Grande Prémio do Huambo 2011

Fotografias de Matthias Offodile/SkyscraperCity


Poetas Angolanos-Abreu Paxe

Abreu Castelo Vieira dos Paxe
Nasceu em 1969 no vale do Loge, município do Bembe província do Uíge, (Angola)
Licenciou-se no Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED), em Luanda, na especialidade de Língua Portuguesa. É docente de Literatura Angolana nesta mesma instituição.
É membro da União dos Escritores Angolanos (UEA)
Venceu o concurso Um Poema para África em 2000,
Foi animador do Cacimbo do Poeta na sua 3ª. edição, actividade organizada pela Alliance Française, por ocasião da dia da África.
Figura na Revista Internacional de Poesia “Dimensão n. 30 de 2000, na antologia dedicada à poesia contemporânea de Angola, editada em Uberaba, Brasil.
No Brasil, foi publicado nas revistas Dimensão (MG), Et Cetera (PR) e Comunità Italiana (RJ), Portugal, na antologia Os Rumos do Vento, (Câmara Municipal de Fundão).
Publicou:

A chave no repouso da porta (2003), que venceu o Prémio Literário António Jacinto.
O Vento fede de luz, Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2007.

A câmara elemento da rasura

transmudar o monólogo obscuro emagrece
o tempo contrária plenitude imperfeita cai azeda palavra
há sempre limites para o exílio de textura vertical
penumbra os ângulos auroras de meia superfície
molham a relva tarde os papéis brancos infernos
ainda um corpo imperativa bainha defeito lençol
nascimentos esquecimentos descobrimentos
de rima relvado
poema fumaça da água viva conjunção os escombros
mastigado avesso árvores plana geometria parada
lança rasura a transparência devolve a montanha outra lavra

Abreu Paxe, in A CHAVE NO REPOUSO DA PORTA
Luanda: INIC, 2003. Colecção A Letra 29 Prémio Literário António Jacinto, 2003

O limão fruto do mês

no tópico a penumbra limita o céu
a deus a mesma paragem
passa em liberdade suave textura
a mulher tarde horizontal
de estrutura espessa o género substantiva camada
passa a boca espalhada pelo corpo
guarda todos os traços femininos empurram o limão
permanecem no caminho de frias letras
decifrada a edição é toda ampla pluma
os determinadores pernas no planeta as sedas
deixam de lado os factos contextuais
as luzes estendem-se até a nudez
a existência tão longa produção constrói estrelas
outro corpo
as trevas janelas inquilinos selando juro

Abreu Paxe in O VENTO FEDE DE LUZ Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2007.

O Material o Andor das Paredes

todos os dias estas velas traziam alegóricas cidades.
mesma surpresa confidente pé
o céu todo dia sentado.

 

na terra o material das paredes empurra deitado
o meio-dia vestido inesquecível encantamento.
os olhos adiante lúcia na irrigação hoje primeiro dia
eram falas no sétimo mês inquieto discurso dentro dele
o céu todo dia de pé.
a terra material das paredes declarativos os espelhos
vidro fundo o sinal próximo acinzentado andor
este lugar se nada ocupa só dissolve
o possível sorriso na imutabilidade do tempo
De Certo Modo os Destroços Palavras
De igual modo as partículas invariáveis traços lábias
sempre há uma mulher no mal
por isso trepo meu olhar pelas paredes e pelo tecto
o último cruzar de pernas

 

zona prestigiada o eixo compreendia o acento de intensidade
junto todos os sentidos no modo algum tempo exacto
sem esquecer na via erudita expressão
o étimo uma mesa com o portal aberto
outro reino de certeza
a comunicação oficial adoptou o berço língua lençol
tanto tempo sonorizado
estava inscrito nas fronteiras este período
das alíneas funções sintácticas
diferenças dos pares vocabulares
nascem outras partículas variáveis destroços

Muma Ulunga da Brevíssima Existência

Sinto em mim oposto ao medo
- lá para dentro minha pedra (brevíssima existência) -,
o viver silenciado
como se desta vez a existência

 

abrisse a alma que o guia muna ulunga
a calma mas próxima função
conduz-me anunciando a sedução
a noite ganha razão
como ferida a glória no duro labirinto
muito perto do sofrer
morre em mim oposto a amargura
a doçura da vida espumas de luz lá para diante:
o fracasso, a desonra. que importa a vitória
talvez sobre os dias porque alguém me esmaga a cidade
pó só pó sobre os ombros da morte o vazio
efectivamente intervalo de noites a brevíssima,
inacreditável existência (a pedra) já nada seduz )Os Meus Agradecimentos ao BlogueLeia Também


