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04 Novembro 2009

Negócio de Água Cresce Nos Bairros Periféricos

Deste fontanário instalado no bairro Calemba II sai o sustento de várias famílias residentes nos subúrbios do Kilamba Kiaxi



Jornal de Angola-O negócio da água, nos bairros Sapú, Golfe e Palanca, na periferia de Luanda, ganha corpo. Muitas famílias têm neste negócio a sua principal fonte de rendimentos. Vivem disso. O negócio remonta há anos, quando, na falta de água canalizada distribuída ao domicílio, o Governo Provincial de Luanda construiu vários fontanários em bairros periféricos da capital. Um desses fontanários foi instalado no bairro Calemba II, município do Kilamba Kiaxi. Hoje, o local é um autêntico mercado de água. As filas começam a formar-se logo pela manhã. Para muitos cidadãos, no encher e acarretar o maior número de baldes, banheiras e tambores de água está o lucro.
O jovem José Bonga disse, à reportagem do Jornal de Angola, que está neste negócio há quatro anos. Conta que o seu ganha-pão começa com a recolha de bidões à porta do cliente, enche-os no fontanário da Calemba II e a seguir faz a entrega a cada um dos clientes. Para o transporte dos inúmeros bidões, José Bonga tem um carro de mão “made in Palanca”. E que não se pense que o trabalho de José Bonga é feito de forma atabalhoada. O jovem diz que tem tudo organizado numa agenda, onde tem anotada uma lista enorme de clientes com endereço, o número e o tipo de bidões entregues para encher. “Assim, não há como um cliente receber bidões de outro”, disse com olhar astuto, indicando que muitos clientes assinalam os seus bidões com verniz para evitar eventuais trocas na hora de recebê-los cheios de água.
José Bonga conta que faz todos os dias o trajecto Kimbango/Sapu/Calemba II e vice-versa. Reconhece que é cansativo, mas o que fazer quando, aos 22 anos, não se tem outra forma de ganhar a vida. “Prefiro fazer este trabalho do que roubar”, disse convicto.
José Bonga confidenciou-nos que é um negócio que “dá para aguentar a cozinha”. Por dia chega a facturar cinco mil kwanzas e por mês 150 mil kwanzas. Por cada bidão de 20 litros cobra 40 kwanzas, contra os cinco kwanzas que paga ao gestor do fontenário. Mas, acrescenta, os preços não são estanques, variam consoante a distância. Quanto maior for a distância entre o fontanário e a casa, mais o cliente terá de pagar.
Por exemplo, se o cliente reside no bairro Palanca, paga 50 kwanzas por bidão. Nos dias em que há falta de água no fontanário, o preço também varia de cinquenta para 100 kwanzas o bidão. Isso acontece, segundo José Bonga, porque são obrigados a andar longas distâncias para conseguir o precioso líquido.

Gastos

Nisso tudo quem mais sofre são as donas de casa. Suzana Fay é uma dona de casa que gasta todos os dias 300 kwanzas para ter água em casa. Quando há falha de água, então gasta 500 kwanzas ou mais.
Nesse negócio, não importa o veículo que transporta a água, seja um carro de mão, uma motorizada Keweseki, um Toyota Starlet ou um Toyota Hiace. O que interessa é que seja um veículo capacitado para transportar bidões de água. Uma motorizada com carroçaria de marca Keweseki é capaz de transportar 42 bidões de 20 litros, ou mais, e um Toyota Starlet 12 bidões.
Paulo Bunga é o jovem que gere o fontanário da Calemba II. Ele conta que a sua função é cobrar a água aos consumidores e, de quando em vez, orientar a limpeza do lugar, porque à volta do fontanário pára muito lixo. O jovem reconhece que o lixo e as águas paradas são prejudiciais à saúde, razão pela qual, sempre que pode, ele e outros jovens fazem limpeza ao redor do fontanário.
Explica que os valores arrecadados diariamente são entregues à administração da Epal no Calemba II, que faz a gestão desses fundos e paga aos homens que efectuam a limpeza do local.
Conta que o único senão, nessa empreitada, são as pessoas que sabotam o material, como areia e pedra, utilizado para entulhar os buracos provocados pela queda de água no local.

Desperdício de água

A equipa de reportagem do Jornal de Angola constatou que há um grande desperdício de água nos vários fontanários instalados um pouco por todos os bairros periféricos da capital do país. As mangueiras são muitas vezes deixadas no chão, com muita água a jorrar por todos os lados. Crianças, jovens e adultos dão-se inclusive ao luxo de se banharem no local, deixando tudo à volta em autênticas lagoas de água.
Paulo Bunga, o jovem responsável pelo fontanário da Calemba II, disse que tem sido muito difícil convencer os consumidores a não desperdiçarem a água. “Eles não querem saber”, disse resignado.
O fontanário da Calemba II abastece os bairros do Golfe, Sapu, Kimbango, Palanca e outros pequenos bairros limítrofes, pertencentes ao município de Viana, além do próprio Calemba II.
Kilamba Kiaxi é um município da província de Luanda. Tem 64,1 km² e é habitado por cerca de 234 mil habitantes. Limita a Oeste com o município da Maianga, a Norte com os municípios do Rangel e Cazenga, a Este o município de Viana e a Sul com o município da Samba. É constituído pelas comunas do Neves Bendinha, Golfe, Palanca, Havemos de Voltar, Vila Estoril e Camama. A designação do município significa, na língua quimbundo, Terra (Kiaxi) de Agostinho Neto (Kilamba).

Rangel sem água há anos

Numa breve ronda efectuada pela nossa equipa de reportagem ao interior do bairro Rangel constatou-se que há mais de quatro anos que os moradores da comuna com o mesmo nome estão sem água nas torneiras.
Manuel Firmino, 45 anos e morador na rua da Ambaca há mais de vinte anos, conta que quase todas as casas da sua rua tinham água canalizada, mas há quatro que são obrigados a comprar em camiões cisternas 200 litros de água por 600 kwanzas.
“Para quem, como eu, tem seis pessoas em casa sou obrigado a gastar, de dois em dois dias, 1800 kwanzas, o que arromba com o orçamento familiar”, lamentou.
Segundo ele, já foram feitas várias demarches junto às administrações comunal e municipal para encontrar uma solução, mas o que é verdade, volvidos quatro anos, “nem água vai - nem água vem”.
Maria Manuela, outra moradora ouvida pela reportagem do Jornal de Angola, conta que não acredita que o Rangel volte a ter água como antigamente. Aponta os lençóis freáticos que ameaçam engolir o bairro e as obras inacabadas nas estradas como factores impeditivos.
António Russo declarou que há muita gente a ganhar fortunas com o negócio dos camiões cisternas que vendem a água no bairro, por isso sentenciou que “não vai ser tão cedo a reposição da água no bairro Rangel. O negócio dá de comer a muita gente”.


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