Pelo Império do Bem


Jornal O País

São anos a testemunhar a degradação acentuada dos valores morais num país que recebeu como herança da guerra isso mesmo, também.A lista que prova sem sofismas que a sociedade angolana já não é mais o que era em matéria da valorização dos bons costumes, do respeito das normas de convivência, dos princípios de solidariedade, alargou demasiado e deixou consciências em estado de choque.
Pilares em teoria inabaláveis como o secular respeito devido às pessoas mais velhas, a honra, a palavra que se empenha, estremeceram de um modo que periga o amanhã e o próprio valor mais importante no homem – a vida – deixou de ser vista como tesouro sagrado. Por um banal telemóvel há adolescentes embriagados em drogas pesadas a dispararem armas de fogo que enlutam uma família.


A desconfiança, o medo e o horror tomaram as ruas e a vida de cidades inteiras ficou condicionada pelo risco do assalto, do insulto e do desrespeito por quem parece não ter nada a perder, mesmo que sobrevenha a repressão das forças policiais.

Sair de casa e voltar ileso, sem mazelas físicas ou espirituais, tornouse um jogo preso à imprevisibilidade da sorte. No semáforo, num entroncamento, na passadeira, onde quer que seja, seguir com os pequenos no automóvel da família pode acabar numa experiência angustiante, porque de fora podem chegar ofensas embaladas em palavrões que a decência proíbe repetir. A causa pode ser um descuido compreensível entre decentes, mas a quebra de valores já distorceu a tal ponto o sentido cívico da vida que uma saraivada de insultos vai desatar, com toda a certeza, reacções de indiferença dos transeuntes.

Ninguém mais parece indignar-se, num universo tomado pela aspereza e a brutalidade dos actos e dos pensamentos.

CONTRA O AVANÇO DA CRISE

No sábado 21 de Agosto, um sinal de profunda esperança sacudiu a sociedade. O impetuoso avanço da crise de valores cívico-morais mereceu um amplo debate em Luanda, num encontro que se idealizou apartidário não obstante ter surgido no seio do MPLA a iniciativa da sua realização.Angola parou para reflectir e as reacções de muitos dos participantes com quem pudemos conversar informalmente, espelharam uma recuperação animadora da crença num tempo diferente. Uma coisa pareceu certa e definitiva: todos sabem que a batalha só a ganharemos se agirmos unidos e determinados.

O MPLA foi buscar inspiração no seu líder para se adiantar a todos na abordagem do fenómeno da erosão dos bons princípios. Em reiteradas intervenções públicas e, ao que se diz, também em círculos restritos, José Eduardo dos Santos tem deixado nota de uma crescente preocupação com o estado crítico da moralidade entre nós e a estrutura partidária não fez mais do que corresponder àqueles sinais de alerta e angústia.

Em Dezembro de 2009, no dia 29, nas vestes de Chefe de Estado, o engenheiro José Eduardo dos Santos foi suficientemente expressivo para mostrar ao país inteiro que uma acção firme que tem de conduzir à mudança de mentalidades faz-nos absoluta falta, sob pena de vermos arruinada mais ainda a base moral que nos sustenta enquanto nação. Disse, nessa ocasião: “a hora de começarmos a construir uma nova mentalidade é esta”.

E apontou caminhos, ao afirmar que “não poderá haver mudanças profundas e duradouras se estas não tiverem na base, como eixo central e estruturante, a própria família, de maneira que nenhum esforço é demasiado para resgatar a dignidade e a integridade moral e espiritual das nossas famílias”.

Em Luanda, o Comité Provincial do partido da maioria mobilizou-se e à mesa-redonda do último sábado no Centro de Convenções de Belas, agregou uma campanha estendida no tempo e que vai contemplar, segundo uma nota difundida profusamente durante a semana, palestras e encontros em universidades, escolas, associações cívicas e outros lugares.

UM NOVO CIDADÃO

A preocupação com o modo como os comportamentos socialmente aceitáveis se desvirtuaram impõe, de acordo com palavras de José Eduardo dos Santos, o florescimento de um cidadão novo para corresponder ao “novo país que está a nascer”.