Angola

Fotos pertencentes a Eric Lafforgue no  Flickr

Benguela-Mercado de Rua
Decoração Himba
Menina Himba em Sua Casa
Homem Himba
Homem Mucubal
Lobito-Casa Antiga na Restinga
Meninas Mumuhuilas
Lubango
Mucubal
Mulher Mumuhuila
Mulher Mucubal
Mulher Himba
Mulher Himba Dançando
Mulher Mucubal
Mulher Himba e Filho
Mulher Mucubal
Mulher Mumuhuila
Mulher Mumuhuila
Mulher Mucubal
Mulher Mucubal
Mulheres Mumuhuilas
Mulher Mumuhuila
Mulher Mumuhuila e Filho Albino
Mulher Mumuhuila
Rapariga Mucauwana
Namibe
Rapariga Himba
Mulher Mucubal
Sorrisode Carolina
Tombua
Rapariga Mundimba
Raparigas Mucawana
Tombua
Mulher Mudimba
Aldeia Mucubal

Namibe


Poetas Angolanos-David Mestre

( Loures, Portugal, 1948.Almada, Portugal, 1997)

Luís Filipe Guimarães da Mota Veiga foi para Angola com apenas oito meses de idade e viria a falecer vítima de um acidente vascular cerebral. com 49 anos.

 

Trabalhou como jornalista e crítico literário em variados jornais e revistas de Angola, de Portugal e de outros países, coordenou diversas páginas literárias.

 

Em 1971 fundou e dirigiu o grupo «Poesias – Hoje».

 

Foi director do «Jornal de Angola». era membro da Associação Internacional de Críticos Literários e da União dos Escritores de Angola.

 

A sua obra está traduzida em várias línguas.

Obra poética:

  • Kir-Nan, 1967, Luanda, edição do autor.
  • Crónica do Gheto, 1973, Lobito, Cadernos Capricórnio;
  • Dizer País, 1975, Nova Lisboa, Publicações Luanda;
  • Do Canto à Idade, 1977, Coimbra, Centelha;
  • Nas Barbas do bando, 1985, Lisboa, Ulmeiro;
  • O Relógio de Cafucolo, 1987, Luanda, União dos Escritores Angolanos;
  • Obra Cega, 1991, Luanda, edição do autor
  • Subscrito a Giz – 60 Poemas Escolhidos, 1996, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda
Sinal de Seda

Dois negros
timores
secretos
rubis

teus olhos
pedem
ao Ganges
por ti

O tigre
contempla
no lago
de prata

o sinal
de seda
em que

            sorris
David Mestre in Nas Barbas do Bando

Espera

Existo acento de palavra, carapinha
recordação áspera de monandengue,
mapa de conversas na visitação da lua,
grávida luena sentada no verso da fome.
aqui esqueço África, permaneço
rente ao tiroteio dialecto das mulheres
negras, pasmadas na superfície do medo
que bate oblíquo no quimbo quebrado.
num gabinete da Europa, dois geógrafos
vão assinalar a estranha posição
dum poeta cruzado na esperança morosa
das palavras africanas aguardarem acento.

 David Mestre (in (Crónica do ghetto, 1973)

Blues
Tua voz desliza como um pássaro aberto na lâmina do dia
ilha que se levanta e voa a partir do Sol
lamento gritado da floresta por sua gazela perdida
choro grande do vento nas montanhas
ao nascimento de um escravo mais na história do vale
Tua voz vem de dentro da cidade
de todas as ruas bairros e leitos da cidade onde houver
um calor de pernas
contar o silêncio das horas guardadas a soco no sarilho
dos ventres
com um jazzman a assobiar na escuridão dos pares
a memória ácida do chicote
nos porões do Mundo

David Mestre in «Subscrito a Giz – 60 poemas escolhidos 1996»

O Sol nasce a oriente

(de um quadro de Malangatana)

Povo, de ti canto o movimento
teu nome, canção feita de fronteiras
lua nova, javite ou lança
tua hora, quissange em trança
Do longo longe do tempo
arde minha flecha, meu lamento
minha bandeira de outro vento
aurora urdida nos lábios de Zumbi
De ti guardo o gesto
as conversas leves das árvores
a fala sabia das aves
o dialeto novo do silêncio
e as pedras, as palavras do medo
os olhos falantes da mata
quando a onça posta a sua arte
nos fita, guardada em sua mágoa.
De ti amo a denuncia felina
das tuas mãos quebradas ao presente
a dança prometida do sol
nascer um dia a Oriente

                             David Mestre (in «No reino de Caliban II – antologia
panorâmica de poesia africana de expressão portuguesa»)

 Com a Devida Vénia,Retirado do Blogue

 

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