dos argumentos avançados, houve mesmo quem justificasse dizendo que o mercado é um local de atracção de pessoas de vários estratos sociais.
“Aqui aparece gente de toda parte e de toda classe, a diferença maior só está no objectivo que os traz para cá” disse Manuel, realçando que “uns vêem para comprar, outros para vender, alguns ainda para constatar a fama e fazer trabalhos de investigação científica”.

Depois das afirmações que fez, Manuel revelou que estudava numa faculdade de Benguela e estava no mercado para efectuar uma pesquisa que serviria de base para um trabalho de sociologia sobre a convivência social em lugar de muita concentração de massas.
Ao estudante interessava sobretudo saber como é que pequenos grupos com diferenças bastante acentuadas conseguem forjar um padrão de convivência durante o dia e resistir às influências que isso pode criar no seio familiar.

“Como vêem, se a praça vai acabar por ser a base de alimentação para o meu estudo, quanto mais para aqueles que, diariamente, buscam aqui o salário e o pão para as famílias”, questionou o estudante. Ele adiantou que todos citadinos têm de se rever na situação de beneficiário das oportunidades de que o mercado dispõe para não parar o curso da vida.
Quem comunga das ideias do estudante e as reforçam, são as antigas vendedoras da Caponte. Uma delas é Joaquina Soares, 40 anos, que nunca trocou de negócio nos seus mais de 25 anos de ofício.
A vendedeira de farinha de milho, vulgo “fuba limpa”, diz ter começado no lado direito do mercado, de onde depois teve de sair com as companheiras para “cercar” a clientela no lado oposto, fixando-se no local até à data. Foramaram uma das maiores concentrações de venda, já que a fuba é um dos três produtos mais procurados na praça, depois do peixe e das hortícolas.

“O negócio aqui rende mais, porque a maioria das compradoras entra por esse lado da praça. Compram para revender o produto nos mercados do Cassoco, Cotel, da Fronteira e Calomanga”, explicou.
Apesar de ser um dos negócios mais lucrativos, num colectivo composto por mais de 40 pessoas a nossa reportagem não registou a presença de um homem sequer. Questionada sobre o assunto, Joaquina Soares referiu a “vergonha” e a “falta de paciência” como os factores que inibem os rapazes a venderem fuba.

“Há dias em que a pessoa sai daqui toda pintada de branco, até parece uma maluca, por isso os homens não aguentam esse tipo de negócio”, explicou a veterana, acrescentando pormenores sobre o trabalho que ela e suas colegas têm desde o tratamento do milho até se ter a fuba nos recipientes, que variam entre bacias grandes e cangulos (os conhecidos carros de mão).
Segundo este jornal, a venda de fuba exige muita paciência, porque são as próprias vendedoras que executam as fases que antecedem a transformação industrial.
“Primeiro compramos o milho e pisamo-lo para o separar do farelo, a seguir colocamo-lo na água onde deve ficar até amolecer, saindo daí para a secagem. Só depois é que levamos o cereal para a moagem”, detalhou uma vendedoura, informando que a operação completa pode levar entre de três a cinco dias.

Nesta secção, a fuba é vendida a 80 ou 90 Kwanzas o quilo, o que demonstra claramente a intenção de a despachar para outros comerciantes, que a vão comercializar noutras paragens, acrescendo 20 ou 30 kuanzas ao valor da aquisição.
O dinheiro das vendas é dividido:uma parte para o sustento da família e outra para manter o negócio em dia, como fez questão de referir Joaquina Soares, que não tem dúvida do poder de sustentabilidade que lhe oferece a sua actividade.
Ainda assim, queixou-se do facto de o mês de Janeiro ser o menos produtivo, por causa dos gastos exagerados que as pessoas fazem durante a quadra festiva no fim de ano.

“Em dias normais, até às 12 horas (período em que conversava com O PAÍS) teria vendido cinco ou seis sacos de 50 quilogramas, mas só vendi um”, reclamou, tendo informado que os dias de mais procura são Sexta-feira e Sábado de cada semana, devido ao famoso prato típico da terra: o calulú.
Intervindo, Dona Maria, outra comerciante, alegou ser por isso que a sua colega defendeu o peixe, as verduras e a fuba como os negócios mais rentáveis da Caponte. Segundo ela, “todo mundo quer comer calulú duas ou três vezes por semana, principalmente aos sábados”.