Na leitura do Presidente Dos Santos está a síntese perfeita da profundidade e seriedade do momento, pois há aí um apelo claro à necessidade de mudança em todos nós. Ou seja, os angolanos precisam de fazer muito mais, individual e colectivamente, para que mereçam estar à altura deste novo tempo.

Esta visão reforçou-a Roberto de Almeida, vice-presidente do MPLA, na abertura da mesa redonda, quando defendeu que a construção de uma nova mentalidade na família e na sociedade assente na educação.

“A educação é um instrumento indispensável para o progresso dos angolanos e é através da transmissão de conhecimentos e valores morais e cívicos que podemos moldar a personalidade do indivíduo e contribuir para a construção de um homem útil à sociedade”. Foram palavras de Roberto de Almeida.

Do que se trata, na verdade, é da formação no país de uma mentalidade que corresponda aos princípios que tornam as pessoas, à luz da lei e do senso comum, cidadãos irrepreensíveis.

Não há como deixar as más condutas, os desvios, os atropelos, ao papel repressivo dos órgãos criados pelo Estado para esse fim. É quixotesco e da mais pura utopia pensar que se a Polícia cair com todo o seu peso sobre os marginais que se multiplicam como cogumelos em época chuvosa teremos uma sociedade melhor.

Longe disso. Conseguiremos, quanto muito, um aumento em espiral da violência, porque os delinquentes refinarão técnicas e métodos e as forças policiais ver-se-ão coagidas a tratar com mais dureza actos e autores da delinquência, com o eterno receio de que a situação fuja do controlo.

As sociedades que melhor lidaram com o crime – sobretudo os que resultam claramente da fraca consciência cívica dos cidadãos – são aquelas que investiram fortemente na educação das pessoas, a todos os níveis, e conseguiram disseminar a ideia de que colocar-se à margem da lei e das normas que todos respeitam, é caminhar perigosamente para o abismo.

UNIVERSALIZAR O ESPÍRITO

Há-de ser com certeza fundamental que os angolanos saibamos todos do que se está efectivamente a falar quando se evoca a agora cada vez mais em voga crise de valores cívicos e morais.Ganharemos com menos dor e sofrimento a árdua batalha se falarmos a uma só voz e não nos perdermos em ruídos semânticos. Ou seja, é preciso que os activistas e outros líderes de opinião que se comunicarem com os diferentes públicos saibam explicar, com clareza, que males são aqueles que precisamos extirpar do nosso meio.

Nada de limitarmos o combate às manifestações mais expostas e quotidianas da perda da moralidade, como os roubos na via pública, os desacatos, o desrespeito ou o ruído que impede os outros de descansar. Esses serão, se quisermos, os elementos mais fáceis da lista, catalogáveis até por qualquer menino da primária.

Andar em contramão dos valores e dos princípios, nas condições concretas do nosso país, significa muito mais do que isso. É preciso ir bem mais a fundo, para perceber as quebras que se produzem ao nível dos actos da mente e das omissões.

O exacerbado egoísmo que leva muitos de nós a pensarem que a solidariedade e o apoio humanitários são acções a descobrir nos telejornais, com o PAM e o HCR no papel de protagonistas; a pobreza de espírito que leva muitos a travarem a ascensão do próximo nem que para isso seja preciso recorrer à mentira vil e à calúnia insana; a escandalosa ganância que leva muitos a competir consigo próprio na multiplicação dos milhões nas contas dos bancos; a mentalidade poluída que leva a acreditar que o sucesso individual quer dizer encher-se de amantes sustentadas ao ritmo de ofertas de apartamentos e jeeps top de gama, quando dedicados trabalhadores galgam quilómetros e mal sabem o que é viajar em férias; a omissão da ajuda aos necessitados concentrados em orfanatos, em lares de anciãos, aos mendigos que nos estendem a mão na via pública…enfim, uma mão cheia de sinais, visíveis e outros nem tanto, que vale a pena esmiuçar sem tabus nem preconceitos, para que a batalha agora retomada com vigor incomum redunde no sucesso que ajude Angola a reencontrar-se.

