Poetas Angolanos-Ana Paula Tavares



Nascida na Huíla, sul de Angola, Poeta e historiadora. tendo obtido o grau de Mestre em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Foi membro do júri do Prémio Nacional de Literatura de Angola nos anos de 1988 a 1990 e responsável pelo Gabinete de Investigação do Centro Nacional de Documentação e Investigação Histórica, em Luanda, de 1983 a 1985

Tem poesia dispersa em jornais e revistas em Angola, Brasil, Portugal, Alemanha, Suécia, e Canadá. Em 1999, publicou vários estudos sobre história de Angola na Revista “Fontes & Estudos” de Luanda.

Poesia Publicada

Ritos de Passagem (Luanda, 1985 União dos Escritores Angolanos),
O Lago da Lua (Lisboa, Ed. Caminho, 2000)
Dizes-me Coisas Amargas Como os Frutos (Lisboa, Ed. Caminho, 2001)
Ex-Votos (Lisboa, Ed. Caminho, 2003).

Obra em prosa

O Sangue da Buganvília (Praia, Centro Cultural Português, 1998)

“Vieram muitos…”

“A massambala cresce a olhos nus”

Vieram muitos
à procura de pasto
traziam olhos rasos da poeira e da sede
e o gado perdido.

Vieram muitos
à promessa de pasto
de capim gordo
das tranqüilas águas do lago.
Vieram de mãos vazias
mas olhos de sede
e sandálias gastas
da procura de pasto.

Ficaram pouco tempo
mas todo o pasto se gastou na sede
enquanto a massambala crescia
a olhos nus.

Partiram com olhos rasos de pasto
limpos de poeira
levaram o gado gordo e as raparigas.

 O Mamão

Frágil vagina semeada
pronta, útil, semanal
Nela se alargam as sedes
no meio
cresce
insondável
o vazio…
in: Ritos de Passagem, Luanda, 1985

Canto de nascimento

Aceso está o fogo
prontas as mãos

o dia parou a sua lenta marcha
de mergulhar na noite.

As mãos criam na água
uma pele nova

panos brancos
uma panela a ferver
mais a faca de cortar

Uma dor fina
a marcar os intervalos de tempo
vinte cabaças deleite
que o vento trabalha manteiga

a lua pousada na pedra de afiar

Uma mulher oferece à noite
o silêncio aberto
de um grito
sem som nem gesto
apenas o silêncio aberto assim ao grito
solto ao intervalo das lágrimas

As velhas desfiam uma lenta memória
que acende a noite de palavras
depois aquecem as mãos de semear fogueiras

Uma mulher arde
no fogo de uma dor fria
igual a todas as dores
maior que todas as dores.

Esta mulher arde
no meio da noite perdida
colhendo o rio
enquanto as crianças dormem
seus pequenos sonhos de leite.

(O lago da lua 1999)

 

A Anona

Tem mil e quarenta e cinco
Caroços
Cada um com uma circunferência
À volta
Agrupam-se todos
(arrumadinha)
No pequeno útero verde
Da casca

In Ritos de Passagem, 1985

 Com os Meus Agradecimentos,Retirado do Blogue

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