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O calulú é um prato muito consumido em Angola, sobretudo nas províncias do centro e sul do país, onde o confeccionam basicamente com peixe seco e fresco, ramas de batata, tomate e cebola, para além de quiabo, beringela e óleo de palma. Neste prato, muitas vezes, a carne substitui o peixe, uma opção não muito requerida pelo povo benguelense, por causa do seu custo elevado.
Embora já passe dos 40 anos, Dona Maria é a mais nova vendedora da secção de fuba, contando com apenas um ano de actividade.

“Já teria começado a vender há muito tempo, mas vi uma vizinha minha a morrer de tuberculose e sempre pensei que era devido à fuba que inalava involuntariamente”, justificou-se, adiantando que, mesmo assim, só optou pela actividade porque ela e o marido foram dispensadas da empresa privada onde trabalharam mais de 15 anos.

Depois do desemprego, ela e o marido já experimentaram muitos negócios dentro e fora de Benguela.
Mas a família só encontrou segurança depois de assentar na secção da fuba em Janeiro de 2011, a convite de uma amiga.

“De tanto pensar na vida, o marido contraiu uma trombose, da qual se vai recuperando, sem muitas possibilidades de voltar a andar”, revelou a senhora, que não conteve as lágrimas que lhe escorreram pelo rosto.
O silêncio que se seguiu foi preenchido com o movimento das colegas que, juntamente com a equipa desta reportagem, encorajaram Dona Maria a prosseguir com a luta. “Só Deus sabe”, desafogou, animando-se com actos de conquista de um cliente, que se aproximava da sua bancada.

A reportagem de O PAÍS passou pelas secções do pescado e das chamadas verduras (hortícolas), onde registou uma movimentação de compra e venda normal, como nos bons dias antes referenciados por Joaquina Soares, uma das veteranas da secção de fuba.
Próximos uma da outra, era notória a saída de clientes da zona do pescado para a das verduras e vice-versa. Os clientes compravam o peixe sardinha e carapau na primeira secção e tomate, cebola e rama na segunda.

Por intermédio das peixeiras, este jornal apurou que existe sempre uma ligação de parentesco ou mesmo de amizade entre elas e os pescadores.
O mesmo se passa entre os potenciais vendedores de produtos agrícolas e os agricultores das Bimbas, que dizem ser os maiores fornecedores do mercado da Caponte.

Contrariamente ao que acontece na secção de farinha de milho e do pescado, encontramos alguns homens a comercializarem produtos hortícolas.
Para eles, não há tempo para receios e impaciência, porque a situação do desemprego não lhes oferece muitas opções na vida.”Quem não tem cão, caça como o gato”, citaram o conhecido adágio empregue normalmente para justificar as opções por necessidade.

Lenha dá pão a muitas vidas Uma das grandes atracções para quem se desloca aos postos de venda do mercado da Caponte, localizados no extremo mais a sul do lado direito, no sentido igreja católica Nossa Senhora de Nazaré-praça, é o amontoados de lenha grossa expostos.
O produto provem das zonas montanhosas do Macango, na via entre os municípios de Benguela, Caimbambo e Cubal, de acordo com os vendedores, que não aceitam juntar o carvão na mesma secção.

Curiosamente, a lenha só é vendida a grosso, o que justifica a sua disposição em montes, que expostos podem ser vistos em vários pontos do mercado da Caponte.
As responsáveis das vendas preferiraram falar sob anonimato, por serem apenas trabalhadoras dos proprietários. Mesmo assim, garantiram que este negócio está a proporcionar uma assistência completa no seio de suas famílias, por se tratar de um produto muito procurado pelos proprietários de panificadoras e pastelarias.

“Além disso, há quem prefira comprar para pôr no seu quintal ou mesmo em algum canto da praça para vender a retalho”, contou uma das comerciantes, explicando que fixam os preços em função dos quilos que pesarem na balança que possuem.

Alberto Bambi/O País

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