Luis Fernando/Jornal O País


Desenvolvimento de Massango Prejudicado com o Estado das Estradas

Foto : Eduardo Cunha

Viajar para o município de Massango, na província de Malange, requer esforços redobrados, paciência e preparar uma viatura em condições, ou seja, um todo-o-terreno. Pela frente esperam-nos perto de 140 quilómetros de estrada em péssimas condições de circulação.
Isso mesmo constatou na quarta-feira o primeiro secretário provincial de Malange do MPLA, Boaventura Cardoso, durante uma série de visitas de ajuda e observação às estruturas do seu partido naquele município fronteiriço.

Boaventura Cardoso reconheceu que “não é fácil viajar para os municípios de Massango, Luquembo e Qurima, por serem os mais longínquos e devido à inacessibilidade das vias de acesso a essas localidades”. No entanto, estão a ser realizadas obras de reabilitação da via, que decorrem sem sobressaltos. Por isso, neste momento, a estrada já está reabilitada até à ponte sobre o rio Lucala, nas imediações do sector de Santa Maria, que fica a 18 quilómetros da sede municipal de Kalandula, conforme apurou o Jornal de Angola.
Localizado a Norte da sede provincial, Massango tem uma população calculada em 25 mil habitantes que têm a agricultura como principal actividade, com particular realce para a mandioca e a ginguba. A caça, a pesca e o artesanato são também algumas das actividades do dia-a-dia da população. Para além da sede municipal, a região conta também com as comunas de Quihuhu e Quinguiengue.
Na região existem dois grupos etnolinguísticos, designadamente os bacongos, que integram as línguas phombo e soso, e o quimbundo, que é a segunda tribo predominante.
A guerra fratricida que dilacerou o país durante 30 anos levou tudo “por água abaixo”.
Com a conquista da paz definitiva em Angola, o município do Massango começa agora a reerguer-se das cinzas.
As obras de impacto social que estão a ser edificadas começam a mudar a imagem, para melhor, da vila de Massango. A circunscrição conta neste momento com um centro municipal de saúde, construído de raiz, novas salas de aula e estão também em curso as obras de construção de um novo sistema de captação, tratamento e distribuição de água potável.

Faltam professores

O sector da educação, de acordo com o seu responsável, Elias Domingos, enfrenta sérios problemas que se prendem com a falta de professores e de escolas.
No presente ano lectivo estão matriculados mais de quatro mil alunos da iniciação à 9 ª classe, mas o Jornal de Angola apurou que mais de duas mil crianças em idade escolar ficaram fora do sistema de ensino por falta de professores. O quadro docente da região é composto por 136 professores, número considerado irrisória face às necessidades.
“Necessitamos de mais 120 docentes do primeiro nível e ensino secundário”, revelou Elias Domingos. O município tem uma rede escolar composta por 69 salas de aula de construção precária e 13 de carácter definitivo, das quais seis estão em funcionamento e as restantes carecem de obras de reabilitação. Para se inverter o quadro, o sector precisa de pelo menos uma escola com 12 salas de aula.
Os alunos que concluem a 9ª classe são obrigados a deslocarem-se para o município turístico de Calandula para conclusão do ensino médio. A sede municipal, segundo disse o chefe de repartição da educação, conta apenas com três salas onde são leccionadas aulas da 7ª 8ª e 9ª classe, funcionando em dois turnos.
As aulas do primeiro nível, entretanto, são leccionadas em instituições religiosas e privadas.
O abastecimento de material didáctico tem sido feito, contudo, dentro da normalidade.

Sector da saúde regista melhorias

No sector da saúde os problemas não diferem dos da educação. De acordo com o titular da pasta no município, Pereira Armando, o sector dispõe apenas de 19 técnicos de enfermagem. O município tem uma rede sanitária constituída por quatro estabelecimentos.
A par da sede municipal, as duas comunas que compõem o município, Quinguiengue e Quihuhu, têm um posto de saúde cada. Para este ano, referiu o responsável municipal, está em curso a construção de cinco novas unidades sanitárias com vista à melhoria da assistência médica e medicamentosa. Na regedoria de Quitala Mbanze, a 167 quilómetros da sede municipal, foi construído um posto de saúde de carácter provisório.
O hospital de Massango tem capacidade para internar seis pacientes e presta serviços de pediatria e medicina geral, dispondo também de Banco de Urgência. O estabelecimento assistiu, entre Janeiro e Agosto, sete mil pacientes. As enfermidades mais frequentes são as doenças diarreicas e respiratórias agudas, malária, infecções dermatológicas, e doenças gastrointestinais. O estabelecimento clínico atende em média 50 doentes por dia, de acordo com o responsável.

Falta de comercialização e escoamento dos produtos

O sector da agricultura debate-se com a falta de infra-estruturas condignas para o seu melhor funcionamento, segundo disse ao Jornal de Angola o director da Estação de Desenvolvimento Agrário (EDA), Manuel de Lima. Além disso, a estiagem que afectou a localidade durante o mês de Março em nada contribuiu para a improdutividade.
Manuel de Lima disse que a campanha agrícola de 2008/2009 teve o êxito desejado, apesar de algumas dificuldades na comercialização e escoamento dos produtos do campo, devido ao mau estado da via. O responsável defendeu uma política do comércio rural em vez de os camponeses se limitarem apenas à permuta.
Destacou ainda a distribuição, no ano passado, de instrumentos de trabalho, que apenas beneficiaram os camponeses da sede municipal. Na campanha 2009/2010, segundo ele, estiveram envolvidos mais de mil camponeses, dos 13 mil inicialmente previstos.
O município de Massango, que está a beneficiar de várias infra-estruturas sociais, faz fronteira a Norte com a República Democrática do Congo, a Leste com o município de Marimba, a Sul é limitado por Kalandula, e a Oeste pela a província do Uíge. A sua superfície territorial e de 7.560 quilómetros quadrados.

Venâncio Victor/Jornal de Angola

Bengo Com Seca e Fome


Na quarta-feira, 25 de Agosto, a única certeza que a pequena Luzia Sebastião, 10 anos, tinha é que comeria funge de milho que ela própria confeccionava à entrada da casa onde vive com os pais, enquanto o seu irmão menor, Timóteo Sebastião, 7 anos, aguardava ansiosamente pelo saboroso prato.
Para muitos, o pirão simples, sem a carne ou peixe como conduto, pode não ser tão saboroso, mas os manos Sebastião tinham uma opinião contrária em relação ao prato, porque no dia anterior haviam saboreado arroz simples, cozinhado sem óleo vegetal, também sem qualquer molho como acompanhante.


Apesar de se alimentarem somente do simples pirão, distribuído pela Comissão de Emergência criada pelo Governo do Bengo, a vida destes manos ainda é melhor que a de outras crianças que passam o dia nas matas à procura do caroço de dendém, vulgo coconote, para comerem.

Nos últimos meses, centenas ou mesmo milhares de pessoas não têm o que comer na povoação de Banze Bundo, na comuna do Kicabo, município do Dande, na província do Bengo. Por esta razão, o Governo Provincial decretou situação de emergência por causa da seca que arrasa esta região de Kicabo, que compreende as povoações do Kapetelo 1 e 2, Tomba, Kizolandonga, Fuessi, Kibonga e Dongo Menga.

O repto do Governo do Bengo, encabeçado por João Miranda, aconteceu um dia depois de o Instituto Nacional de Estatística ter lançado o resultado do Inquérito Integrado Sobre o Bem-Estar da População (IBEP), onde se revela que 37 por cento da população no país vive abaixo da linha da pobreza.

Nas áreas mais próximas, como Berila, Kipasso e Cuco, o normal é encontrar tambores à entrada das cubatas de capim, onde os aldeões esperam pacientemente que cisternas do governo local leve água para beberem.

Mas, nas partes mais longínquas, como Tomba, Kapetelo 1 e 2, Kibonga e Dongo Mena, essa hipótese é remota, porque as picadas de terra batida não permitem a circulação de viaturas até às referidas povoações.

A situação nas áreas mais remotas é descrita como crítica, segundo Euclides Carlos, funcionário da Administração Comunal de Kicabo, porque as pessoas não têm água e comida. “Aqui existe seca porque o ano passado não choveu. Esperamos que o Governo nos ajude com comida e água.

São as coisas que fazem mais falta nesta área”, contou a O PAÍS José António Domingos, 59 anos, coordenador do bairro Kipetelo 1, composto por 170 famílias.

O coordenador é o exemplo fiel da tragédia que se abate na sua comunidade. Há quase uma semana que José Domingos, o líder, não tomava banho por falta de água. E o próprio acredita que a situação seja pior no seio do grupo que dirige.

Os habitantes do Kipetelo 1 passam duas ou três noites fora das suas casas quando saem à procura da água. As cacimbas mais próximas onde existe água em condições para ser consumida estão na aldeia do Maunzé mas, para lá chegarem, têm de transpor cinco povoações, entre os quais Sassa, Kipuassa e Kipetelo 2.

“Esperamos que o Governo faça mesmo alguma coisa para podermos aguentar a população. Não é só aqui, são treze bairros no Banze Bungo em seca”, explicou o coordenador do Kipetelo 1.

A seca já se abateu sobre a região em épocas passadas, numa altura em que o Programa Alimentar Mundial (PAM) ainda operava no país e acudiu a população. Mas o que vivem agora, segundo José Domingos, é pior, porque todas as plantações de mandioca, batata-doce, milho, feijão e outros produtos secaram.

“Eu próprio não consegui tirar nada. Agora até as laranjeiras também estão a secar. Essa seca é pior que a dos outros tempos”, lamentou o coordenador. “A fome só nos está a castigar por enquanto. Felizmente ninguém ainda morreu por causa dela. O próprio administrador quando nos visitou pela primeira vez encontrou as pessoas a comerem ‘mabomba’, que é a múkua”, acrescentou o ancião.

Eva Lelo é uma das camponesas que viu as lavras e os produtos, como feijão, abacates, gergelim e mandioca, devastados pelo desastre natural.

Para sobreviver, a senhora, assim como outros moradores da região, comeu, durante vários meses, raízes de plantas e múkua, que são retirados dos enormes imbondeiros que existem nas matas.

“Tu dia ngo múkua ni menha (comemos só múkua com água)”, começou por dizer, em kimbundu, a anciã Eva Lelo. A senhora conta que o fruto do imbondeiro, fervido ou natural, é o prato com que teve de conviver os últimos três meses deste ano. Durante a entrevista a O PAÍS, que aconteceu por volta das 11 horas da manhã, a camponesa explicou também que ela e os seus seis filhos ainda não tinham comida nada.

“Se não tem comida, o que é que podemos fazer? Vamos só mesmo procurar múkua para comer, é só colocar um bocadinho de água e pronto, até mesmo para os miúdos. É só mesmo para remediar”, disse a senhora, questionando, outra vez: “se a comida não está a aparecer, o que é que podemos fazer?”.

O coordenador recebeu, há duas semanas, 25 sacos de arroz e igual quantidade de fuba de milho, assim como 10 caixas de peixe, 12 de óleo e atum para distribuir às 170 famílias.

Eva Lelo e outros receberam os bens em função do número de membros que a sua família possui mas, nesta quarta-feira, 25, já não existia nem fuba de milho ou arroz. O mesmo acontece com outros moradores.

Perigo: Água com argila

Até ao meio-dia de quarta-feira, as pessoas aguardavam pacientemente pela chegada dos camiões cisternas. Mas, o veículo abastecia apenas as zonas mais próximas, cujos habitantes não se encontram dentro daquelas que estão em penúria.

Como nos outros dias, os populares utilizam água completamente turva para beber, proveniente de duas cacimbas, cavadas num terreno argiloso.

A primeira secou, mas a segunda ainda pode dar uns cinco ou 10 litros de água imprópria por dia. O rio mais próximo fica a 54 quilómetros dali.

A população local tem noção do perigo que representa a ingestão do “maldito líquido”, mas as leis da sobrevivência ditaram outras regras, porque os baldes e bidões de 25 litros com água tratada fornecidos pela administração comunal já tinham sido consumidos.

Um dos habitantes realçou que não há muitas chances de se encontrar água boa no subsolo, porque, depois de se perfurar cinco metros, encontra-se enormes quantidades de argila.

O enfermeiro João Paulo Garcia é o único técnico de saúde na região do Banze Bungo. Encontrámo-lo no seu local de trabalho, um pequeno posto de saúde construído de adobe e coberto com chapas de zinco, onde chegam diariamente cerca de 10 casos de diarreia e vómitos.

A doença é provocada pelo consumo de água com argila, mas o próprio enfermeiro não pode aconselhar o contrário aos populares, porque ele também bebe o mesmo líquido para não morrer de sede.

“Aquela água não está boa, mas também bebo. O que vou fazer. Digo-lhes apenas que deixem as impurezas no líquido repouserem no fundo dos recipientes onde estão guardados e ferverem mais tarde”, explicou o técnico de saúde, garantindo que administra soro oral aos doentes sempre que chegam com disenteria e vómitos.

Nos últimos meses, além do paludismo que é frequente na área, também têm aparecido doenças da pele, segundo o próprio administrador comunal, Mateus Ventura da Silva.

Mas a pouca água que recebem não chega para lavar o corpo, a roupa, beber e cozinhar. A opção recai sobre as duas últimas necessidades.

Jornal O País


Mundial de Basquete Angola Vence Jordânia


Sem uma exibição de encher os olhos, a Selecção Nacional sénior masculina de basquetebol derrotou ontem a similar da Jordânia, por 79-65, em partida disputada no Pavilhão Kadir Has Arena, pontuável para a segunda jornada do Grupo A, do Campeonato do Mundo, que decorre na Turquia.
Com este resultado, o combinado nacional, às ordens do português Luís Magalhães, continua a alimentar, agora com três pontos, o sonho de passagem aos oitavos-de-final.
A perder ao intervalo por 29-35, os decacampeões, que até à entrada do último quarto de jogo perdiam por um escasso ponto, 47-46, tiveram de recorrer à capacidade de sofrimento colectiva e espírito de entreajuda mútuo, para vergar os jordanos.


Aquém daquilo a que já nos habituou, aliar os bons resultados a exibições convincentes, a Selecção Nacional, inferior ao adversário em mais de 27 dos 40 minutos disponíveis para jogar, superiorizou-se à Jordânia a seis minutos do final do encontro, com a façanha a pertencer à dupla de Carlos, na circunstância Almeida e Morais, que com dois triplos sucessivos destaparam as “carecas” de uma das três selecções estreantes na competição.
Demasiado permeáveis defensivamente, os pupilos de Magalhães tiveram no derradeiro período maior lucidez de raciocínio, maior racionalização do tempo de ataque ao cesto, melhor circulação de bola e melhoria da eficácia (33 pontos), os pontos-chave para o alcance do triunfo.
A eficiência nos lançamentos de dois pontos, 37 tentados e 17 convertidos, fazendo 46 por cento, permitiu a Angola suplantar o adversário e conquistar o primeiro êxito no Mundial. Nos lançamentos de três pontos, os angolanos foram inferiores aos comandados de Mário Palma, com 10 marcados em 30 tentativas, 31 por cento, contra 10/28, 36 por cento dos jordanos.
Nos lances livres, as duas selecções empataram na percentagem, 36, para cada lado. Embora os campeões africanos tenham tentado mais, 69, e marcado 27, contra 57/ 22 do opositor. No total de ressaltos, a Jordânia capturou 17 ofensivos, 32 defensivos, 49 no geral, e Angola 15 ofensivos e 19 defensivos, 34.

Anaximandro Magalhães/Jornal de Angola


Novas Escolas no Bié Para Mais de 15 mil Alunos


Mais de 15 mil alunos de diversos níveis de ensino na província do Bié vão estudar em condições mais propícias, com a entrada em funcionamento de 40 novas escolas ainda este ano.
A informação foi avançada hoje no Kuito pelo director da educação, ciência e tecnologia, Manuel Gonga, sublinhando que as infra-estruturas foram erguidas no enquadro do programa do governo local que consiste no aumento de novas instituições de ensino.
Sem adiantar o montante empregue na construção, sublinhou que as infra-estruturas escolares foram erguidas nos nove municípios da província, acrescentando que os empreendimentos ajudarão na melhoria da qualidade do processo de ensino e aprendizagem.


O programa de construção de novas escolas, segundo o responsável, conta a parceria da Ong Checa People In Need, Fundo de Apoio Social “FAS”, bem como das administrações municipais.
Com vista a dar resposta as necessidades do sector, Manuel Gonga disse que o governo construiu este ano 50 salas de aulas a base do material pré-fabricado e enquadrou mais de três mil professores.
No presente ano lectivo, no Bié, foram matriculados 650.953 alunos em diversos níveis de ensino, distribuídos em 3 mil 960 salas de aulas. O processo de ensino aprendizagem é assegurado por 12.997 professores.